Zequinha e Cleitinho abandonam PEC alternativa à 6×1 no Senado
Os senadores Zequinha e Cleitinho retiram, nesta 4ª feira (4.jun.2026), suas assinaturas da PEC alternativa à proposta 6×1 no Congresso Nacional. O movimento se soma ao do senador Romário e expõe o enfraquecimento da iniciativa da oposição, que tenta permitir acordos individuais sobre jornada de trabalho.
Retirada articulada e recado à oposição
A decisão é formalizada no início da tarde, em ofício encaminhado à Mesa do Senado. Os dois senadores comunicam que não desejam mais vincular seus nomes à proposta da oposição que flexibiliza, de forma ampla, os acordos sobre a jornada. A PEC alternativa tenta criar uma rota paralela à chamada proposta 6×1, mas perde tração no momento em que o debate trabalhista ganha temperatura no Congresso.
Nos bastidores, aliados de Zequinha e Cleitinho descrevem um incômodo crescente com a defesa de negociações individuais entre patrão e empregado, sem a mediação de sindicatos ou acordos coletivos robustos. A leitura é que a proposta abre margem para jornadas mais longas, com compensações pouco claras, em um país em que, segundo o IBGE, cerca de 39 milhões de pessoas ainda vivem na informalidade. O gesto dos dois, ao se juntarem ao recuo de Romário, funciona como aviso direto à oposição: não há consenso interno sobre até onde é possível ir na flexibilização das leis trabalhistas.
Contexto da PEC e disputa sobre jornada
A proposta 6×1, em discussão desde o 1º semestre de 2026, tenta regulamentar um modelo em que o trabalhador pode atuar seis dias por semana e folgar um, com maior liberdade de ajuste de horários. A PEC alternativa da oposição, agora esvaziada, vai além ao abrir espaço para que esse acerto seja feito caso a caso, entre empresa e funcionário, reduzindo o peso das negociações coletivas. Na prática, isso permitiria, por exemplo, jornadas concentradas em alguns dias, com até 12 horas de trabalho, desde que compensadas em outros momentos.
Parlamentares que se afastam da proposta afirmam, em reservado, que o texto cria um desequilíbrio estrutural. “Não dá para fingir que empregado e empregador sentam à mesa em condições iguais. O risco de abuso é real”, diz um senador governista que acompanha as negociações. Entidades de trabalhadores alertam para a possibilidade de aumento de horas extras disfarçadas, enquanto representantes de setores de serviço e comércio argumentam que a flexibilização dá fôlego para enfrentar períodos de pico de demanda.
Efeito político e impacto sobre trabalhadores
A retirada das assinaturas tem efeito imediato sobre a contabilidade política da PEC alternativa. Uma proposta de emenda à Constituição precisa do apoio mínimo de 27 senadores para tramitar. Cada retirada encurta essa margem e pressiona a oposição a negociar concessões ou a abandonar o texto atual. A articulação passa a mirar não apenas o plenário, mas também líderes partidários que tentam evitar desgaste com suas bases sindicais em ano pré-eleitoral.
Para os trabalhadores, o impasse mantém o cenário de incerteza. Sindicatos calculam que mudanças dessa natureza podem atingir diretamente milhões de empregados formais, sobretudo em setores que operam em turnos, como indústria, saúde, comércio e transporte. Caso a PEC da oposição avançasse, empresas teriam maior margem para pactuar jornadas sob medida, com possibilidade de banco de horas mais amplo e folgas concentradas. Sem a PEC, ganha força o discurso de que qualquer mudança deve vir acompanhada de salvaguardas claras, limites de horas por dia e garantias de renda mínima mensal.
Jogo travado e próximos passos no Congresso
No curto prazo, líderes do bloco de oposição avaliam se insistem na PEC alternativa ou se recuam para tentar influenciar o texto principal da proposta 6×1. A opção mais provável, segundo interlocutores, é buscar uma saída negociada em comissão especial, com prazo de discussão de pelo menos 60 dias, antes de qualquer votação em plenário. O governo monitora o movimento e vê na fissura da oposição uma oportunidade para retomar a defesa de uma regulamentação mais próxima da Consolidação das Leis do Trabalho, em vigor desde 1943 e alterada pela reforma trabalhista de 2017.
Senadores que atuam na mediação preveem um segundo semestre marcado por audiências públicas e pressão externa, com centrais sindicais e entidades empresariais disputando cada vírgula do texto. A retirada de Zequinha, Cleitinho e Romário não encerra o debate, mas redefine a correlação de forças. A pergunta que ronda os gabinetes, nesta altura, é se haverá espaço político para uma flexibilização ampla ou se o Congresso vai optar por ajustes pontuais na jornada, em vez de uma mudança estrutural nas regras de trabalho no país.
