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Irã recusa diálogo direto e impõe condições aos EUA via Paquistão

O Irã recusa negociar diretamente um acordo de paz com os Estados Unidos e escolhe o Paquistão como mediador para transmitir suas condições. A decisão, confirmada neste domingo (26), mantém o impasse diplomático entre Teerã e Washington em um momento de tensão crescente no Oriente Médio.

Canal indireto expõe desconfiança histórica

A recusa, segundo diplomatas envolvidos nas conversas, não é um gesto isolado. Teerã tenta preservar margem de manobra ao evitar qualquer imagem de aproximação direta com Washington, mais de 40 anos após a ruptura das relações formais em 1980. O recado é claro: o Irã aceita falar sobre desescalada, mas quer controlar a forma, o ritmo e o conteúdo das negociações.

O Paquistão entra nesse tabuleiro como interlocutor de confiança relativa para ambos os lados. Islamabad mantém laços antigos com Teerã e é aliado estratégico dos Estados Unidos desde a Guerra Fria. Nos últimos dias, autoridades paquistanesas atuam como correio diplomático, levando propostas e contrapropostas entre as capitais. O processo é lento, depende de reuniões em separado e de mensagens codificadas transmitidas por canais militares e civis.

Em conversas reservadas, um assessor de política externa em Islamabad descreve o ambiente como “delicado e cheio de armadilhas”. Segundo ele, qualquer sinal de recuo público pode ser explorado por rivais internos no Irã e nos Estados Unidos, em pleno ano de disputas eleitorais e rearranjo de alianças regionais. “Ninguém quer ser visto cedendo primeiro”, afirma o assessor.

O pano de fundo é um conflito de baixa intensidade que envolve ataques a bases americanas na região, sanções econômicas e a disputa pelo programa nuclear iraniano. Desde a saída dos EUA do acordo nuclear, em 2018, as tentativas de reconstruir algum tipo de entendimento avançam e recuam em ciclos. Em 2025, a Agência Internacional de Energia Atômica estimou que o Irã acumulava urânio enriquecido acima de 60%, limiar que reduz significativamente o tempo necessário para produzir material de uso militar, embora Teerã negue buscar uma bomba atômica.

Dessa vez, o foco imediato é conter o risco de uma escalada militar aberta. Generais americanos calculam que um confronto direto com o Irã poderia desestabilizar, em poucas semanas, rotas que respondem por cerca de 20% do petróleo que circula por mar no planeta. Em Washington, a avaliação é que qualquer disparo de míssil fora de controle no Golfo Pérsico pode se transformar em crise global de abastecimento.

Disputa por narrativa e poder de barganha

Ao rejeitar a mesa de negociação direta, o Irã sinaliza que não aceita ser tratado como parte mais fraca. O cálculo político em Teerã leva em conta a memória de episódios como a derrubada do premiê Mohammad Mossadegh, em 1953, com apoio americano, e a crise dos reféns na embaixada dos EUA, entre 1979 e 1981. Esses marcos ainda alimentam um discurso interno de resistência, útil para manter coesa uma base política sob pressão econômica.

Nas últimas décadas, sanções sucessivas atingem com força o cotidiano iraniano. O Fundo Monetário Internacional estima que o país tenha perdido centenas de bilhões de dólares em receitas desde 2012 por restrições a exportações de petróleo e a operações financeiras. A inflação oficial passa de 30% ao ano em vários períodos, corroendo salários e ampliando o descontentamento social. O governo, no entanto, explora essa adversidade como prova de resiliência frente ao que chama de “pressão máxima” dos EUA.

Diplomatas ouvidos sob condição de anonimato descrevem a atual postura iraniana como uma tentativa de inverter a lógica da mesa de negociação. Em vez de responder a demandas americanas, Teerã quer apresentar um pacote próprio, com cronogramas, garantias e possíveis concessões graduais. “O Paquistão funciona como amortecedor. Por esse canal, o Irã testa propostas, mede reações e recua sem se expor”, resume um negociador que acompanha o processo há pelo menos cinco anos.

Nos Estados Unidos, a estratégia iraniana encontra uma Casa Branca dividida entre a necessidade de conter riscos militares e a pressão do Congresso por uma postura mais dura. Parlamentares republicanos e parte dos democratas cobram garantias concretas, como inspeções mais rígidas e prazos fechados para qualquer alívio de sanções. “Não podemos repetir erros de acordos frouxos”, afirma um senador da ala mais dura, em referência ao pacto de 2015.

Enquanto isso, governos europeus, a Rússia e a China acompanham o movimento com atenção. Empresas de energia calculam cenários para os próximos 12 meses, simulando interrupções parciais de fornecimento e variações de preço entre 10% e 30%. Bancos e fundos de investimento revisam exposições em títulos da região, temendo oscilações bruscas em caso de incidente militar ou de um novo pacote de sanções amplas.

A posição do Paquistão também não é neutra. O país enfrenta desafios econômicos profundos, com inflação acima de dois dígitos e negociações sensíveis com o FMI. Ao se apresentar como mediador funcional, Islamabad busca elevar sua relevância internacional e ganhar capital político que possa ser convertido em apoio financeiro e acordos comerciais. “Ser ponte entre EUA e Irã nos coloca em outro patamar”, diz um integrante do governo paquistanês.

Mercados em alerta e incerteza prolongada

O reflexo imediato do impasse aparece na volatilidade dos mercados e no discurso cauteloso de chancelerias. Investidores trabalham com a hipótese de meses, talvez mais de um ano, de negociação indireta, sem garantias de desfecho. Analistas calculam que, a cada semana de tensão elevada, o prêmio de risco associado a ativos do Oriente Médio sobe alguns décimos de ponto percentual, encarecendo empréstimos e travando projetos de infraestrutura.

Empresas de transporte marítimo já repensam rotas e seguros. No pior cenário, um conflito direto levaria a aumentos expressivos nos prêmios de seguro para navios que cruzam o Golfo Pérsico, com repasse imediato ao frete e ao preço final de combustíveis. Para países importadores, como o Brasil, uma alta sustentada de 10% a 20% no barril de petróleo teria impacto direto em combustíveis, inflação e política de juros.

No campo político, a mediação paquistanesa pode abrir precedente para novos modelos de negociação em crises internacionais. Em vez de encontros formais, com fotos e comunicados conjuntos, os protagonistas testam um formato mais opaco, com mediadores regionais ganhando centralidade. Esse redesenho diminui o custo político de recuos parciais, mas também torna o processo menos transparente para a opinião pública.

Especialistas em relações internacionais alertam para o risco de “fadiga diplomática”. Sem resultados tangíveis em prazos razoáveis, a sociedade civil nos três países tende a perder interesse ou a radicalizar posições, o que limita a margem de manobra de líderes políticos. “Processos muito longos criam espaço para sabotagem, seja por grupos armados, seja por adversários internos”, observa uma pesquisadora de um centro de estudos no Oriente Médio.

No curto prazo, o mais provável é uma sucessão de pequenos gestos: redução de retórica em discursos oficiais, liberação pontual de recursos iranianos bloqueados no exterior, ajustes em sanções específicas. Nenhum desses movimentos, isoladamente, resolve o conflito, mas servem como termômetro de confiança. Cada avanço, mesmo discreto, será medido em dólares, barris de petróleo e votos.

Próximos passos e o risco de uma janela perdida

A escolha do Paquistão como mediador cria uma janela de oportunidade que não permanece aberta indefinidamente. Calendários eleitorais, trocas de comando militar e mudanças na economia global podem, em poucos meses, alterar completamente o cálculo de risco das três capitais. Em Washington, assessores falam em um horizonte de seis a doze meses para se obter um entendimento mínimo que reduza a chance de incidente militar grave.

No Irã, o governo precisa mostrar, no mesmo período, algum alívio concreto nas sanções ou uma melhora perceptível na economia doméstica. Sem isso, cresce o risco de protestos internos e de disputas entre facções políticas, que historicamente travam qualquer tentativa de abertura. A liderança iraniana sabe que uma negociação direta mal sucedida poderia ser explorada como fraqueza. Por isso, insiste em manter a intermediação paquistanesa até que enxergue garantias suficientes.

O Paquistão, por sua vez, corre contra o relógio para provar que consegue entregar resultados. Se a mediação fracassar ou se arrastar sem avanços, Islamabad perde capital político e volta à condição de coadjuvante no tabuleiro regional. “Não podemos ficar eternamente levando recados. Em algum momento, será preciso que os dois lados assumam publicamente o que estão dispostos a conceder”, admite um diplomata paquistanês.

Em meio a tantos cálculos, a questão central permanece sem resposta: até que ponto Irã e Estados Unidos realmente querem um acordo que limite custos e preserve espaço de influência na região? Enquanto essa dúvida pairar sobre Teerã, Washington e Islamabad, a negociação indireta avança em passos curtos, sob o olhar atento de um mundo que ainda depende do petróleo e da estabilidade relativa do Oriente Médio.

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