Rússia lança 600 drones contra Dnipro e mata 10 na Ucrânia
Uma onda de ataques russos com mais de 600 drones e dezenas de mísseis atinge neste sábado (25) a cidade de Dnipro e a região de Chernihiv, na Ucrânia, e deixa ao menos dez mortos e dezenas de feridos. As explosões derrubam parte de um prédio residencial, atingem equipes de resgate e reacendem a pressão do presidente Volodimir Zelenski por mais defesa aérea ocidental.
Dnipro sob ataques em ondas e resgate sob fogo
Dnipro amanhece envolta em fumaça espessa, cortada por sirenes e pelo som constante de detonações. Ao longo de mais de 20 horas, forças russas lançam 619 drones e 47 mísseis contra a cidade de quase 1 milhão de habitantes antes da guerra e contra outras regiões do país. A Força Aérea ucraniana diz abater 580 drones e 30 mísseis, mas as intercepções não impedem o desabamento de um prédio residencial e novas mortes em ataques sucessivos.
O governador regional, Oleksandr Hanzha, descreve um cenário de ataques calculados, direcionados a áreas onde pessoas vivem e trabalham. “Por mais de 20 horas assustadoras, os russos atacaram Dnipro em ondas”, escreve ele no Telegram. “Eles acertaram deliberadamente áreas residenciais.” No primeiro impacto, ainda de madrugada, parte de um edifício desaba. Quatro corpos são retirados dos escombros nas primeiras horas de busca.
O prédio volta a ser atingido horas depois, quando bombeiros, médicos e voluntários ainda reviram restos de concreto em busca de sobreviventes. O segundo ataque mata mais uma pessoa e fere ao menos sete, segundo as autoridades locais, e reforça a percepção de que Moscou não poupa equipes de emergência. Ao todo, oito pessoas morrem e 49 ficam feridas em Dnipro, de acordo com o governo regional.
Um repórter da Reuters acompanha o trabalho dos socorristas e vê no céu, sobre o prédio em ruínas, um drone russo ser destruído pelas defesas ucranianas. As imagens que circulam em redes sociais mostram colunas de fumaça preta subindo sobre bairros residenciais e moradores observando, atônitos, a destruição de prédios em que viviam há anos.
Do outro lado da linha de frente, o Ministério da Defesa da Rússia afirma que a ofensiva mira alvos militares, industriais e de energia. Moscou sustenta que ataca infraestrutura usada pelo Exército ucraniano e por seus aliados ocidentais. A narrativa contrasta com relatos de civis e autoridades locais, que descrevem janelas estilhaçadas, cozinhas destruídas e quartos expostos ao ar livre em blocos residenciais.
Terror prolongado, vidas em ruínas e pressão internacional
A primeira-ministra ucraniana, Yulia Svyrydenko, acusa Moscou de sustentar uma estratégia de desgaste psicológico e físico da população. “A Rússia está deliberadamente prolongando seu terror contra nosso povo, continuando a atacar infraestrutura crítica e edifícios residenciais”, afirma. O padrão se repete há meses: dezenas de drones lançados todas as noites, intercalados com ofensivas em larga escala como a deste sábado.
Em Dnipro, a violência da madrugada invade a rotina de famílias comuns. Aliona Katrushova, 37, observa o trabalho de resgate enrolada em um roupão, do prédio em frente ao que desabou. Ela tenta manter algum humor, em meio ao choque, ao falar do discurso oficial de Moscou. “Que os filhos deles durmam em suas camas quentinhas na Rússia, e que tudo esteja bem para eles. Que assistam enquanto a Rússia nos ‘liberta’ de nossos apartamentos e casas”, diz.
O marido dela, Oleh, faz aniversário neste sábado. Ele sobrevive ao ataque, embora o apartamento do casal fique seriamente danificado. “É como ganhar uma segunda vida”, afirma, ainda sob o impacto da explosão. Histórias como a do casal ilustram o custo humano de uma guerra que segue para o quinto ano, marcada por ciclos sucessivos de destruição e reconstrução parcial.
Na região de Chernihiv, no norte, drones e mísseis atingem outras áreas residenciais e estruturas locais. O governador informa duas mortes e sete feridos. O quadro reforça a percepção de que nenhuma parte da Ucrânia está integralmente fora do alcance dos ataques aéreos russos, apesar do reforço progressivo de sistemas de defesa fornecidos por países da Otan.
Os efeitos da ofensiva atravessam fronteiras. Na Romênia, país-membro da aliança militar ocidental e vizinho da Ucrânia, fragmentos de drones danificam um poste de eletricidade e um anexo residencial em uma área de fronteira. As autoridades locais dizem que não há mortos nem feridos, mas o incidente alimenta temores de um transbordamento involuntário do conflito para o território da Otan, linha vermelha para potências ocidentais desde o início da invasão russa, em 2022.
A Ucrânia responde intensificando seus próprios ataques com drones em território russo. Autoridades em Yekaterinburg, grande cidade industrial nos Urais, relatam que um drone ucraniano atinge um prédio residencial e causa ferimentos leves. Kiev não comenta detalhes, mas sinaliza há meses que pretende levar o custo da guerra para além da linha de frente, atingindo também centros logísticos e urbanos dentro da Rússia.
Zelenski busca defesa aérea e alianças em meio aos escombros
Enquanto equipes de resgate escavam o concreto em Dnipro, Volodimir Zelenski está em visita oficial ao Azerbaijão. O presidente aproveita a viagem para assinar acordos de cooperação em defesa e energia e reforçar a diplomacia de guerra, que hoje passa por compartilhar experiência em derrubar drones e mísseis com recursos relativamente baratos. “Cada ataque como este deve lembrar nossos parceiros de que a situação exige ação imediata e firme, fortalecimento rápido de nossas defesas aéreas”, afirma.
Zelenski publica uma foto ao lado do presidente azerbaijano, Ilham Aliyev, e menciona um encontro com uma equipe militar ucraniana baseada no país do Cáucaso. Segundo ele, esses oficiais “estão compartilhando a experiência da Ucrânia na proteção dos céus”. O Azerbaijão, que tem longa fronteira com o Irã e histórico de guerras com a Armênia desde 1991, vê na parceria com Kiev uma oportunidade de adaptar táticas de defesa a um cenário em que drones e mísseis se tornam armas centrais.
Desde que Estados Unidos e Israel atacam o Irã no início de 2026, a guerra no Oriente Médio amplia a demanda por soluções de defesa aérea em países preocupados com a capacidade iraniana de lançar enxames de drones. Kiev tenta ocupar esse espaço, oferecendo conhecimento adquirido em quase quatro anos de ataques noturnos sucessivos e negociações permanentes por novos lotes de mísseis antimísseis e radares.
Para a Ucrânia, o saldo deste sábado resume dois movimentos paralelos. Moscou mantém a aposta em ataques massivos que sobrecarregam a defesa aérea e mantêm a população em estado de alerta contínuo. Kiev acelera a busca por alianças, sistemas de proteção e munição, ao mesmo tempo em que tenta mostrar ao mundo que seus métodos de defesa podem interessar a outros países ameaçados por drones.
Nas ruas de Dnipro, moradores como Aliona e Oleh recolhem o que restou de suas vidas em sacos improvisados, enquanto escavadeiras abrem caminho entre o concreto. O futuro imediato depende de decisões tomadas a milhares de quilômetros dali, em capitais que discutem novos pacotes de ajuda militar, sanções adicionais e limites para a escalada. A pergunta que fica, em meio às ruínas, é por quanto tempo a Ucrânia consegue resistir a ataques dessa escala sem uma barreira aérea mais densa sobre suas cidades.
