Aos 78, Nuno Leal Maia volta ao palco e dispara contra a Globo
Teatro
Nuno Leal Maia retorna aos palcos com peça política e faz críticas contundentes à emissora Globo.
Aos 78 anos, Nuno Leal Maia volta aos palcos em junho de 2026 com a comédia política “Meno Male”, em cartaz no Teatro Renaissance, em São Paulo. O retorno, após 11 anos longe do teatro, coincide com a celebração de 50 anos de carreira em novelas e com uma fase de fala franca sobre televisão, política e o lugar do ator veterano no mercado.
Um taxista italiano no palco e a política em cena
Na nova montagem do texto de Juca de Oliveira, escrito há 40 anos e agora atualizado por Léo Stefanini, Maia interpreta Nicola, um taxista italiano que vê sua vida pacata ser atravessada pela corrupção. O personagem, inédito em sua trajetória, marca uma espécie de recomeço.
“Não vi a primeira versão de otário, de burro. Eu gravava muito na época”, conta, rindo, sobre a montagem original dirigida por Bibi Ferreira nos anos 1980. Agora, ele encontra no palco um espaço para retomar a carpintaria teatral que, diz, sempre o fascinou. “Gosto de fazer peças brasileiras. Os personagens são mais próximos de nós”, afirma.
Em “Meno Male”, expressão italiana que pode ser traduzida como “ainda bem”, Nicola se choca com a esperteza do jovem político Alberto, vivido por Joaquim Lopes. Após bater o carro no táxi do italiano, o deputado corrupto se aproxima da família e se envolve com a neta de Nicola, Angelina. A partir desse encontro, a trama mistura relações afetivas e jogos de poder para discutir a promiscuidade entre o público e o privado.
O elenco reúne ainda Suzy Rêgo, Marcelo Faria, Antoniela Canto e Naiara de Castro. Para o público, a presença de Maia à frente do espetáculo funciona como um imã. Para o ator, o palco volta a ser laboratório depois de um hiato iniciado em 2012, quando fez “O Abajur Lilás”, de Plínio Marcos.
Críticas à Globo e a virada do mercado de TV
Longe das novelas desde 2012, quando integrou o elenco de “Amor, Eterno Amor”, Maia fala sem rodeios sobre a principal emissora do país, com a qual teve contrato até 2015. “A Globo é burra pra caramba. Jogou fora todos os atores”, dispara, ao comentar a política da casa de substituir contratos longos por vínculos por obra e apostar em nomes populares nas redes sociais.
O ator vê essa mudança como um rompimento com uma tradição de formação de elenco que marcou a TV brasileira a partir dos anos 1970. Lembra o período em que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, comandava a emissora e diz que, mesmo após a saída dele, em 1997, seu “espírito de trabalho” ainda pairava sobre a casa. Na leitura de Maia, a virada ocorre quando Ricardo Waddington assume o comando dos Estúdios Globo, em 2020. “Limparam, trocaram todo mundo”, resume.
O incômodo também é artístico. Ele conta que, em sua última novela, teve boa parte das cenas cortadas. A frustração pesou na decisão de se afastar dos folhetins. Hoje, não se vê mais na rotina de gravações diárias. “Sinceramente? Hoje, prefiro sombra e água fresca. Se aparecer um filme bom, eu topo. Novela não sei se daria certo. Eles não vão me aguentar mais”, diz.
Meio século de bordões, fãs e excesso de texto
Em 22 de junho, no programa Encontro com Patrícia Poeta, na Globo, Maia revisita esse passado televisivo. Celebra 50 anos de novelas, relembra personagens e revive o bordão que o acompanha desde “Mandala”, de 1987: o “minha deusa!”, dito em cena com Vera Fischer. O romance dos personagens virou febre, assim como o assédio dos fãs nas ruas e ao telefone.
“Era muita coisa e era um monte de texto, porque o personagem era intenso na novela”, conta, sobre o ritmo de gravações. Para conseguir decorar e responder às ligações de fãs, precisou improvisar estratégias. “Na época não tinha celular, mas eu tinha que tirar o telefone lá de casa do gancho!”, lembra, entre risos.
Ao longo de cinco décadas, ele passa por mais de 20 produções em emissoras como Bandeirantes, Manchete e Globo. Deixa tipos marcantes como o professor Fábio de “A Gata Comeu” e o surfista Gaspar Kundera de “Top Model”. Ainda assim, insiste: “Eu gosto de cinema”. Para ele, Fagundes é “do teatro”, Tony Ramos “adora novela” e sua casa, na verdade, sempre foi a tela grande.
Da USP à Boca do Lixo: a formação de um ator inquieto
O caminho até o palco de “Meno Male” passa pela Universidade de São Paulo. Maia cursa Ciências Sociais, assiste às aulas de Fernando Henrique Cardoso, estuda História e acaba se formando em Cinema na Escola de Comunicações e Artes. A base acadêmica molda seu olhar para a política e para a imagem, mas não o satisfaz na prática.
“Eu precisava aprender a fazer cinema, algo que a faculdade não ensinava”, diz. A resposta ele encontra na Boca do Lixo, polo de cinema independente e libertário que movimenta o centro de São Paulo entre os anos 1960 e 1980. Lá, vive seu maior sucesso comercial, “O Bem Dotado – O Homem de Itu” (1978), em que constrói um tipo caipira inspirado em Mazzaropi.
A filmografia inclui ainda títulos que se tornam clássicos: “A Dama do Lotação” (1978) e “Gabriela, Cravo e Canela” (1983), ambos ao lado de Sônia Braga. Nos bastidores deste último, conhece o astro italiano Marcello Mastroianni. Era Copa de 1982, o Brasil caíra para a Itália, e o ídolo europeu não perdia a chance de provocar. A convivência, conta, parecia “inimaginável” para o jovem ator formado na USP.
Ceticismo político em uma comédia sobre poder
Se o teatro hoje serve para Nuno Leal Maia revisitar a própria carreira, também funciona como espelho de um país dividido. “Meno Male” nasce nos anos 1980 mirando o PMDB e nomes como Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Quatro décadas depois, retorna a um Brasil marcado pela polarização.
Maia enxerga o cenário com uma mistura de ironia e desalento. “Vejam só, agora tem a extrema direita e a extrema esquerda! Bolsonaro veio para tacar fogo em tudo. Ele é de Áries, né? O PT, que também gosta de uma confusão, puxou a coisa para si. Aí fica nisso, para lá e para cá”, resume.
Entre um lado e outro, ele não se alinha a nenhum. “Não gosto. Acho que todos que estão lá são só para pegar dinheiro. Nunca vi um político que trabalhasse por amor”, afirma. O tom cético se aproxima do da peça, que mostra como pequenos acordos entre amigos e parentes, quando misturados a interesses de gabinete, alimentam o sistema que ele critica.
No palco, esse desencanto vira humor ácido. Fora dele, ecoa um sentimento comum a parte do público, cansado de escândalos e promessas repetidas. O ator que um dia frequentou as aulas de FHC agora observa, do alto de 78 anos, um país que parece girar em círculo.
Teatro como refúgio e campo de batalha
O retorno de Nuno Leal Maia ao teatro, após 11 anos, movimenta um circuito que ainda luta para recuperar público e musculatura financeira. Ao atrair fãs de novelas, cinema e séries para o Teatro Renaissance, “Meno Male” ajuda a reaproximar plateias de uma arte que, para o ator, continua sendo o território da experimentação e da fala direta.
Na prática, seu desabafo contra a Globo acende, entre artistas e produtores, a discussão sobre o destino dos veteranos e a lógica de um mercado guiado por algoritmos e números de seguidores. Ao mesmo tempo, sua disposição em subir ao palco, com 78 anos, sinaliza que as trajetórias longas ainda podem ganhar novos capítulos fora do eixo da TV aberta.
Enquanto a temporada em São Paulo segue, as falas de Maia repercutem em entrevistas, programas de TV e bastidores. A peça permanece em cartaz, a política continua em ebulição e o ator, que diz preferir “sombra e água fresca”, se mantém no centro de um debate sobre memória, renovação e futuro da cultura brasileira. A dúvida agora é se esse será um último grande personagem ou apenas mais uma virada em uma carreira acostumada a recomeços.
O que aconteceu com o ator Nuno Leal Maia?
Nuno Leal Maia continua em atividade. Em 2026, aos 78 anos, ele retorna ao teatro após 11 anos afastado, protagonizando a peça política “Meno Male” em São Paulo.
O ator Nuno Leal Maia tem filhos?
Ele não comenta a vida pessoal nesta entrevista e não há informação, no contexto desta reportagem, sobre se Nuno Leal Maia tem ou não filhos.
Onde Nuno Leal Maia mora?
O material disponível não informa a cidade ou o bairro onde Nuno Leal Maia vive atualmente; apenas que ele trabalha em São Paulo com a peça “Meno Male”.
Quem é a esposa do ator Nuno Leal Maia?
O ator não fala sobre relacionamento ou casamento nas declarações usadas aqui. Não há informação, neste contexto, sobre esposa ou parceira atual.
