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Família brasileira morre em ataque israelense após cessar-fogo no Líbano

Uma brasileira, o filho de 11 anos e o marido libanês morrem em 25 de abril de 2026, em Burj Qalowayh, no sul do Líbano, após ataque aéreo israelense atingir a antiga casa da família durante o cessar-fogo. Eles voltam ao vilarejo para buscar roupas e pertences antes de retornar a Beirute, mas a residência é destruída e os corpos desaparecem sob os escombros.

Retorno após a trégua termina em tragédia

Morre no bombardeio a brasileira Manal Jaafar, 47, o filho Ali Ghassan Nader, 11, e o pai do garoto, o libanês Ghassan Nader, 57. A família tenta retomar a rotina depois do cessar-fogo anunciado em 16 de abril de 2026 e decide voltar a Burj Qalowayh, no distrito de Bint Jbeil, para juntar roupas e documentos antes de se estabelecer novamente em Beirute.

O vilarejo fica no sul do Líbano, região que Israel ameaça ocupar até o Rio Litani, cerca de 30 quilômetros da fronteira. A casa da família, que havia sido deixada às pressas em 2 de março, está entre os alvos de um ataque aéreo israelense no domingo, 25. A explosão transforma a residência em entulho. Até esta quarta-feira, 29, parentes e vizinhos ainda não localizam os corpos de Manal, Ali e Ghassan sob os escombros.

O bombardeio ocorre mais de uma semana após o anúncio da trégua, negociada em 8 de abril no contexto da guerra envolvendo Israel, Irã e o Hezbollah. O governo brasileiro condena ataques realizados durante o cessar-fogo e cobra respeito à proteção de civis, em especial de brasileiros no exterior. O Líbano abriga cerca de 22 mil cidadãos do Brasil em 2023, segundo o Itamaraty, a maior comunidade brasileira no Oriente Médio.

O caso expõe a insegurança em áreas consideradas fora da linha de frente. Segundo a família, Burj Qalowayh não aparece entre os pontos de combate mais intensos nos últimos meses. “Ao redor da casa dele não tinha nada, só construções civis, com população civil normal”, afirma o libanês-brasileiro Bilal Nader, 43, irmão de Ghassan, que vive em Foz do Iguaçu (PR).

Uma família entre dois países e uma guerra sem linha definida

Manal e Ghassan vivem mais de 15 anos no Brasil, entre 1995 e 2008. Ela se torna cidadã brasileira durante o período em que o casal administra negócios no ramo de eletroeletrônicos. Ele, comerciante e economista, não conclui o processo de naturalização “por falta de tempo”, segundo parentes, sempre dividido entre o trabalho e os planos da família.

Os dois constroem uma vida marcada pelo trânsito constante entre Brasil e Líbano. No país sul-americano, têm filhos, ampliam redes de amizade e se integram à comunidade libanesa. De volta ao Oriente Médio, Ghassan se dedica ao cultivo de oliveiras no sul do Líbano e se mantém distante de partidos e milícias. “Meu irmão é uma pessoa de bem, não tem ligação com nada, não apoia nenhum partido, é uma pessoa bem reservada, bem sossegada”, diz Bilal. Ele relata que o agricultor é conhecido em Foz do Iguaçu, Rio, Minas e São Paulo. “Ele era bem conhecido aqui.”

O jornalista libanês naturalizado brasileiro Ali Farhat, amigo de Ghassan, destaca o lado intelectual do agricultor. Formado em economia, ele escreve um livro em árabe sobre economia mundial e atua ativamente na comunidade libanesa no Brasil. “Ele trabalhava como empresário aqui e também como intelectual. Estava tentando fazer alguns estudos, algumas pesquisas e depois decidiu viajar para o Líbano para viver com a família dele lá”, conta Farhat.

A decisão de voltar a Burj Qalowayh depois do cessar-fogo parece, à época, um gesto calculado de prudência. O ataque do Hezbollah ao norte de Israel em solidariedade aos palestinos, em outubro de 2023, já tornara a região volátil. Desde então, o sul do Líbano alterna períodos de bombardeios e tréguas frágeis. Em novembro de 2024, um acordo de cessar-fogo entre Israel e o grupo xiita é anunciado, mas, segundo relatos no país, nunca é integralmente respeitado por Tel Aviv.

A nova fase de escalada começa em 2 de março de 2026, quando o Hezbollah volta a atacar Israel em resposta às violações sistemáticas da trégua e ao assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei. No dia seguinte, famílias como a de Ghassan abandonam as casas. Eles se deslocam para Beirute, numa fuga improvisada, levando apenas o essencial.

O cessar-fogo anunciado em 16 de abril reacende a esperança de retorno. “Quando teve o cessar-fogo, muita gente voltou para casa no amanhecer. Ele ainda esperou sete ou oito dias”, conta Bilal. O irmão só decide ir no sábado, 25, em viagem rápida, com a ideia de voltar no mesmo dia. “Ele falou que ia só juntar as coisas e voltar, só para pegar mais roupa. Ele até estava com o carro ligado, sabe, com o porta-malas já carregado”, relata.

O plano muda na última hora. Ghassan, Manal e o filho de 11 anos resolvem dormir na casa e adiar o retorno para o domingo, 26. O ataque israelense ocorre nesse intervalo, segundo parentes. O impacto da bomba também atinge outro filho do casal, Kassam Nader, 21, estudante de computação no Líbano, que fica ferido, é hospitalizado e recebe alta na terça-feira, 28. Os outros dois filhos, de 28 e 26 anos, vivem e trabalham no exterior.

Alvo civil, acusações de limpeza étnica e incerteza adiante

O episódio reforça suspeitas sobre a forma como Israel conduz a guerra no sul do Líbano. O especialista em geopolítica Anwar Assi afirma à Agência Brasil que as ações israelenses na região configuram “limpeza étnica”, com objetivo de expulsar moradores e ocupar o território. “O objetivo principal da guerra é a expulsão das pessoas do Sul do Líbano. Por isso que eles destruíram escolas, hospitais, prédios do governo e todas as unidades que poderiam dar suporte ao retorno dos civis”, diz. Para ele, a destruição de estruturas básicas impede que famílias que tentam voltar encontrem qualquer apoio.

Israel sustenta que busca criar uma “zona de segurança” para conter ataques do Hezbollah e argumenta ter direito a agir em legítima defesa contra ataques planejados, iminentes ou em curso, posição ecoada pela Casa Branca. No terreno, porém, casas como a de Manal e Ghassan se tornam símbolos da distância entre a retórica militar e a vida cotidiana de civis. O deslocamento forçado de população, prática denunciada por organizações de direitos humanos, é classificado em tratados internacionais como crime de guerra.

O sul do Líbano convive com esse cenário desde a década de 1980, quando o Hezbollah nasce em reação à invasão e ocupação israelense. Em 2000, o grupo força a retirada de Israel. Ao longo dos anos, transforma-se em partido político com cadeiras no Parlamento e presença nos governos. O país volta a ser bombardeado por Israel em 2006, 2009 e 2011, sempre com saldo pesado sobre a população civil.

A atual trégua, costurada em meio à guerra com o Irã e mediada mais recentemente pelo Paquistão, não interrompe por completo os ataques no Líbano. O último dia antes do cessar-fogo é marcado pelo bombardeio à última ponte sobre o Rio Litani, em Qasmiyeh, que isola o sul do resto do país e desorganiza a vida de cidades como Tiro e Sidon. Mesmo após 8 de abril, ataques continuam em distintos pontos do território libanês.

A Embaixada de Israel no Brasil é procurada para comentar o bombardeio à residência da família brasileira-libanesa, mas não responde até o fechamento desta reportagem. O silêncio diplomático contrasta com a pressão política interna. Em Brasília, o governo se vê diante do desafio de proteger cerca de 22 mil brasileiros em território libanês, cobrar explicações de Israel e, ao mesmo tempo, não romper canais com parceiros estratégicos.

A morte de Manal, Ali e Ghassan adiciona um rosto brasileiro a uma estatística que cresce longe dos holofotes. O episódio expõe o risco que civis continuam a correr mesmo em períodos de cessar-fogo formal e levanta dúvidas sobre a eficácia de acordos que não se traduzem em segurança real. Resta saber se o ataque que destrói uma casa em Burj Qalowayh será tratado como exceção trágica ou como mais um sinal de que, no sul do Líbano, a guerra ainda não termina quando os canhões se calam no papel.

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