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Chernobyl relembra maior desastre nuclear 40 anos depois

Quarenta anos após a explosão do reator 4, Chernobyl volta ao centro das atenções neste domingo (26). A Ucrânia marca a data com homenagens silenciosas, imagens fortes e perguntas ainda sem resposta.

Memória entre ruínas e silêncio

O amanhecer de 26 de abril de 2026 encontra Chernobyl coberta por uma névoa fina e por uma presença constante de câmeras. Equipes de TV, pesquisadores e poucos ex-moradores autorizados circulam pela zona de exclusão de 30 quilômetros criada em 1986. As imagens mostram janelas quebradas, brinquedos enferrujados em parques vazios e prédios invadidos pela vegetação.

Na vizinha Pripyat, cidade planejada para abrigar cerca de 50 mil funcionários e familiares da usina, o relógio parece parar no dia da evacuação. Carrinhos de bebê abandonados em corredores de escolas e cartazes soviéticos desbotados reforçam a ideia de uma vida interrompida. No memorial aos chamados “liquidadores” – trabalhadores que ajudaram a conter o incêndio e a contaminação – coroas de flores aparecem ao lado de capacetes antigos e fotografias em preto e branco.

Ao longo do dia, autoridades ucranianas participam de cerimônias restritas, em meio à guerra que ainda redefine prioridades no país. A lembrança de Chernobyl se cruza com outra ameaça, agora militar, e reacende o temor sobre a segurança de instalações nucleares em zonas de conflito. O governo repete um alerta conhecido há quatro décadas: “Chernobyl não é apenas uma tragédia do passado, é um aviso permanente”, afirma um representante do serviço de emergência ucraniano.

O dia em que o mundo parou para olhar Chernobyl

Na madrugada de 26 de abril de 1986, um teste de segurança mal conduzido no reator 4 da usina de Chernobyl termina em explosão. Em segundos, toneladas de material radioativo são lançadas à atmosfera. A fumaça alcança vários países da Europa em poucos dias, em uma das maiores liberações de radioatividade em tempos de paz. A União Soviética admite a gravidade do acidente apenas 36 horas depois, quando já ordena a evacuação urgente de Pripyat.

Ônibus chegam às pressas e retiram famílias inteiras em menos de três horas. O anúncio promete um retorno em poucos dias; ninguém volta. Estimativas de organismos internacionais falam em mais de 350 mil pessoas deslocadas na Ucrânia, Belarus e Rússia ao longo dos anos seguintes. Estudos apontam milhares de casos adicionais de câncer de tireoide, principalmente em crianças expostas ao iodo radioativo nos primeiros meses após o acidente.

Quarenta anos depois, o debate sobre o número real de mortos continua aberto. Relatórios oficiais da Agência Internacional de Energia Atômica falam em dezenas de mortes imediatas e algumas centenas de casos fatais atribuídos à radiação a longo prazo. Organizações independentes e pesquisadores locais apontam cifras muito mais altas, somando efeitos indiretos, doenças crônicas e impactos psicológicos duradouros. “Chernobyl não terminou em 1986. Continua no corpo e na memória de quem viveu ali”, resume uma pesquisadora ucraniana que estuda os efeitos radiológicos na região há mais de 20 anos.

A tragédia força uma virada na indústria nuclear. A partir dos anos 1990, países reforçam normas de segurança, criam sistemas de alerta mais rígidos e ampliam a cooperação internacional. Reatores semelhantes ao de Chernobyl são modificados ou desativados. Em 2016, um novo sarcófago de aço – uma estrutura de 36 mil toneladas – é colocado sobre o antigo reator 4 para conter vazamentos por, ao menos, 100 anos.

Herança tóxica, turismo e disputa por memória

A zona de exclusão, com cerca de 2,6 mil quilômetros quadrados, segue oficialmente proibida para moradia permanente. Pequenos grupos de idosos, conhecidos como “auto reassentados”, insistem em viver em vilarejos próximos, desafiando recomendações médicas. Estudos de monitoramento registram áreas com níveis de radiação muito acima do considerado seguro, enquanto outras apresentam índices que permitem permanência breve, sob controle rígido.

Pesquisadores transformam a região em um grande laboratório a céu aberto. Biólogos monitoram o comportamento de lobos, javalis e aves em florestas que se regeneram sem presença humana intensa. Especialistas em saúde pública avaliam, há décadas, as consequências sociais das evacuações em massa, do estigma associado à contaminação e da perda de laços comunitários. “Chernobyl mostra que um desastre nuclear não termina quando o fogo apaga”, afirma um cientista europeu que integra um grupo internacional de estudos ambientais.

O turismo controlado ganha força a partir dos anos 2000. Em 2019, antes da pandemia, mais de 120 mil pessoas visitam a zona de exclusão, segundo dados oficiais ucranianos. Guias oferecem roteiros de um dia saindo de Kiev, com passagem rápida por Pripyat, pelo arco de aço que cobre o reator e por mirantes com vista para a floresta vermelha, uma das áreas mais contaminadas. O crescimento desse fluxo abre um debate ético sobre transformar uma tragédia em atração turística, ao mesmo tempo em que gera renda para uma região marcada pela falta de alternativas econômicas.

A guerra na Ucrânia recoloca a segurança nuclear no centro da agenda internacional. Em 2022, a ocupação temporária da área de Chernobyl por tropas russas volta a acionar alarmes no Ocidente, com relatos de movimentação de veículos pesados em solo contaminado e de soldados sem proteção adequada. A Agência Internacional de Energia Atômica reforça missões de inspeção e pede que instalações nucleares não se tornem alvo ou rota de operações militares. “As lições de 1986 não podem ser ignoradas em 2026”, alerta um comunicado recente do órgão.

Quarenta anos depois, um aviso ainda em aberto

As comemorações deste domingo não se resumem a discursos e coroas de flores. Nas redes sociais, moradores deslocados e descendentes de famílias evacuadas publicam fotografias antigas, mapas de vilarejos que desapareceram e relatos de infância interrompida. Organizações ambientais usam a data para pressionar por regras mais duras de segurança e transparência na operação de usinas atômicas em todo o mundo, lembrando que, além de Chernobyl, Fukushima, em 2011, expôs fragilidades em outro contexto, o de um terremoto seguido de tsunami.

Governos que apostam na energia nuclear como alternativa de baixo carbono afirmam que a tecnologia atual é mais segura e que novos reatores usam sistemas de contenção reforçados. Críticos respondem que nenhum país está totalmente preparado para uma combinação de erro humano, falha técnica e desastre natural ou conflito armado. A discussão se torna mais urgente em um planeta que busca reduzir emissões até 2050 e precisa decidir quanto espaço dará à geração nuclear nessa transição.

Na paisagem desfigurada de Chernobyl, o contraste entre prédios em ruínas e florestas em recuperação oferece uma imagem poderosa de sobrevivência e ameaça. A cada aniversário redondo, a cidade fantasma volta a ocupar manchetes, mas, para quem carregou a radiação no corpo e na biografia, a data não precisa de lembrete. A pergunta que ecoa, 40 anos depois, segue sem resposta tranquila: quantos alertas como Chernobyl o mundo ainda precisa para levar a sério o custo real da energia que consome?

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