Caco Barcellos mostra o Irã que a TV quase nunca exibe
Caco Barcellos leva ao ar, em reportagem exibida no Fantástico em 2026, um Irã de piqueniques, filas de supermercado e protestos, não só de mísseis e “terroristas”. Em plena escalada de tensão com Estados Unidos e Israel, o repórter rompe a caricatura dominante e coloca gente comum no centro da tela.
Um minuto de piquenique contra décadas de estereótipos
O momento mais simples da série, gravada em Teerã, vira também o mais contundente. Em cerca de 60 segundos, uma câmera aberta acompanha famílias espalhadas pela grama, no Dia da Natureza, feriado celebrado a cada 13 de abril. Crianças correm entre toalhas coloridas, homens e mulheres dividem espetinhos no carvão. Nada explode. Ninguém corre. A cena desmonta, em silêncio, boa parte do noticiário que chega há décadas ao público brasileiro.
No mesmo domingo, horas antes, a escalada de ameaças entre Washington, Tel Aviv e Teerã domina manchetes, com previsões de “apocalipse” e “ataques iminentes”. O Fantástico entra no ar com mapas de mísseis, declarações de Donald Trump e de generais israelenses. Quando a reportagem de Caco começa, a expectativa é de bunkers, sirenes e homens armados em cada esquina. O que aparece é churrasco em família.
O contraste não é casual. Em parceria com o cinegrafista e repórter Thiago Jock, Caco passa dias em Teerã e em outras cidades registrando o cotidiano sob tensão. A equipe circula por parques, mercados, manifestações e regiões populares enquanto governos trocam ameaças. O roteiro aposta na fricção entre boletins militares e vida comum. A narrativa avança entre planos de foguetes em bases iranianas e closes de espetinhos fumegantes.
O repórter não esconde a moldura em que trabalha. A Globo, historicamente alinhada a leituras favoráveis a Washington e a Israel, segue destacando a pauta nuclear, o apoio iraniano a grupos armados e a retórica anti-Ocidente. Dentro desse enquadramento, a decisão de gastar preciosos minutos do principal programa de domingo com um piquenique em Teerã é, por si, um movimento político e editorial.
O texto de apoio se mantém sóbrio. Caco não celebra o regime, nem sugere uma democracia idílica. Ao contrário. Explica, em linguagem direta, a repressão a protestos, a pressão sobre opositores e a vigilância sobre mulheres que desafiam o código de vestimenta obrigatório. “Aqui, contestar o poder pode custar a liberdade, às vezes a vida”, afirma, em tom seco, enquanto imagens de manifestações são exibidas.
Entre o regime opressor e o imperialismo externo
A reportagem se concentra em um ponto incômodo para simplificações: a população que rejeita a opressão interna, mas também resiste a se alinhar cegamente a potências estrangeiras. Nas ruas, o microfone capta frases curtas, muitas vezes ditas em inglês para escapar da tradução oficial. “Não confiamos no nosso governo, mas também não confiamos em Trump”, diz um estudante de 22 anos, com o rosto coberto por máscara cirúrgica.
A equipe registra pequenos protestos em bairros centrais de Teerã. Mulheres exibem lenços mais soltos, cabelos parcialmente descobertos, cartazes que pedem “dias mais respiráveis”. Caco contextualiza: lembra a onda de manifestações iniciada em 2019 e retomada em 2022, após a morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia de costumes. Menciona prisões, sentenças de morte, tentativas de controle da internet. Tudo em poucos minutos, com datas e números entremeados às imagens.
O texto sublinha a ambiguidade de um país que enfrenta sanções econômicas duras e, ao mesmo tempo, sufoca parte de sua população. Segundo dados do próprio governo iraniano, a inflação anual supera 40% em 2025, depois de mais de uma década de punições econômicas lideradas pelos EUA. As sanções encarecem remédios, combustíveis e produtos básicos. Na tela, aparecem filas em padarias e mercados.
Ao mesmo tempo, o roteiro evita a figura do iraniano submisso, à espera de salvadores externos. “Aqui ninguém espera que o presidente dos Estados Unidos venha resolver nossa vida”, resume um comerciante de 45 anos, entrevistado em frente à loja quase vazia. A fala é incluída logo após cenas de bolsonaristas no Brasil que exibem bandeiras norte-americanas, criando um paralelo incômodo para o público doméstico.
A construção do texto ecoa, em versão popular, o argumento central de “Orientalismo”, clássico publicado por Edward Said em 1978 e traduzido no Brasil em 1990. O livro mostra como o Ocidente “inventa” um Oriente exótico, perigoso e homogêneo para justificar intervenções militares, sanções e hierarquias culturais. A reportagem não cita o autor, mas reproduz na prática a ideia de que é preciso devolver rosto, voz e cotidiano aos personagens que costumam aparecer apenas como ameaça.
A escolha de linguagem reforça esse movimento. Em vez de termos técnicos, Caco fala em “gente”, “família”, “medo” e “cansaço”. Explica a disputa geopolítica em blocos simples: um país sob um regime religioso rígido, cercado por rivais regionais, enfrentando o país que se vê como “imperador do mundo”. A expressão, usada em off, cola em Trump, que aparece em tela cheia repetindo ameaças de “eliminar” embarcações iranianas.
Impacto no público brasileiro e no jornalismo de TV
O efeito imediato da série, medida em redes sociais e em comentários ao vivo, é a surpresa. Mensagens se multiplicam durante e após o programa. “Não sabia que tinha parque assim no Irã”, diz um telespectador em postagem que viraliza no X. Outro resume o sentimento que atravessa a tela: “Deus do céu, há vida humana por lá, por que nunca me contaram isso?” A frase sintetiza o choque entre a rotina mostrada pelo repórter e o imaginário alimentado há pelo menos 40 anos por guerras, sequestros e explosões.
O horário e o alcance do Fantástico potencializam esse impacto. O programa, que costuma registrar média acima de 18 pontos de audiência na Grande São Paulo, segundo dados do Kantar Ibope, fala com dezenas de milhões de pessoas em um único domingo. Em vez de reforçar a trilha já conhecida do noticiário internacional, a emissora abre espaço para a dúvida: o que mais não está sendo mostrado?
Especialistas em comunicação ouvidos por portais e rádios ao longo da semana seguinte apontam que a matéria inaugura uma fresta em uma linha editorial geralmente alinhada com Washington. Não se trata de ruptura estrutural, mas de inflexão. Ao colocar o cotidiano no centro, a reportagem sugere que a pauta internacional não precisa ser exclusiva de diplomatas, generais e analistas de mercado. Pode incluir também piqueniques, brigas de casal, medo de bombardeio e vontade de cerveja — ainda que a lei local proíba álcool.
O movimento tem efeitos práticos. Professores de ensino médio relatam em redes que usam o vídeo em sala de aula para discutir estereótipos sobre o Oriente Médio. Cursos universitários de jornalismo e relações internacionais incluem trechos da matéria em debates sobre cobertura de guerra e representações do “inimigo”. Em ao menos três universidades públicas, docentes citam o caso em planos de disciplina registrados para o segundo semestre de 2026.
Dentro das redações, o trabalho de Caco e Jock reacende discussões sobre o lugar do repórter na cobertura internacional. A reportagem, feita com equipe enxuta e recursos relativamente modestos, mostra que é possível produzir material de impacto sem depender apenas de fontes oficiais ou imagens de agências estrangeiras. Em tempos de cortes de orçamento e redução de correspondentes, a experiência no Irã vira exemplo de que investir em campo ainda rende retorno editorial e de audiência.
O que vem depois de mostrar que “lá” tem gente
O Irã segue sob sanções, com inflação alta, conflitos internos e tensões externas. Os ataques dos EUA e de Israel continuam a pautar o noticiário. A reportagem de Caco não muda esse cenário. O que ela altera, de imediato, é o ponto de partida do olhar brasileiro sobre o país. Em vez de um mapa abstrato entre Europa e Ásia, o espectador agora associa Teerã a um parque lotado, fumaça de churrasco, mães que protegem os filhos da possibilidade de um míssil.
A longo prazo, o impacto real desse tipo de cobertura depende de continuidade. Sem novas reportagens que furem o lugar-comum, a imagem do Irã pode voltar a ser engolida por bombas e discursos inflamados. A experiência de 2026, porém, deixa uma pergunta desconfortável para jornalistas, executivos de TV e público: se um minuto de piquenique é capaz de desmontar anos de estereótipos, quantos outros países ainda esperam, do outro lado da tela, o simples direito de serem vistos como lugares onde também tem gente?
