Derrota de Orbán na Hungria testa alcance internacional do bolsonarismo
Viktor Orbán perde neste domingo (12/4) a eleição parlamentar na Hungria após 16 anos no poder e abre uma incógnita sobre a principal referência externa da família Bolsonaro. A queda do premiê conservador enfraquece um dos pilares da rede internacional que oferece apoio político e simbólico ao ex-presidente Jair Bolsonaro em meio a condenações judiciais no Brasil.
Aliança pessoal e política em xeque
O fim do longo ciclo de Orbán no poder encerra uma fase em que Budapeste funciona como vitrine de um modelo de direita nacionalista admirado por Jair Bolsonaro e seus aliados. O húngaro é um dos poucos chefes de governo europeus a comparecer à posse do então presidente brasileiro, em 1º de janeiro de 2019, em Brasília, e transforma a relação em algo que combina diplomacia oficial e camaradagem política.
Em quatro anos, os dois se encontram em Brasília, Budapeste e Buenos Aires, sempre diante de câmeras e discursos afinados em torno de valores como “Deus, pátria, família e liberdade”. Em fevereiro de 2022, Bolsonaro finalmente cumpre a visita à Hungria que adia por causa da pandemia de covid-19. No Palácio de Budapeste, trata Orbán “praticamente como um irmão” e diz acreditar no país e no líder “na defesa dos nossos povos e na integração dos mesmos”.
A relação extrapola a retórica. No mesmo encontro, Brasil e Hungria assinam memorandos de entendimento em defesa, cooperação humanitária e gestão de recursos hídricos. Os documentos, de caráter genérico, servem menos para alterar a balança comercial e mais para carimbar uma proximidade política em meio às críticas internacionais a ambos os governos por ataques a instituições e à imprensa.
A derrota de Orbán agora rompe essa narrativa de continuidade e sucesso eleitoral que a família Bolsonaro utiliza como espelho. O líder que por mais de uma década exibe vitórias seguidas e controle sobre o Parlamento passa à condição de ex-governante, sob escrutínio da oposição interna e das instituições europeias, o que reduz sua margem de atuação como fiador externo do bolsonarismo.
Rede de apoio atravessa campanhas e crises
O laço entre Budapeste e Brasília não se limita aos dois chefes de governo. Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo PL, circula com desenvoltura nos ambientes montados por Orbán para articular a direita radical internacional. Em abril de 2019, o parlamentar visita o premiê em Budapeste. Em abril de 2024, volta à capital húngara para a Conferência de Ação Política Conservadora, uma das principais vitrines globais do conservadorismo, onde posa para fotos com o anfitrião ao lado da esposa e do filho.
Mesmo fora da chefia de governo, Jair Bolsonaro mantém Orbán como peça central de sua narrativa de perseguição política. Em fevereiro de 2024, após operação da Polícia Federal por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente passa duas noites na embaixada da Hungria em Brasília. Reportagem do jornal americano The New York Times aponta intenção de pedir asilo político. A defesa nega o pedido, fala em “contatos com autoridades do país amigo”, mas confirma a estada.
No mesmo período, Orbán usa as redes sociais para defender o aliado. “Um patriota honesto. Continue lutando, senhor presidente”, escreve o húngaro em 8 de fevereiro, dia da operação da PF. Em novembro de 2025, já com Jair Bolsonaro condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe, o premiê recebe Eduardo Bolsonaro na embaixada da Hungria nos Estados Unidos e reforça publicamente o vínculo. Define os brasileiros como “amigos e aliados que nunca desistem” e ataca o Judiciário brasileiro ao afirmar que “caças às bruxas políticas não têm lugar na democracia”.
O apoio atravessa ainda a campanha presidencial de 2022. Em vídeo divulgado nas redes de Bolsonaro, Orbán elogia o colega, diz ter “encontrado poucos líderes tão excepcionais” em mais de 30 anos de vida pública e exalta supostos resultados econômicos e de segurança pública do governo brasileiro. “Espero que ele possa continuar seu trabalho”, afirma o húngaro, em mensagem dirigida ao eleitorado brasileiro a poucos meses da votação.
Documentos obtidos pela Folha de S.Paulo mostram que, em julho de 2022, em plena campanha, o chanceler húngaro, Péter Szijjártó, pergunta à então ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Cristiane Britto, em encontro em Londres, “se haveria algo que o governo húngaro poderia fazer para ajudar na reeleição do presidente Bolsonaro”. O gesto expõe a disposição de Budapeste de intervir politicamente em favor do aliado, ainda que sem consequências práticas conhecidas.
Impacto na direita global e no cenário brasileiro
A saída de Orbán do governo húngaro altera o equilíbrio interno da direita na Europa Central, região em que o premiê exerce influência sobre partidos aliados e tensiona a relação com Bruxelas. A mudança enfraquece um eixo que reúne líderes como o ex-presidente americano Donald Trump e o argentino Javier Milei em torno de pautas nacionalistas, conservadoras nos costumes e hostis a organismos internacionais.
No Brasil, o impacto é sobretudo simbólico, mas não irrelevante. A família Bolsonaro perde o exemplo de governante europeu que combina longa permanência no poder, retórica contra elites liberais e disposição de defender o ex-presidente em momentos críticos. Sem Orbán no comando do Executivo, viagens, fotos oficiais e declarações conjuntas perdem peso institucional e tendem a ser rebaixadas à esfera de relações pessoais.
Analistas políticos ouvidos por veículos internacionais apontam que redes de apoio como a construída em torno de Orbán ajudam a manter vivo o capital político de líderes que enfrentam processos criminais em seus países. No caso brasileiro, o ex-presidente carrega uma condenação de mais de 27 anos de prisão e outras ações penais em andamento. A solidariedade vinda de Budapeste oferece argumento adicional para mobilizar a base mais fiel, que enxerga perseguição judicial.
A derrota de Orbán também envia um recado para movimentos conservadores que tentam se apresentar como inevitáveis ou irreversíveis. Em 16 anos, o premiê promove uma série de reformas que ampliam o controle do Executivo sobre a mídia pública e o Judiciário, e enfrenta sucessivos embates com a União Europeia. O resultado das urnas mostra que esse modelo encontra limites e pode ser revertido por via eleitoral.
No curto prazo, diplomatas em Brasília avaliam que a nova liderança húngara deve buscar reaproximação com Bruxelas e reduzir a temperatura nas disputas com instituições europeias. Uma guinada nessa direção tende a afastar Budapeste das causas mais caras ao bolsonarismo, como o ataque frontal a cortes constitucionais e a relativização de decisões judiciais.
Futuro da aliança e cálculo político
O enfraquecimento de Orbán obriga a família Bolsonaro a recalibrar sua vitrine internacional. A rede de contatos inclui ainda figuras como Donald Trump, novamente candidato à Casa Branca, e Javier Milei, que assume a presidência argentina em dezembro de 2023. Nenhum deles, porém, oferece a combinação de tempo de poder, estabilidade institucional e proximidade pessoal que o premiê húngaro constrói ao longo de 16 anos.
O novo governo em Budapeste terá de decidir se mantém, redefine ou esvazia os memorandos assinados em 2022 com o Brasil, em áreas como defesa e recursos hídricos. Em tese, os acordos seguem válidos, mas o tom político que os sustenta muda. O gesto de receber um ex-presidente investigado em uma embaixada estrangeira, por exemplo, dificilmente se repete sob outra administração, preocupada em reconstruir pontes com parceiros europeus.
Para Jair Bolsonaro, cada revés de aliados estrangeiros reduz o espaço de manobra internacional em meio às restrições impostas pela Justiça brasileira. Em fevereiro de 2024, o ministro Alexandre de Moraes conclui que não há provas de pedido de asilo à Hungria, mas o episódio evidencia a disposição do ex-presidente de recorrer a essa rede quando se sente acuado.
As próximas eleições municipais e nacionais no Brasil vão testar até que ponto o discurso de perseguição, amparado por apoios como o de Orbán, ainda mobiliza o eleitorado. A ausência do premiê húngaro no poder não encerra a circulação de ideias e símbolos que aproximam Budapeste e Brasília nos últimos anos, mas torna mais solitária a cruzada de quem, de um lado e de outro do Atlântico, insiste em chamar decisões judiciais de “caça às bruxas”.
