Ultimas

Jovem morre ao ser arremessada sem corda em salto de rope jump em SP

Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, 22, morre na tarde de sábado (13) após ser arremessada de uma ponte de 40 metros, sem corda de segurança, em Limeira (SP). Três funcionários da empresa Entre Cordas são presos em flagrante por homicídio com dolo eventual.

Salto vendido como aventura termina em morte

A tarde de esporte radical na Ponte de Limeira, no interior de São Paulo, vira cena de pânico em poucos segundos. Maria Eduarda chega ao local para um salto de rope jump, modalidade que combina queda livre controlada com cordas e equipamentos de alpinismo. Sai de lá em um saco de resgate, após cair cerca de 40 metros sem qualquer proteção.

Um vídeo gravado por pessoas que acompanham a atividade registra o momento em que funcionários da Entre Cordas a arremessam para fora da estrutura. O corpo despenca, sem o tranco esperado da corda de segurança. Gritos rompem o burburinho da ponte quando os presentes percebem que não há nada preso ao equipamento que deveria conter a queda.

Segundo o boletim de ocorrência, a jovem é lançada sem estar conectada ao sistema de ancoragem, etapa básica em qualquer prática que envolve altura. A ausência de verificação final, conhecida entre praticantes como “checar o nó e o mosquetão”, se torna o centro da investigação. Testemunhas relatam que a preparação é rápida e não inclui conferência cruzada entre os instrutores.

Após a queda, frequentadores correm até a base da ponte. Moradores e pessoas que assistiam aos saltos iniciam manobras de reanimação cardiopulmonar enquanto o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) é acionado. Os socorristas chegam em seguida, mas a morte de Maria Eduarda é constatada ainda no local. Laudo inicial aponta politraumatismo, resultado do impacto no solo após a queda livre.

O corpo é encaminhado ao Instituto Médico-Legal da região e liberado durante a madrugada. Na manhã de domingo (14), a família se reúne no Cemitério Municipal de Jandira, na Grande São Paulo, para o velório. A despedida ocorre menos de 24 horas depois do salto vendido como experiência “extraordinária” nas redes sociais da empresa.

Funcionários presos e histórico de acidentes

Três homens ligados à Entre Cordas, responsáveis pela operação do rope jump na ponte, passam de monitores de aventura a suspeitos de crime. Eles são presos em flagrante por homicídio com dolo eventual, quando, na avaliação da Polícia Civil, assumem o risco de produzir o resultado morte. “Os elementos colhidos indicam consciência sobre o perigo e desrespeito às normas básicas de segurança”, afirmam investigadores ouvidos pela reportagem.

Quando a primeira viatura chega, dois funcionários permanecem próximos ao corpo de Maria Eduarda e prestam informações iniciais. Em seguida, segundo o boletim, um dos policiais se afasta para auxiliar o resgate. Nesse momento, os homens correm em direção a uma área de vegetação e desaparecem. A fuga leva a polícia a pedir apoio de outras viaturas e do helicóptero da PM. Os suspeitos acabam localizados e detidos ainda no sábado.

Delegados que atuam no caso ressaltam que o ponto usado para saltos já acumula histórico de ocorrências graves. Há registros de quedas e acidentes anteriores envolvendo práticas radicais na mesma ponte, alguns com resultado fatal. “Não é um evento isolado. O local se consolida como espaço de risco, sem controle adequado”, diz um policial.

A Entre Cordas divulga nas redes imagens de saltos na Ponte de Limeira e usa slogans como “salto pro extraordinário” para atrair clientes. A página exibe pessoas sorrindo, presas por cordas e cintos de segurança, em quedas que prometem adrenalina com controle. A CNN Brasil tenta contato com os responsáveis pela empresa desde a noite de sábado, mas não obtém retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.

Especialistas em montanhismo e esportes de aventura ouvidos pela reportagem afirmam que o erro registrado no vídeo não é um detalhe técnico. A checagem do sistema de segurança, explicam, passa por dupla conferência visual e tátil da corda, da cadeirinha e dos pontos de ancoragem. “Uma pessoa só não libera o salto. Outro instrutor revisa tudo antes de autorizar a queda”, diz um guia com mais de 20 anos de experiência em atividades de altura.

Pressão por fiscalização e efeitos para o setor

A morte de Maria Eduarda expõe um vácuo regulatório que se arrasta há anos. Esportes radicais em ambiente natural crescem com força no país, impulsionados por vídeos nas redes e pacotes vendidos como experiências únicas de fim de semana. A oferta, porém, nem sempre é acompanhada por fiscalização efetiva de prefeituras e órgãos estaduais. Muitas empresas atuam com registro simples de prestação de serviço, sem certificação específica em segurança de atividades de aventura.

Entidades do setor estimam que milhares de pessoas pratiquem modalidades de alto risco, como bungee jump, tirolesa, rapel e rope jump, todo mês. A maior parte dos operadores sérios segue normas técnicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que tratam de instalação, operação e gerenciamento de risco. O cumprimento, no entanto, não é obrigatório por lei em vários municípios.

O caso em Limeira tende a reacender o debate sobre responsabilização criminal em acidentes desse tipo. A prisão em flagrante por dolo eventual, em vez de culpa por imprudência, é vista por promotores como sinal de endurecimento na leitura dos riscos assumidos por empresas e instrutores. “Quando alguém lança uma pessoa de 40 metros sem verificar se ela está conectada ao sistema, não se fala mais em simples descuido”, resume um procurador ouvido reservadamente.

A repercussão também atinge consumidores. Em grupos de praticantes e fóruns dedicados a esportes radicais, relatos se multiplicam neste fim de semana. Pessoas que já saltaram na Ponte de Limeira descrevem, em mensagens e vídeos publicados desde sábado, procedimentos considerados improvisados, equipamentos antigos e pouca clareza sobre responsabilidade em caso de acidente.

Secretarias municipais e estaduais de Turismo e Esportes em São Paulo discutem há anos formas de padronizar exigências mínimas para a liberação de atividades de aventura. Entre as medidas em análise estão cadastro obrigatório das empresas, apresentação de planos de gerenciamento de risco, seguro para clientes e comprovação de treinamento técnico das equipes. Nenhuma proposta, porém, avança em escala estadual até agora.

Investigações, responsabilização e o que pode mudar

A Polícia Civil abre inquérito para detalhar a cadeia de responsabilidades na morte de Maria Eduarda. Peritos devem analisar o vídeo da queda, os equipamentos recolhidos na ponte e o histórico de funcionamento da Entre Cordas. A investigação vai apurar se havia autorização formal para uso da Ponte de Limeira, quantas pessoas saltavam no dia do acidente e se a empresa seguia algum protocolo escrito de segurança.

O Ministério Público acompanha o caso e pode oferecer denúncia contra os três funcionários por homicídio qualificado, mantendo a tese de dolo eventual. A Justiça decide, nos próximos dias, se converte a prisão em flagrante em prisão preventiva. Eventual condenação pode impor penas superiores a 12 anos de reclusão, além de multa e proibição de atuar em atividades semelhantes.

Especialistas avaliam que o episódio pode se tornar referência em futuras ações penais envolvendo esportes radicais. Decisões que reforcem a responsabilização criminal tendem a pressionar empresas a profissionalizar equipes, adotar seguros mais robustos e limitar a operação em locais sem estrutura adequada. Consumidores, diante de casos como o de Limeira, passam a questionar mais credenciais, certificados e condições de segurança antes de pagar por um salto.

A família de Maria Eduarda, abalada pela morte súbita da jovem, deve buscar também reparação civil por danos morais e materiais. A conta inclui custos de funeral, apoio psicológico e a renda que ela poderia gerar ao longo da vida. Escritórios especializados em responsabilidade civil já relatam aumento de consultas de clientes preocupados com contratos e termos de isenção de responsabilidade assinados em atividades de aventura.

A ponte onde a queda ocorre volta ao centro das atenções, agora cercada por viaturas e fitas de isolamento. O cenário contrasta com as imagens de alegria publicadas em anúncios até a véspera. As próximas semanas vão mostrar se a morte de Maria Eduarda se torna apenas mais um número em estatísticas dispersas ou o ponto de virada para uma política mais rígida de segurança em esportes radicais no país.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *