Trump estampa passaportes e prédios em ofensiva por legado em 2026
Donald Trump transforma 2026 no ano da sua marca pessoal no Estado americano. Passaportes, prédios públicos, navios de guerra e programas sociais ganham seu nome e seu rosto.
A independência de 250 anos como palco para Trump
Os 250 anos da independência dos Estados Unidos deixam de ser apenas uma efeméride histórica e viram vitrine política para o presidente. A Casa da Moeda, o Departamento do Tesouro e diferentes órgãos federais convergem em um mesmo movimento: associar a imagem de Trump à própria ideia de Estado americano.
O exemplo mais visível está no passaporte. A edição comemorativa do aniversário de 250 anos traz o rosto de Trump em destaque, algo inédito em um documento que, até aqui, evitava personificar o poder. A Casa da Moeda anuncia também uma moeda de ouro comemorativa com a imagem do presidente, apresentada como peça de colecionador e fonte adicional de receita.
O Tesouro vai além da simbologia. As novas cédulas terão a assinatura de Trump, primeira vez que um presidente em exercício assina o dinheiro americano. O gesto é discutido em Washington como um recado de poder, num país que historicamente evita o culto ao líder nas instituições mais sensíveis.
No discurso oficial, a Casa Branca diz que a estratégia celebra a fundação do país, consolida o legado de Trump e impulsiona receitas para financiar programas sociais e iniciativas consideradas inovadoras. Na prática, o governo testa os limites entre homenagem nacional e personalização do Estado.
Prédios renomeados e a disputa pela memória pública
A ofensiva simbólica avança por alguns dos endereços mais emblemáticos de Washington. Em dezembro de 2025, o conselho administrativo do John F. Kennedy Center, criado por lei do Congresso em 1964 como memorial ao presidente democrata assassinado, vota para renomear o espaço em homenagem a Trump.
Trump, eleito presidente do conselho no início de 2025, reage com uma combinação de surpresa calculada e celebração. “Estou honrado e surpreso”, afirma. “Essa questão foi levantada por um dos membros mais ilustres do conselho, e eles votaram sobre isso, e são muitos membros do conselho, e a votação foi unânime.” Horas depois, o site oficial passa a exibir o cabeçalho “The Trump Kennedy Center”.
A mudança acende um conflito jurídico e simbólico. A lei federal que cria o centro determina que o conselho assegure que, após 2 de dezembro de 1983, nenhum memorial adicional seja instalado nas áreas públicas do prédio. Juristas questionam se um conselho designado pelo Congresso pode rebatizar, por conta própria, um memorial nacional dedicado a outro presidente.
A família Kennedy reage de imediato. “O Kennedy Center é um memorial vivo a um presidente falecido e foi nomeado em homenagem ao presidente Kennedy por lei federal”, escreve Joe Kennedy III, ex-deputado e sobrinho-neto de John Kennedy, no X. “Ele não pode ser renomeado, assim como ninguém pode renomear o Lincoln Memorial, não importa o que digam.”
Outro prédio em Washington entra no roteiro de homenagens. Em dezembro de 2025, o nome de Donald Trump é fixado na fachada do Instituto da Paz dos Estados Unidos, um organismo independente sem fins lucrativos criado em 1984. A mudança ocorre na véspera da cerimônia em que Trump recebe os presidentes de Ruanda e da República Democrática do Congo para assinar um acordo de paz mediado pelos EUA.
O Departamento de Estado afirma que a renomeação, com o acréscimo do nome de Trump acima da marca do instituto, busca refletir “o maior negociador da história de nossa nação”. Na cerimônia, o presidente agradece ao chanceler Marco Rubio. “Obrigado por colocar um determinado nome naquele edifício”, diz, chamando o gesto de “grande honra”.
A interferência no instituto vem precedida de uma intervenção controversa. No início do governo, o então recém-criado Departamento de Eficiência Governamental, liderado por Elon Musk, demite funcionários da entidade e instala aliados em cargos de comando. Um juiz considera o movimento ilegal, mas a decisão fica suspensa após recurso, mantendo a disputa aberta.
A “classe Trump” no mar e o visto para milionários
A marca pessoal de Trump também conquista espaço na Marinha. O presidente anuncia uma nova “classe Trump” de navios de guerra, descritos por ele como maiores, mais rápidos e “100 vezes mais poderosos” que qualquer outro já construído pelos EUA. O plano começa com dois navios, dentro de uma “Frota Dourada” que, segundo o governo, pode chegar a 20 ou 25 unidades.
O secretário da Marinha, John Phelan, afirma que o país terá “mais tonelagem e poder de fogo em construção do que em qualquer momento da história”, com componentes fabricados em todos os 50 estados. Os navios, diz ele, vão carregar os maiores canhões já vistos em um navio de guerra americano, além de mísseis de cruzeiro com ogivas nucleares lançados do mar. O primeiro casco recebe o nome de USS Defiant e vira símbolo de uma nova etapa de projeção de força.
No campo da imigração, Trump cria o “Trump Gold Card”, um visto premium dirigido a estrangeiros ricos. O programa permite que o candidato pague uma taxa de US$ 15.000 ao Departamento de Segurança Interna para processamento acelerado. Depois de aprovados em uma checagem de antecedentes, os interessados precisam fazer uma “contribuição” de US$ 1 milhão para obter o documento, que funciona de forma semelhante a um green card, com direito de viver e trabalhar nos EUA.
Os números ainda são tímidos, mas revelam o horizonte de arrecadação. Até agora, o governo aprovou apenas um visto Trump Gold Card, informa o secretário de Comércio, Howard Lutnick. Em entrevista à Reuters, em dezembro, ele afirma que cerca de 10.000 pessoas se pré-registram e que espera vender “milhares desses vistos” ao longo dos próximos anos, arrecadando “bilhões, bilhões de dólares”.
Políticas sociais com o nome do presidente
A personalização do poder não se limita a símbolos militares ou diplomáticos. Trump associa seu nome a iniciativas que o governo apresenta como virada social de longo prazo. Em fevereiro, a Casa Branca lança o portal TrumpRx.gov, um site de vendas diretas destinado a oferecer medicamentos com desconto para o público americano.
O governo diz ter fechado acordos com ao menos 16 farmacêuticas para listar produtos no portal, incluindo gigantes como Eli Lilly e Novo Nordisk. Os contratos preveem uma queda drástica no preço de remédios à base de GLP-1, usados para perda de peso. A meta é reduzir os custos para algo entre US$ 149 e US$ 350 por mês, bem abaixo dos valores cobrados hoje no mercado privado.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, descreve o site, em publicação no X, como “de última geração” e afirma que ele “economizará dinheiro para milhões de americanos”. Especialistas em saúde pública observam que o modelo, se funcionar como prometido, pode forçar redes privadas e planos de saúde a rever preços, ao mesmo tempo em que aumenta a dependência do consumidor de uma plataforma criada por um único governo.
No campo tributário e de poupança, o governo aposta nas “Trump Accounts”, contas de investimento para recém-nascidos que carregam o sobrenome do presidente no próprio produto financeiro. Criadas em 2025 pela lei batizada de “One Big Beautiful Bill”, principal pacote de impostos e gastos da atual gestão, as contas recebem um aporte inicial de US$ 1.000 do Tesouro para cada criança nascida entre 2025 e 2028.
O programa mira cerca de 25 milhões de famílias elegíveis em quatro anos. As contas entram em operação em 4 de julho deste ano, no aniversário da independência. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirma que mais de 500 mil famílias já se cadastram, antecipando uma corrida por um benefício que, em tese, pode ajudar na formação de uma poupança para educação, moradia ou aposentadoria.
Trump projeta a medida como legado de longo prazo. “Daqui a algumas décadas, acredito que as Trump Accounts serão lembradas como uma das inovações políticas mais transformadoras de todos os tempos”, diz. Críticos enxergam risco de captura política futura: uma política pública duradoura, associada ao nome de um presidente, tende a reforçar sua presença na memória coletiva para além do mandato.
Legado, reação e disputa institucional
O conjunto de iniciativas revela um mesmo fio condutor: Trump transforma a máquina pública em vitrine de seu projeto pessoal de poder, misturando celebração nacional, arrecadação e construção de imagem. Do passaporte ao navio de guerra, da conta de poupança ao visto para milionários, o governo cria camadas de presença simbólica que atravessam fronteiras, orçamentos e gerações.
Os ganhos potenciais são concretos. Os vistos Gold Card e as moedas comemorativas prometem bilhões de dólares em receitas. O portal de remédios e as contas para bebês podem aliviar custos de saúde e ampliar a poupança de famílias de baixa e média renda. Ao mesmo tempo, cada nova marca “Trump” cravada em prédios, documentos e programas alimenta debates sobre ética, personalismo e limites institucionais.
Ambientes jurídicos e políticos se preparam para uma disputa prolongada. A renomeação do Kennedy Center e a intervenção no Instituto da Paz devem parar nos tribunais, enquanto opositores no Congresso discutem maneiras de restringir o uso da imagem e do nome de presidentes em exercício em prédios e programas federais.
O país entra nas comemorações de 4 de julho dividido sobre o que está em jogo. Parte da população vê um presidente que aproveita a efeméride histórica para inovar em políticas sociais e reforçar a posição dos EUA no exterior. Outra parte enxerga um projeto de Estado personalizado, em que a fronteira entre celebração nacional e culto à figura do líder fica cada vez mais difícil de traçar.
As próximas decisões judiciais e legislativas vão dizer se 2026 será lembrado como ano de um novo ciclo de políticas públicas ou como o ponto em que os EUA precisaram rediscutir, às pressas, quem é dono dos símbolos da República.
