Base de Lula vai aos EUA contra tarifaço e mira Flávio Bolsonaro
Uma comitiva de deputados da base de Lula desembarca em Washington, em 2026, para tentar barrar tarifas de 25% contra o Brasil e pressionar por investigações sobre ligações financeiras de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos.
Contraofensiva após encontro de Flávio com Trump
Os parlamentares chegam aos EUA cerca de dez dias depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, se reunir com o presidente Donald Trump na capital americana. O encontro antecede o anúncio da Casa Branca de um tarifaço sobre produtos brasileiros, gesto que reacende a disputa entre governo e bolsonarismo também no terreno da política externa.
A viagem é liderada por Pedro Uczai (PT-SC), líder do governo na Câmara, e inclui Jandira Feghali (PCdoB-RJ), André Janones (Rede-MG) e Pedro Campos (PSB-PE). O grupo reserva espaço na agenda para discutir cooperação contra o crime organizado e comércio bilateral com parlamentares democratas, mas não esconde o peso eleitoral da missão num ano em que Lula e Flávio devem se enfrentar nas urnas.
André Janones explicita o tom de embate em um vídeo gravado em frente ao Capitólio. “Chegou o grande dia em que a gente vai arrancar a máscara do Flávio Bolsonaro aqui nos Estados Unidos”, afirma, cercado pelos colegas. O objetivo declarado é duplo: tentar reverter o aumento de 25% em tarifas sobre exportações brasileiras e abrir espaço para apurações internacionais envolvendo o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os deputados levam uma pasta farta. Ali estão reportagens, decisões oficiais, documentos de órgãos de controle e bases de dados sobre a maior fraude financeira da história recente do país, que derruba o antigo Banco Master e provoca rombos no Banco Regional de Brasília (BRB) e em fundos de previdência de servidores de vários Estados e municípios. O foco é o empresário Daniel Vorcaro, controlador do extinto banco, e suas conexões com estruturas financeiras ligadas à gestora Reag e a fundos suspeitos de lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Triangulação financeira, crime organizado e tarifa de 25%
O elo com Flávio Bolsonaro surge no pedido de R$ 134 milhões que o senador faz a Vorcaro para financiar um filme sobre a vida de Jair Bolsonaro, revelado pelo Intercept Brasil. Segundo documentos exibidos pela comitiva, parte desses recursos segue para um fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, advogado próximo a Eduardo Bolsonaro, irmão do presidenciável. Os deputados falam em possível “triangulação financeira transnacional” envolvendo Brasil e Estados Unidos.
Em nota entregue a parlamentares democratas, a comitiva resume a linha de investigação. “A hipótese investigativa central é a possível utilização dos Estados Unidos como etapa de ocultação, dissimulação ou integração de valores originados de crimes antecedentes investigados no Brasil”, registra o texto. O material menciona “agentes políticos associados à família Bolsonaro” e pede que autoridades americanas facilitem o rastreamento de ativos, que podem ter passado por fundos e estruturas registradas em solo americano.
O caso ganha peso porque a Operação Carbono Oculto, deflagrada em 2025 com apoio da Receita Federal e do Ministério Público de São Paulo, aponta vínculos da Reag Investimentos com esquemas de lavagem de dinheiro atribuídos ao PCC. A investigação, tida como a maior ofensiva já realizada contra o crime organizado no país, mapeia um circuito de fundos, empresas de fachada e investimentos imobiliários usado para despistar a origem ilícita de milhões de reais.
Ao mesmo tempo, o tarifaço de 25% imposto por Washington sobre produtos brasileiros ameaça exportadores em setores como aço, alumínio, manufaturados e parte do agronegócio. A medida se apoia em uma investigação do Escritório de Comércio dos Estados Unidos, que alega riscos concorrenciais e de segurança ligados ao Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central em 2020 e hoje usado por mais de 150 milhões de brasileiros.
O governo americano sustenta que a arquitetura do Pix poderia facilitar fraudes e dificultar o monitoramento de operações transfronteiriças. Em Brasília, o diagnóstico é outro. Para o Planalto, a ofensiva mira um instrumento que reduz custos, amplia a bancarização e aumenta a autonomia do Banco Central frente a redes tradicionais de cartões e bancos estrangeiros. Em vídeo nas redes, Uczai define o sistema como “patrimônio nacional” e reage: “Queremos manter relações comerciais com os Estados Unidos, mas sem intervenção, sem tarifaço, e sem querer eliminar o nosso Pix”.
Disputa eleitoral atravessa diplomacia e segurança
A comitiva aposta na oposição a Trump para tentar reverter o cenário. Jandira Feghali resume o recado que pretende levar aos democratas: “Nós vamos pedir várias coisas. Estamos trazendo insumos, documentos, dados sobre o Brasil. Precisamos intensificar a cooperação, não a intervenção. Queremos pedir o cancelamento das tarifas contra o Brasil”. Os parlamentares falam em uma ampla agenda, que inclui intercâmbio de informações sobre facções brasileiras e mecanismos para rastrear dinheiro suspeito em território americano.
O movimento funciona como contraofensiva ao discurso bolsonarista. Flávio tenta capitalizar internacionalmente o enquadramento do PCC e do Comando Vermelho como organizações narcoterroristas pelos EUA, medida que reforça sua plataforma de endurecimento penal. O governo Lula, especialistas em segurança pública e parte do Judiciário veem risco nesse rótulo. Argumentam que a classificação abre brecha para ação militar estrangeira em solo brasileiro sob a justificativa de combate ao terrorismo, além de sanções econômicas e maior vigilância sobre empresas nacionais.
Ao deslocar a disputa para Washington, os dois campos testam também sua capacidade de influenciar centros de poder fora do país. O bolsonarismo insiste na imagem de aliado preferencial do trumpismo e de linha dura contra o crime. A base governista tenta colar em Flávio o desgaste de um tarifaço que encarece exportações, reduz margens de lucro e ameaça empregos em cadeias produtivas voltadas ao mercado americano.
Se os democratas decidirem abraçar a pauta da comitiva, o conflito pode ganhar novo grau de tensão diplomática. Um eventual recuo nas tarifas, após pressão da oposição interna de Trump, fortaleceria o discurso de Lula de que o governo consegue proteger exportadores e preservar o Pix sem ceder em soberania. Um endurecimento da Casa Branca, ao contrário, alimentaria o argumento de Flávio de que o Brasil precisa se alinhar ainda mais à agenda de segurança dos EUA.
As apurações sobre a rede financeira ligada a Vorcaro, Master e Reag ainda avançam em inquéritos e ações civis no Brasil. Se autoridades americanas aceitarem compartilhar dados bancários, contratos de fundos no Texas e registros de transações suspeitas, a investigação pode ganhar dimensão internacional rara em casos envolvendo políticos brasileiros. Caso esse acesso seja negado ou limitado, a narrativa de proteção externa a aliados do bolsonarismo encontrará eco entre governistas.
A viagem não encerra a disputa, mas marca um novo capítulo de uma campanha que mistura tarifas, Pix, crime organizado e eleição presidencial. Nas próximas semanas, o efeito prático da ofensiva será medido em despachos diplomáticos, variações de tarifas e eventuais pedidos de cooperação jurídica. Até lá, permanece em aberto se o embate em Washington produzirá mudanças concretas na economia brasileira ou ficará restrito ao campo simbólico da guerra eleitoral.
