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Trump usa Justiça para acusar James Comey de ameaça em post no Instagram

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusa, pela segunda vez, o ex-diretor do FBI James Comey de ameaçar o presidente Donald Trump. A nova denúncia, apresentada nesta terça-feira (28) em um tribunal federal na Carolina do Norte, se baseia em uma foto de conchas postada no Instagram em que aparecem os números “86 47”, interpretados pelo governo como um chamado para remover o republicano do poder.

Sinal de praia vira caso criminal em meio à guerra política

A imagem, publicada em maio do ano passado, mostra conchas alinhadas em uma praia da Carolina do Norte formando os dois números. No jargão norte-americano, “86” funciona como verbo, usado em bares e restaurantes para indicar que alguém deve ser expulso. Já o “47” aponta diretamente para Trump, que assume o cargo como 47º presidente dos Estados Unidos. A combinação vira, para aliados do republicano, um recado cifrado para tirar o presidente à força.

A acusação formaliza a leitura mais agressiva possível desse código informal. Os promotores afirmam que Comey ameaça a vida de Trump e transmite uma ameaça interestadual, crime federal punido com anos de prisão. O caso transforma uma postagem de férias, feita a milhares de quilômetros de Washington, em novo capítulo da disputa aberta entre o ex-diretor do FBI e o presidente que o demitiu em 2017, no auge das investigações sobre a interferência russa na eleição de 2016.

Comey apaga a foto após a polêmica e tenta desarmar a crise. “Eu não sabia que algumas pessoas associavam esses números à violência. Isso nunca me ocorreu, mas sou contra qualquer tipo de violência, por isso retirei a postagem”, afirma, dias depois da publicação. Nesta semana, em um vídeo divulgado on-line, ele volta ao ataque controlado: diz que é inocente e que segue “sem medo” diante das novas acusações. Seu advogado prefere o silêncio e não comenta o processo.

Justiça sob comando de Trump mira inimigos políticos

A nova queixa criminal nasce em um Departamento de Justiça redesenhado para atender às pressões diretas do presidente. Desde abril, o órgão é comandado interinamente por Todd Blanche, advogado próximo a Trump. Ele assume o posto após a queda de Pam Bondi, demitida em parte por não ter agido com a rapidez exigida pelo republicano na perseguição judicial a adversários e críticos do governo.

Blanche acelera a máquina. Em poucas semanas, o Departamento de Justiça apresenta acusações contra o Southern Poverty Law Center, organização de direitos civis, divulga relatório contra promotores que atuaram em casos de ativistas antiaborto e denuncia um ex-funcionário do Instituto Nacional de Saúde por supostamente esconder documentos sobre pesquisas de Covid-19. O processo contra Comey entra nessa lista de alvos associados, direta ou indiretamente, à oposição a Trump.

O histórico recente mostra que a ofensiva enfrenta resistência nos tribunais. Em setembro, o Departamento abre um processo separado contra Comey, acusando-o de mentir ao Congresso sobre vazamentos à imprensa ligados às investigações do FBI. Um juiz federal arquiva o caso ao concluir que o promotor responsável não foi nomeado de forma legal. O governo recorre e tenta salvar a denúncia, mas acumula derrotas paralelas: juízes apontam erros jurídicos graves da promotora Lindsey Halligan diante do grande júri e vetam o uso de provas coletadas em buscas consideradas inconstitucionais.

O novo processo nasce sob essa sombra. A defesa de Comey deve se apoiar na Primeira Emenda, que protege com força excepcional a liberdade de expressão, inclusive manifestações políticas duras, satíricas ou ofensivas. Especialistas em direito constitucional já veem no caso um teste para a linha que separa discurso político, ainda que de mau gosto, de ameaça real à segurança do presidente.

Liberdade de expressão em xeque e imagem dos EUA em jogo

A acusação contra Comey reacende um debate que atravessa décadas nos Estados Unidos: até onde a Justiça pode ir ao punir discursos políticos? Ao tratar uma foto de conchas como potencial incitação à violência, o Departamento de Justiça de Trump se arrisca a ampliar o conceito de ameaça criminal e a intimidar críticos do governo. Grupos de direitos civis veem no gesto um sinal de que o aparelho jurídico federal pode estar sendo armado para vigiar opositores.

O impacto vai além das disputas internas. Os Estados Unidos se apresentam ao mundo como defensores da liberdade de expressão, especialmente em temas políticos. Um processo criminal contra um ex-chefe do FBI por um post ambíguo no Instagram oferece munição a governos autoritários que buscam justificar o uso de leis de segurança para calar adversários. A cada nova acusação, cresce o risco de erosão da credibilidade americana em fóruns internacionais e organismos multilaterais.

Dentro do país, o recado é direto. Servidores públicos, investigadores e líderes de instituições independentes enxergam no caso Comey um aviso a quem pensar em desafiar a Casa Branca ou conduzir investigações sensíveis. O episódio reforça a leitura de que o sistema de Justiça vive período de estresse máximo, com promotores sob pressão política inédita desde a crise de Watergate, nos anos 1970.

Disputa segue nos tribunais e no campo político

Os próximos meses devem ser dominados por batalhas processuais. A defesa de Comey tende a pedir o arquivamento imediato da denúncia, alegando violação da Primeira Emenda e abuso de poder do Executivo. A promotoria, por sua vez, buscará convencer o juiz de que o arranjo “86 47” representa ameaça direta, capaz de incitar violência contra o presidente, e não apenas crítica sarcástica ou ironia política.

A decisão inicial do tribunal na Carolina do Norte, prevista para os próximos meses, vai muito além do destino de um ex-diretor do FBI. O veredito sinalizará até onde um presidente disposto a usar a máquina do Estado consegue empurrar as fronteiras da lei para atingir adversários. Em um país polarizado, a pergunta que fica é se a Justiça americana ainda consegue separar, com nitidez, a proteção legítima ao chefe de governo da criminalização do dissenso político.

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