Cinco homens são achados vivos em caverna alagada no Laos
Cinco dos sete homens presos em uma caverna na província montanhosa de Xaisomboun, no Laos, são encontrados vivos nesta terça-feira (26), após sete dias no subsolo. As equipes de resgate seguem em busca dos dois desaparecidos, em uma operação de alta complexidade que mobiliza mais de 100 pessoas.
Busca sob pressão em túneis alagados
O grupo entra na caverna em 19 de maio de 2026, atraído pela promessa de ouro em uma região conhecida por suas reservas minerais. A forte chuva que cai na mesma noite provoca uma enchente repentina, bloqueia a única entrada e transforma o garimpo improvisado em armadilha subterrânea.
Desde então, mergulhadores especializados e equipes de resgate do Laos e da Tailândia avançam centímetro a centímetro por um sistema de túneis estreitos, escuros e parcialmente inundados. Para chegar aos homens, os socorristas percorrem cerca de 340 metros dentro da montanha, em passagens que, em alguns trechos, não passam de 58 centímetros de largura.
O mergulhador tailandês Kengkad Bongkawong, que atua na linha de frente da operação, anuncia o avanço em uma mensagem no Facebook às 16h30, horário local. “Cinco pessoas foram encontradas em segurança. As buscas continuam pelas duas restantes”, escreve ele. Um grupo de resgate laosiano, o Rescue Volunteer for People, confirma que os homens estão “vivos e em segurança”.
Os socorristas relatam um cenário hostil. A entrada natural da caverna desce em um ângulo de cerca de 45 graus, em uma trilha de rochas escorregadias. “É tão estreito que você precisa se inclinar para o lado, abaixar-se e rastejar de barriga para baixo para passar”, descreve Bongkawong. Em determinado ponto, um dos mergulhadores precisa retirar parte do equipamento para conseguir atravessar um estrangulamento da rocha.
No interior, a água barrenta ocupa quase toda a altura dos túneis e circula com força irregular, alimentada por cursos d’água subterrâneos. Vídeos publicados nas redes sociais por integrantes da equipe mostram cavernas quase totalmente alagadas, iluminadas apenas pelos feixes das lanternas presas aos capacetes.
O mergulhador finlandês Mikko Paasi, que também participou do resgate do time de futebol juvenil preso em uma caverna na Tailândia em 2018, integra a missão no Laos. Em um vídeo publicado em seu perfil, ele aparece se espremendo entre rochas irregulares. “Ainda estamos otimistas de que encontraremos os mineiros vivos, pois eles entraram na mina com recursos para permanecer no subsolo por vários dias”, escreve, antes da localização dos cinco sobreviventes.
Operação de alto risco em regime de corrida contra o tempo
A operação de resgate reúne ao menos 15 mergulhadores experientes, além de especialistas em salvamentos subterrâneos que estiveram na Tailândia em 2018. Eles enfrentam não apenas o espaço reduzido, mas também o risco de desabamentos, a contaminação do ar e a possibilidade de novas enxurradas, típicas da estação de monções no Sudeste Asiático.
O Centro de Comando e Controle Metta Tham Kalasin (MTK), um dos grupos que coordenam a ação, relata que a caverna tem ar respirável, mas registra “ar viciado em abundância” em vários pontos. Para reduzir o risco de intoxicação, equipes instalam dutos de ar e utilizam monitores de gás, máscaras de respiração e capacetes com sensores que acompanham os níveis de oxigênio e de gases tóxicos.
As condições também cobram preço dos socorristas. Antes mesmo de entrar na caverna, eles caminham cerca de quatro quilômetros pela selva fechada até a base da montanha. Do lado de fora, uma equipe de alpinistas desce de rapel por quatro poços identificados no alto da encosta, em busca de rotas alternativas para alcançar os homens presos.
O geólogo australiano Arnold Dix, especialista em resgates em desastres, acompanha o caso à distância e lembra que, após sete dias no subsolo, o risco de doenças aumenta entre os presos. “Meus sentimentos estão com os socorristas que estão lá no Laos neste momento. Espero que tenham sucesso, mas também espero que não morram no processo”, afirma à emissora pública australiana ABC. Dix liderou, em 2023, a operação que salvou 41 mineiros presos em um túnel que desabou na Índia.
O grupo de resgate MTK classifica o quadro climático como “afortunado” na véspera da descoberta dos cinco sobreviventes. Chove menos há dois dias, o que facilita o bombeamento da água para fora dos túneis. A previsão da CNN Weather, porém, indica tempestades intermitentes nas tardes e noites dos próximos dias, o que pode mudar a equação em poucas horas.
A região de Long Tieng, onde fica a caverna, é marcada por vales profundos e solo calcário perfurado por rios subterrâneos. Reportagem do veículo estatal Lao Phattana News aponta que a combinação entre cursos d’água internos e “estruturas meteorológicas complexas” torna a área especialmente perigosa na temporada de chuvas. O país, governado por um regime comunista de partido único, monitora de perto a divulgação de informações e ainda não detalha oficialmente o estado de saúde das vítimas.
Sobrevivência, lições e próximos passos do resgate
Os sete homens são moradores da região e conhecem a geografia local. Eles entram na caverna planejando permanecer alguns dias no subsolo e levam suprimentos básicos, o que, segundo especialistas, aumenta as chances de sobrevivência ao longo da primeira semana. Um deles consegue escapar antes que a enchente bloqueie totalmente a entrada e alerta as autoridades. De acordo com Bongkawong, ele caminha contra a corrente até encontrar um ponto de saída, manobra conhecida em um dialeto local como “boo out”.
Com a confirmação de que cinco foram encontrados vivos, o desafio passa a ser como retirá-los com segurança de um labirinto de rochas e água que mal comporta uma pessoa por vez. Bongkawong afirma à CNN que, assim que todos forem localizados, eles passarão por uma avaliação física e receberão alimentos líquidos e em gel. Só então um plano detalhado de extração será executado, possivelmente em etapas, a depender da condição de cada um e da estabilidade da caverna.
A operação no Laos retoma memórias do resgate dos 12 meninos e de seu treinador de futebol da caverna de Tham Luang Nang Non, no norte da Tailândia, em 2018. Naquele caso, as vítimas permanecem 18 dias presas, e a saída exige uma coreografia milimétrica com mergulhadores estrangeiros, anestesia controlada e suporte internacional inédito. A diferença agora está na extensão menor do túnel, mas em passagens ainda mais estreitas e em uma montanha com menos acessos conhecidos.
Especialistas em resgate avaliam que o desfecho em Xaisomboun deve influenciar protocolos globais para operações em áreas confinadas e de difícil acesso. Tecnologias de monitoramento de gás, rotas alternativas a partir do topo das montanhas e métodos de manejo de enchentes em cavernas tendem a ganhar espaço em países dependentes da mineração informal ou que exploram o turismo em cavernas.
Do ponto de vista local, o episódio expõe a vulnerabilidade de comunidades que recorrem à busca manual por ouro em áreas de risco, muitas vezes sem supervisão estatal ou infraestrutura mínima. Em uma província que tenta equilibrar exploração mineral e preservação ambiental, a pressão por regras mais rígidas e planos de emergência detalhados deve crescer quando os detalhes da operação vierem a público.
As equipes mantêm um olho nas previsões de chuva e outro nas paredes encharcadas da caverna, enquanto calculam cada movimento para evitar um acidente dentro do próprio resgate. A questão que permanece, diante do avanço da água e do tempo, é se a montanha permitirá que os dois desaparecidos sejam encontrados a tempo e se todos poderão voltar à superfície pelo mesmo caminho estreito que agora mantém o mundo em suspense.
