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Guerra no Irã derruba Trump e acende alerta de inflação no Brasil

Dois meses após o início da guerra no Irã, em 28 de abril de 2026, o petróleo acima de US$ 100 pressiona a inflação global e desgasta politicamente Donald Trump.

Guerra sem objetivo claro e Trump encurralado

A promessa de uma operação rápida, de “uma ou duas semanas”, fica para trás enquanto os bombardeios seguem e o horizonte de saída se embaralha. O governo dos Estados Unidos insiste que busca enfraquecer o regime teocrático iraniano e conter sua ambição nuclear, mas evita admitir que não controla o rumo da guerra.

Os ataques atingem centros de poder em Teerã e matam figuras importantes do governo dos aiatolás. Em vez de desorganizar o regime, o choque externo faz a oposição recuar em nome da unidade nacional. A cúpula iraniana, mesmo golpeada, exibe coesão inédita desde o acordo nuclear de 2015, enterrado anos antes por Washington.

Os aliados informais do Irã, como Hamas na Faixa de Gaza, Hezbollah no Líbano e Houthis no Iêmen, seguem ativos. Guerras por procuração continuam a drenar recursos e atenção militar dos Estados Unidos sem produzir vitória clara. Na prática, a ofensiva não destrói essas milícias nem altera o mapa de influência regional.

O Estreito de Ormuz, porta de saída de cerca de um quinto do petróleo mundial, vira o principal ponto de pressão. Washington exige que Teerã “desbloqueie” a passagem, mas o canal não estava formalmente bloqueado antes da guerra. A disputa se desloca para a narrativa: hoje, nem se sabe com precisão quem impede a navegação plena, se o Irã, se os Estados Unidos, se ambos.

A incerteza basta para explodir os preços. O barril passa a maior parte de abril acima de US$ 100, depois de oscilar perto de US$ 80 em fevereiro. Navios encalham em filas mais longas, contratos futuros disparam e países importadores começam a consumir seus estoques estratégicos. A guerra que seria cirúrgica vira um imposto invisível sobre o mundo.

Inflação global, juros mais altos e o custo político

A energia mais cara se infiltra na economia em cadeia. Transportes pesam no frete de alimentos e manufaturados, fertilizantes encarecem a produção agrícola, contas de luz e gás comprimem a renda das famílias. O efeito concentrado em 60 dias equivale, para muitos países, a um choque de preços anual.

Os principais bancos centrais reagem com aquilo que têm: juros. Nos Estados Unidos, a expectativa de cortes em 2026 some do radar. Analistas já projetam nova alta de 0,50 ponto percentual na taxa básica. “O petróleo acima de US$ 100 bagunça qualquer plano de aterrissagem suave da economia”, admite um gestor de Nova York, em conversa reservada.

O custo recai sobre a Casa Branca. Pesquisas mostram queda acentuada da popularidade de Donald Trump desde o início do conflito. O presidente confronta agora o risco de sofrer um revés profundo nas eleições de meio de mandato, em novembro, quando todo o Congresso é renovado parcialmente e governadores são escolhidos em vários Estados.

A proximidade do plantio das safras de verão agrava o quadro político. Fertilizantes importados encarecem com a disparada dos combustíveis, e produtores rurais começam a rever planos. Um assessor republicano resume o clima: “O fazendeiro olha o preço do diesel, do adubo e da prestação do trator. Se tudo sobe junto, ele procura o culpado em Washington”.

Trump tenta enquadrar o conflito como uma prova de força contra um regime hostil. Ao mesmo tempo, precisa explicar por que a guerra se arrasta sem objetivos visíveis atingidos. A exigência de uma “rendição condicional” do Irã, ventilada pela Casa Branca, soa desconectada da realidade das negociações em andamento para um cessar-fogo parcial.

A cada semana, cresce o temor de que o desgaste político seja irreversível. Em 2022, a inflação recorde já havia custado cadeiras a aliados de Trump no Congresso. A repetição de um cenário de preços em disparada, agora atrelado a uma guerra iniciada sob sua liderança, amplifica o risco de um recado duro das urnas.

Brasil entre o ganho com petróleo e a conta da inflação

O choque de preços também chega ao Brasil. A Petrobras se beneficia da valorização do barril e o País aumenta a receita com exportações de petróleo bruto. No curto prazo, o fluxo de dólares ajuda a segurar o câmbio e melhora os números da balança comercial.

O saldo positivo, porém, não se traduz em alívio no bolso. A inflação supera as projeções iniciais do governo e do Banco Central ainda em abril. Combustíveis puxam o índice, seguidos por alimentos e energia elétrica. A combinação de frete caro e fertilizante mais salgado se espalha pelas gôndolas do supermercado.

Consumidores sentem a perda de poder de compra, e a irritação se faz ouvir nas pesquisas. A avaliação da política econômica piora, mesmo com indicadores de atividade um pouco melhores graças ao agronegócio e ao setor de petróleo. A percepção de bem-estar, base de qualquer eleição, não acompanha as estatísticas.

O governo se vê encurralado entre duas pressões. De um lado, o apelo por subsídios, desonerações e reajustes menores nos combustíveis. De outro, o compromisso de manter as contas públicas sob controle, após anos de expansão de gastos. Cada centavo usado para segurar o diesel ou a gasolina precisa sair de outra rubrica do Orçamento.

O Banco Central avalia se retoma a alta de juros para tentar conter a escalada de preços. A taxa básica, que vinha em trajetória de queda, pode voltar a subir se o choque de petróleo se mostrar duradouro. Empresas adiam investimentos e famílias reconsideram compras de maior valor, como imóveis e carros.

A economia brasileira, apontada por analistas estrangeiros como “beneficiária líquida” da guerra, descobre a ambiguidade desse rótulo. O País vende mais petróleo em dólar, mas paga essa conta na moeda do dia a dia: alimentos, transporte e moradia.

Uma guerra sem prazo e uma eleição em aberto

As negociações entre Washington, Teerã e potências europeias seguem sem um roteiro público claro. Diplomatas trabalham em propostas de cessar-fogo, corredores marítimos seguros e limites à atividade nuclear iraniana. Nenhuma dessas frentes, porém, parece madura o bastante para encerrar a guerra nas próximas semanas.

O mundo se prepara para conviver por meses com energia cara, inflação resistente e juros mais altos. O resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro, tende a ser o primeiro grande veredito popular sobre a estratégia de Trump no Irã. No Brasil, a disputa política se reorganiza em torno de uma pergunta incômoda: até que ponto o País está disposto a lucrar com a guerra enquanto o custo de vida sobe na bomba e no prato?

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