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Flávio Bolsonaro perde terreno em redutos bolsonaristas, mostra Quaest

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, perde apoio em redutos bolsonaristas na pesquisa Quaest de junho de 2026. A queda atinge evangélicos, jovens, mulheres e eleitores das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Norte, enquanto Lula abre vantagem em simulação de segundo turno.

Virada numérica expõe fragilidade da pré-candidatura

A nova rodada da Quaest rompe um equilíbrio que vinha desde março. Em um cenário de segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 44% das intenções de voto, contra 38% de Flávio. A diferença de seis pontos tira a disputa do campo do empate técnico e altera o humor no entorno bolsonarista.

Os números chegam no momento em que avançam denúncias de ligação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso no caso Banco Master. A investigação aponta que o senador recebe R$ 61 milhões de Vorcaro, dono do banco, sob o pretexto de financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, “Dark Horse”. O episódio arrasta o filho 01 para o centro de uma crise que mistura dinheiro, família e projeto de poder.

Interlocutores do PL descrevem reservadamente um clima de desalento. O termo “naufrágio” circula em conversas internas para definir a situação da pré-candidatura, vista há poucos meses como aposta natural do campo bolsonarista para 2026. A perda de fôlego não aparece em um único grupo, mas em vários segmentos que o bolsonarismo considera vitais.

Erosão em redutos estratégicos e entre evangélicos

Quando a pesquisa é fatiada por região, sexo, idade e religião, a fotografia deixa de sugerir oscilação e passa a indicar mudança de tendência. No Sudeste, onde estão São Paulo e Minas Gerais, Flávio já havia registrado vantagem de 12 pontos sobre Lula em cenários anteriores. Agora, aparece em empate técnico, enquanto o presidente avança de forma consistente desde abril.

No agregado Centro-Oeste/Norte, a reversão é ainda mais aguda. A vantagem de 14 pontos que Flávio exibe em maio encolhe para apenas dois pontos em junho, após uma queda de oito pontos em um mês. A região é considerada termômetro da base conservadora rural e urbana ligada à segurança pública, dois pilares do bolsonarismo.

O recorte geracional amplia o problema. Na faixa de 16 a 34 anos, o senador perde a liderança que mantinha entre os jovens e vê Lula ultrapassar nesse grupo. Trata-se de um eleitorado central para a construção de imagem, presença digital e mobilização nas redes, espaços que sustentam o bolsonarismo desde 2018.

Entre mulheres, a curva também se inclina contra o pré-candidato do PL. A rejeição cresce à medida que o escândalo do Banco Master ganha espaço em noticiários e redes sociais, segundo avaliam estrategistas ouvidos pela reportagem. A combinação de denúncia de dinheiro irregular e proximidade familiar com Jair Bolsonaro pesa em um segmento que já demonstrava resistência à retórica mais dura da direita radical.

O quadro mais sensível, porém, está no eleitorado evangélico. De maio para junho, o apoio a Flávio nesse grupo cai de 61% para 52%. No mesmo intervalo, Lula sobe de 24% para 31%. A mudança corrói o núcleo da fortaleza construída pelo bolsonarismo ao longo das últimas eleições. “A rejeição se consolida quando o fiel sente que foi enganado”, diz um líder evangélico que participa de reuniões políticas com campanhas conservadoras. “Muitos acham que ele foi pego na mentira no caso do banco”, afirma.

Os dados de avaliação do governo reforçam a mudança de humor. Entre evangélicos, a aprovação a Lula passa de 28% em abril para 35% em junho, enquanto a desaprovação recua de 68% para 60%, de acordo com a Quaest. A oscilação indica que o eleitorado religioso deixa de enxergar o governo petista como inimigo absoluto, ao mesmo tempo em que cobra explicações do clã Bolsonaro.

Impacto no PL e reacomodação no campo bolsonarista

No comando do PL, a leitura é de que a crise tem caráter estrutural. A campanha de Flávio depende do voto evangélico como âncora e contava com Sudeste e Centro-Oeste/Norte como base segura para compensar eventuais perdas em outras áreas. A erosão simultânea desses pilares obriga o partido a discutir alternativas.

Dirigentes avaliam ajustes de discurso e de agenda, com maior aproximação de pastores influentes e tentativa de recuperar espaço entre jovens nas redes sociais. A avaliação, porém, é que gestos simbólicos já não bastam. A relação com Daniel Vorcaro, somada a investigações que orbitam a família Bolsonaro desde o caso das “rachadinhas”, alimenta a percepção de desgaste acumulado.

O pano de fundo internacional também entra na conta. Após visita de Flávio a Donald Trump e integrantes de alto escalão do governo americano, os Estados Unidos anunciam duas medidas de forte impacto para o Brasil: a classificação das facções CV e PCC como organizações terroristas e o aumento de tarifas sobre produtos brasileiros. O movimento, que aliados pretendiam vender como demonstração de prestígio, gera dúvidas sobre os resultados concretos da aproximação.

Em setores da direita, cresce o debate sobre substitutos. Nomes ligados a governadores e a alas mais ideológicas do bolsonarismo voltam à mesa de negociações. A possibilidade de parte do eleitorado migrar para outras candidaturas conservadoras, ou mesmo para a abstenção, preocupa líderes partidários que enxergam risco de perda de espaço no Congresso.

Lula, por sua vez, tenta capitalizar a virada sem provocar reação imediata da base conservadora. A equipe presidencial explora o ganho de aprovação entre evangélicos, mas evita movimentos bruscos que possam reconstruir a unidade bolsonarista em torno da pauta moral. A leitura no Planalto é que a fragmentação do campo adversário abre margem para consolidar vantagem ainda em 2026.

Horizonte incerto e disputa em reconfiguração

A pesquisa Quaest de junho não encerra o jogo, mas redefine o tabuleiro. A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro entra na fase decisiva sob desconfiança crescente em sua própria base. O PL mede custos e benefícios de insistir no nome do filho 01 enquanto observa a possibilidade de uma erosão mais profunda da marca bolsonarista.

As próximas semanas devem ser marcadas por movimentos discretos, mas importantes: novas sondagens internas, conversas com lideranças evangélicas e ajustes no discurso sobre o escândalo do Banco Master. A dúvida que ronda o campo conservador é se ainda há tempo para conter o desgaste ou se a virada captada agora pela Quaest inaugura um ciclo de reacomodação mais duradouro na política brasileira.

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