Trump mantém pressão sobre Irã e descarta aliviar sanções
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma nesta quarta-feira (27), na Casa Branca, que Washington continua insatisfeito com as negociações com o Irã. Ele descarta aliviar sanções e avisa que só aceitará um acordo com garantias consideradas sólidas pela Casa Branca.
Casa Branca endurece discurso em meio a guerra e eleições
Trump fala a poucos meses das eleições de meio de mandato, previstas para novembro, e tenta afastar a leitura de que a política externa se submete ao calendário eleitoral. Diante de repórteres, ele reforça que o impasse com Teerã pode se prolongar se o regime iraniano não aceitar termos mais duros.
“O Irã está muito empenhado, eles querem muito fechar um acordo. Até agora, não conseguiram… não estamos satisfeitos com isso, mas ficaremos. Ou ficaremos, ou teremos que terminar o trabalho”, afirma o presidente, sem detalhar que tipo de ação “para terminar o trabalho” está sobre a mesa. A frase ecoa outros momentos de sua Presidência, em que ele associa pressão econômica a um possível uso de força militar.
Ao longo da conversa, Trump insiste que não há discussão em curso sobre aliviar as sanções impostas nos últimos anos. “Os EUA não estão discutindo a possibilidade de aliviar sanções contra o regime iraniano”, reforça, num recado claro a Teerã e também ao Congresso, que pressiona por transparência nas negociações.
O endurecimento acontece depois de uma viagem à China marcada por pouco avanço sobre o dossiê iraniano. De volta a Washington, o presidente se vê diante de uma equação delicada: precisa mostrar firmeza ao eleitorado republicano, que cobra uma postura de confronto, e ao mesmo tempo evitar uma escalada que desorganize ainda mais os mercados de energia.
Estreito de Ormuz permanece no centro da disputa
O ponto mais sensível da fala de Trump recai sobre o Estreito de Ormuz, passagem estratégica que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. Cerca de 20% do petróleo negociado globalmente passa, em média, todos os dias pelo canal estreito de aproximadamente 40 quilômetros de largura, segundo a Agência Internacional de Energia.
Nas últimas semanas, o bloqueio e os incidentes militares na região agravam a volatilidade do mercado. Em alguns dias, o barril do petróleo tipo Brent oscila mais de 5% em poucas horas, na esteira de ataques e ameaças de fechamento da rota. Em 2019, Trump já havia dito que o Irã se comprometia a “nunca mais fechar o Estreito de Ormuz”. Agora, ele afirma que, ao fim do conflito, nenhum país terá controle exclusivo sobre a passagem.
“Vamos vigiá-lo, mas ninguém vai controlá-lo. Isso faz parte da negociação que temos”, diz, ao ser questionado sobre como pretende evitar novos bloqueios. A fala sugere um arranjo em que forças internacionais, provavelmente lideradas pelos Estados Unidos, mantêm presença naval constante na região, sob a justificativa de garantir a liberdade de navegação.
Para o Irã, a zona é a principal alavanca geopolítica desde a Revolução Islâmica de 1979. Em diferentes crises, Teerã ameaça restringir o tráfego de petroleiros para pressionar rivais regionais, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, e potências ocidentais. A insistência de Washington em vincular qualquer acordo a limites rígidos sobre a atuação iraniana em Ormuz atinge o centro dessa estratégia.
Nos bastidores da diplomacia, negociadores veem esse ponto como um dos nós mais difíceis de desatar. Aceitar uma presença militar estrangeira permanente no entorno do estreito teria alto custo interno para o regime iraniano, que se apresenta há mais de quatro décadas como guardião da soberania nacional contra interferências ocidentais.
Sanções, economia global e cálculo eleitoral
Trump deixa claro que não pretende mexer, por enquanto, na engrenagem de punições econômicas ao Irã. As sanções miram o setor de energia, bancos e empresas ligadas à Guarda Revolucionária, limitam exportações e afastam investidores estrangeiros. Desde 2018, quando Washington se retira de um acordo nuclear anterior, a economia iraniana encolhe, alternando anos de recessão com períodos de crescimento frágil.
O presidente apresenta a pressão econômica como arma central para forçar concessões do outro lado. Ao mesmo tempo, sabe que esse bloqueio não é indolor para a economia global. A combinação de conflito no Oriente Médio, riscos ao transporte de petróleo e janelas de alta da inflação nos Estados Unidos preocupa analistas. Um choque de oferta prolongado pode elevar preços de combustíveis, pressionar a inflação americana acima de 3% ao ano e afetar diretamente a popularidade do governo.
Dentro do próprio Partido Republicano, assessores eleitorais alertam para o risco de a guerra no Oriente Médio dominar o debate nas urnas. Em pesquisas internas, a aprovação de Trump cai quando o custo de vida sobe e imagens de confronto se repetem na televisão. Mesmo assim, o presidente tenta se distanciar dessa pressão doméstica.
“Eles pensaram que conseguiriam me vencer na espera, sabe? ‘Nós vamos vencê-lo, ele tem as eleições de meio de mandato’”, relata, atribuindo o raciocínio à liderança iraniana. Em seguida, responde a si mesmo: “Não me importo com as eleições de meio de mandato. Vejam o que aconteceu ontem à noite, aquilo foi um prelúdio para as eleições. As pessoas entendem”, comenta, citando a vitória de um aliado nas primárias republicanas para o Senado no Texas.
Ao vincular a própria sorte eleitoral ao sucesso de candidatos alinhados, Trump sinaliza que pretende usar o conflito e a postura dura em relação ao Irã como bandeira de campanha. O cálculo é conhecido em Washington: um presidente em guerra costuma tentar se apresentar como indispensável à segurança nacional, mesmo diante de indicadores econômicos desfavoráveis.
Negociações mais longas e um impasse aberto
As falas na Casa Branca indicam que o ciclo de conversas entre Washington e Teerã entra em fase mais lenta e arriscada. De um lado, os Estados Unidos condicionam qualquer acordo a garantias rígidas sobre o Estreito de Ormuz e à manutenção das sanções centrais. Do outro, o Irã exige concessões concretas, como algum alívio econômico e reconhecimento de sua influência regional.
Diplomatas envolvidos nas tratativas trabalham com a perspectiva de meses de negociação, não semanas. Nesse período, cada movimento militar na região e cada oscilação relevante no preço do barril serão lidos como sinal de força ou fraqueza à mesa de diálogo. Empresas de energia, armadores de navios e bancos expostos ao comércio com o Oriente Médio ajustam planos de investimento diante de um cenário em que o risco político permanece elevado.
Para os Estados Unidos, a escolha parece ser entre dois caminhos custosos: aceitar um acordo que não contemple todas as exigências iniciais ou sustentar uma campanha prolongada de sanções e presença militar, com impactos na economia interna. Para o Irã, a alternativa é ceder em pontos considerados estratégicos ou continuar a arcar com inflação alta, moeda fraca e dificuldades de acesso a tecnologias e capitais.
Ao final da conversa na Casa Branca, permanece a impressão de que nenhuma das partes está pronta para recuar. Trump insiste em que “ou ficaremos satisfeitos, ou teremos que terminar o trabalho”. A frase resume o impasse central: até onde Washington está disposto a ir para obter as garantias que cobra, e quanto tempo o Irã consegue resistir à pressão antes de testar, novamente, os limites de Ormuz e da paciência do resto do mundo.
