Guerra de Trump no Oriente Médio reacende risco de fome global
Donald Trump reacende, em março e abril de 2026, o temor de uma nova onda de fome global. A guerra no Oriente Médio, travada sob influência do premiê israelense Binyamin Netanyahu, dispara os preços de energia e fertilizantes e volta a pressionar o prato de bilhões de pessoas.
Como a guerra encarece o alimento do mundo
O conflito, descrito pelo colunista Jorge Mauro Zafalon como uma “guerra insana” de Trump, derruba a frágil trégua recente nos preços dos alimentos. Depois de um respiro pós-pandemia de Covid e após o choque da invasão da Ucrânia pela Rússia, a inflação volta a ganhar corpo a partir do elo mais sensível da cadeia: o custo de produzir comida.
O aumento do petróleo e do gás natural eleva de imediato a conta da agricultura moderna, que depende de diesel para tratores, energia para irrigação e combustível para transportar colheitas. O impacto mais profundo, porém, vem dos fertilizantes, cuja produção é intensiva em gás e cuja circulação global sofre um estrangulamento inédito.
Pelo menos metade da produção mundial de alimentos hoje só se sustenta com adubos químicos. Um terço desses fertilizantes passa pelo estreito de Hormuz, via marítima estratégica que permanece fechada em meio ao confronto. A obstrução encarece o frete, aumenta o risco de seguro e reduz a oferta disponível, num efeito dominó que começa no Golfo e desemboca no supermercado de qualquer capital.
“O aumento do petróleo, do gás natural e dos fertilizantes vai desestruturar todo o sistema de produção de alimentos”, alerta Zafalon, jornalista e cientista social com MBA em derivativos pela USP. A avaliação surge no momento em que as cotações internacionais de energia disparam em bloco e reacendem o temor de escassez.
Nos Estados Unidos, a gasolina sobe 21% só em março, enquanto o óleo combustível salta 31%. Na Europa, a alta chega a 15% na gasolina e 30% no diesel, levando a inflação média da zona do euro a 2,5%, maior patamar desde junho de 2022, auge da crise provocada pela guerra na Ucrânia. Na China, a escalada é ainda mais aguda, com a gasolina avançando 33% e o diesel até 20%.
Inflação acelera e atinge produtores e consumidores
A segurança alimentar volta ao centro do radar em um momento que parecia de relativa melhora. O relatório de 2025 da FAO, braço da ONU para agricultura e alimentação, indicava recuo da fome após anos de choque sucessivo. Ainda assim, 673 milhões de pessoas permaneciam em situação de desnutrição.
O novo conflito inverte essa tendência. Em março, a própria FAO já detecta aceleração de 3% nos preços internacionais dos alimentos em relação a fevereiro, puxada pelo encarecimento de fertilizantes, combustíveis e fretes. O efeito se espalha rapidamente dos mercados futuros de grãos aos alimentos básicos nas prateleiras.
Nos Estados Unidos, a inflação anual, que vinha cedendo depois do pico provocado pelas tarifas impostas por Trump em seu período anterior de governo, volta a subir. O índice em 12 meses atinge 3,3% em março, 0,9 ponto percentual acima do registrado um ano antes. Trata-se da maior aceleração desde junho de 2022, quando a ofensiva russa na Ucrânia abalava a oferta de grãos e energia.
A Índia sente o impacto por uma via lateral. O país é altamente dependente de óleos vegetais, usados como substitutos de parte do petróleo em misturas de combustíveis. Com o encarecimento das commodities, Nova Déli enfrenta uma equação delicada: para segurar preços internos, reduz compras externas. Em março, as importações indianas de óleos vegetais, que somam 17 milhões de toneladas por ano, caem 9% por causa da alta e das dificuldades de acesso aos mercados.
Grandes potências agrícolas, como Brasil, Argentina, Canadá e Austrália, não escapam do aperto. O encarecimento dos fertilizantes e da energia ameaça margens de lucro e força produtores a cortar doses de adubo, o que pode reduzir a produtividade das próximas safras. Num mercado já pressionado, qualquer perda de rendimento se traduz em menor oferta e maior preço.
O próprio discurso político evidencia a contradição. Trump se elege prometendo “acabar com a inflação” e “terminar as guerras”, mas vê a inflação reacelerar e abre um novo front geopolítico. Em vez do Nobel da Paz que reivindica publicamente, acumula críticas e ironias. Zafalon lembra que, no lugar do prêmio, o ex-presidente dos EUA exibe a medalha recebida da opositora venezuelana Maria Corina Machado, hoje símbolo de resistência ao chavismo, mas também de um alinhamento político que aprofunda divisões na região.
Disputa por reservas e risco de nova geopolítica da fome
A sensação de que o mundo se aproxima de um novo ciclo de escassez alimenta iniciativas que redesenham o mapa do poder sobre a comida. A Rússia propõe aos países do Brics, grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e outros seis membros, a criação de uma reserva conjunta de alimentos. A ideia, revelada pela agência Reuters, ganha força em meio à incerteza sobre fretes, seguros e acesso a fertilizantes.
Se sair do papel, esse mecanismo pode funcionar como um cofre de emergência para grandes produtores, mas com efeito colateral evidente. Ao priorizar o abastecimento interno do bloco, a reserva tende a reduzir o volume de grãos e outros produtos disponível para países com menor capacidade de produção, muitos deles já frágeis diante de choques de preços.
A história recente mostra que movimentos de autodefesa, mesmo compreensíveis, amplificam crises. No auge da pandemia e da guerra na Ucrânia, restrições à exportação de arroz, trigo e milho agravaram a situação em regiões dependentes de importação, sobretudo na África e em partes da Ásia. A diferença, agora, é que a pressão vem menos da quebra de safras e mais do custo de mantê-las de pé.
Nesse tabuleiro, os grandes exportadores de alimentos ganham poder de barganha, mas também assumem responsabilidade maior. Governos de Brasil, Argentina, Canadá e Austrália se veem diante de um dilema: preservar competitividade e divisas em meio à alta de preços ou agir para evitar que o encarecimento dos alimentos se transforme em gatilho de instabilidade social em países compradores.
O prolongamento do conflito no Oriente Médio, alimentado por decisões de Washington e pela agenda de segurança de Netanyahu, tende a prolongar o aperto. Ao travar o estreito de Hormuz e manter o mundo refém de fretes caros, a guerra projeta seus estilhaços para além do Golfo e atinge a mesa de famílias em São Paulo, Lagos ou Jacarta.
Se o mundo aprende algo com os choques sucessivos desde 2020, é que energia, fertilizantes e comida formam hoje um único sistema nervoso. A forma como Trump, Netanyahu e outros líderes lidam com essa interdependência nos próximos meses dirá se 2026 será lembrado como o ano em que a fome recuou ou como o momento em que ela voltou a crescer, agora sob nova geopolítica.
