Eduardo Bolsonaro propõe Zelle contra tarifaço de Trump e causa reação
Eduardo Bolsonaro volta ao centro da polêmica ao sugerir, em vídeo publicado nas redes sociais nesta quinta-feira 4, o uso do sistema Zelle, dos Estados Unidos, como argumento de negociação para evitar novas tarifas contra o Brasil. O ex-deputado cassado compara o modelo norte-americano ao Pix e afirma que a ferramenta pode entrar na mesa de discussões com o governo de Donald Trump. A proposta provoca reação imediata de aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e acende novo debate sobre soberania econômica e tecnológica.
Pix vira trunfo político em meio a ameaça de tarifaço
No vídeo, Eduardo afirma que os Estados Unidos já dispõem de um sistema semelhante ao Pix e cita o Zelle como exemplo. “Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos. Então, dá pra você ir para uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos”, diz o ex-parlamentar, ao defender que o tema entre na pauta comercial com Washington.
A fala ocorre em um momento de tensão crescente entre os dois países. O governo Trump volta a ameaçar um novo tarifaço sobre produtos brasileiros, em especial do agronegócio e da indústria de transformação, em meio a disputas sobre subsídios e políticas ambientais. Em 2020, a Casa Branca já chegou a anunciar sobretaxas sobre o aço e o alumínio brasileiros, o que afetou bilhões de dólares em exportações. Agora, às vésperas das eleições municipais nos Estados Unidos e das gerais no Brasil, qualquer gesto público de aproximação ou de confronto ganha peso extra.
O Pix, lançado em novembro de 2020 e hoje com mais de 160 milhões de usuários cadastrados, sai do campo técnico e entra de vez na arena política. A ferramenta, criada e operada pelo Banco Central, vira bandeira recorrente nos discursos de Lula, que a apresenta como exemplo de inovação pública de baixo custo e de inclusão financeira. Ao sugerir que um sistema privado americano sirva de barganha para aliviar pressões tarifárias, Eduardo toca em um símbolo que o governo atual tenta associar à soberania nacional.
Críticas expõem disputa sobre soberania e sistemas de pagamento
A reação mais dura vem do campo lulista. A deputada federal Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, afirma que Eduardo “serve aos interesses americanos” e acusa o bolsonarismo de mentir sobre a natureza do Pix. “O Pix é uma infraestrutura pública brasileira, criada e regulada pelo Banco Central do Brasil. Nunca foi de Bolsonaro, que nem sabia do que se tratava quando foi perguntado sobre o assunto”, escreveu Gleisi em uma publicação no X. Para ela, a tentativa de aproximar o Pix do Zelle distorce o debate. “E o Zelle é um sistema privado, operado por bancos americanos, que cobra taxas. É nojento ver a disposição dos Bolsonaros de servir os interesses americanos”, conclui.
Simone Tebet, ex-ministra do Planejamento e hoje no PSB, divulga um vídeo em defesa explícita do modelo brasileiro. “O Pix é uma conquista dos brasileiros. Facilitou a vida de milhões de pessoas e fortaleceu os pequenos negócios em todo o País. Defender o Pix é defender a inovação brasileira e a nossa soberania”, afirma a pré-candidata ao Senado por São Paulo. Ela lembra que, desde a criação do sistema, o número de transações eletrônicas instantâneas dispara e supera, em poucos anos, o volume de TEDs e DOCs acumulados em décadas.
Lindbergh Farias, deputado federal pelo PT do Rio, reforça o tom de alerta e aponta o risco de mudança no controle do sistema. “A família Bolsonaro e Trump querem tirar o Pix do Banco Central. Querem entregar para empresas norte-americanas”, diz. A acusação embute um temor que circula entre economistas próximos ao governo: a possibilidade de que uma reconfiguração regulatória, pressionada por interesses de grandes bancos e plataformas estrangeiras, fragilize o caráter público da infraestrutura de pagamentos.
No centro da controvérsia está a diferença estrutural entre os dois sistemas. O Pix é gratuito para pessoas físicas, funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, e integra praticamente todos os bancos e fintechs autorizados pelo Banco Central. O Zelle, criado em 2017, nasce de um consórcio de grandes bancos americanos, como Bank of America e JPMorgan, e opera dentro do sistema bancário tradicional, com regras próprias, limites e eventuais tarifas. Nem todas as instituições financeiras aderem, e o serviço não tem o mesmo alcance social que o Pix alcança em bairros periféricos brasileiros, em pequenos comércios e no dia a dia de trabalhadores informais.
Economistas consultados por interlocutores do governo apontam outro ponto sensível. Ao colocar o Zelle como trunfo na mesa, Eduardo sugere que o Brasil poderia flexibilizar sua posição sobre a arquitetura dos pagamentos instantâneos em troca de alívio tarifário. Na prática, isso significaria aceitar a entrada mais profunda de sistemas privados estrangeiros em um mercado hoje ancorado em uma infraestrutura pública, com regras definidas em Brasília. A leitura de aliados de Lula é que essa troca fragilizaria a capacidade do país de definir tarifas, padrões de segurança e proteção de dados de forma soberana.
Pressão eleitoral e incerteza sobre negociações com Washington
As declarações saem em um ambiente de disputa acirrada às vésperas das eleições de 2026. A cada encontro com empresários, Lula repete que não abrirá mão do Pix. O Planalto enxerga na ferramenta um ativo político e econômico: ela reduz custos bancários, sustenta o faturamento de microempreendedores e, segundo dados do Banco Central, movimenta trilhões de reais por ano em transações instantâneas. A equipe econômica avalia que o sistema pode ser base para novos produtos, como crédito mais barato e pagamento de benefícios sociais, o que amplia o alcance do Estado em regiões onde o dinheiro em espécie ainda domina.
O campo bolsonarista tenta se reposicionar nesse tabuleiro. Eduardo busca associar-se a uma agenda de abertura econômica e aproximação irrestrita com os Estados Unidos, enquanto outros nomes do grupo minimizam o peso do Pix como símbolo nacional. O cálculo político é claro: ao vincular a política comercial a temas do cotidiano financeiro, a oposição tenta dialogar com um eleitorado preocupado com emprego, renda e preço dos produtos importados. O risco é transformar uma infraestrutura técnica, construída ao longo de anos por equipes do Banco Central, em munição de guerra cultural.
As negociações com Washington avançam em silêncio. Assessores envolvidos nas conversas informais afirmam que, até agora, não há proposta concreta que envolva Zelle, Pix ou mudanças regulatórias na mesa oficial. O eixo central segue sendo tarifas, cláusulas ambientais e compromissos de abertura de mercado em setores específicos, como o de aço, alumínio e produtos agrícolas. A fala de Eduardo, ainda assim, ganha repercussão nos bastidores porque sugere qual seria a disposição de um eventual novo governo alinhado a Trump em um cenário de retorno da direita ao Planalto.
O episódio deixa uma pergunta em aberto para os próximos meses de campanha: até que ponto a infraestrutura financeira digital do país pode entrar na barganha da política externa. O debate sobre tarifas, soberania e controle de dados se mistura a promessas de crescimento, geração de empregos e defesa da indústria nacional. Enquanto isso, milhões de brasileiros seguem usando o Pix para pagar o cafezinho, o aluguel e a conta de luz, sem perceber que, por trás de cada transferência em poucos segundos, corre uma disputa geopolítica que deve se intensificar até a urna de outubro de 2026.
