Israel intensifica ofensiva e lança mais de 120 bombardeios no sul do Líbano
Israel lança mais de 120 bombardeios aéreos no sul do Líbano em 26 de maio de 2026, sob ordem do premiê Benjamin Netanyahu, e amplia sua ofensiva terrestre. Os ataques atingem áreas civis e militares e aprofundam o colapso do cessar-fogo firmado em abril.
Escalada em meio a trégua frágil
A nova onda de ataques se concentra em cidades e vilarejos do sul do Líbano, como Burj al-Shamali, e alcança também regiões no leste do país. Segundo o Ministério da Saúde libanês, 31 pessoas morrem e 40 ficam feridas nas últimas horas, em balanço divulgado na manhã desta quarta-feira pela agência estatal NNA.
Entre os mortos em Burj al-Shamali estão duas crianças e três mulheres, de acordo com o serviço oficial de notícias. Explosões também são registradas perto do Castelo de Beaufort, fortaleza de quase 900 anos descrita pela Unesco como um dos castelos medievais mais bem preservados da região. Pelo menos três ataques atingem as imediações da represa de Qaraoun, o maior reservatório de água do país, no leste libanês.
Os bombardeios ocorrem em um momento de forte desgaste do cessar-fogo anunciado em 16 de abril, que tenta conter os combates entre Israel e o Hezbollah. No mesmo dia, o Irã acusa os Estados Unidos de violarem uma trégua separada ao atacar o sul do território iraniano, ampliando o risco de um confronto direto entre potências regionais e globais.
Fontes de segurança libanesas ouvidas pela agência Reuters relatam ataques israelenses em diferentes pontos do sul e do leste do Líbano ao longo da terça-feira. A ofensiva aumenta a pressão sobre comunidades já esvaziadas por meses de violência e mantém milhares de famílias longe de suas casas.
Avanço além da zona de segurança e resposta do Hezbollah
Em comunicado divulgado na terça-feira, Netanyahu afirma que as forças armadas israelenses “estão operando com grande contingente em campo, capturando e controlando áreas”. O premiê diz ainda que o país “reforça a faixa de segurança para proteger as comunidades do norte”, em referência a uma zona de segurança autodeclarada, ocupada por tropas israelenses alguns quilômetros dentro do território libanês.
Duas fontes ligadas à operação confirmam que o Exército de Israel amplia suas incursões para além dessa zona, conhecida como Linha Amarela, sem detalhar a profundidade do avanço. A Linha Amarela é distinta da Linha Azul, demarcada pela ONU em 2000, que marca a fronteira internacional após a retirada israelense do Líbano. A nova faixa tampão proposta se estende entre 5 km e 10 km ao norte da fronteira.
Com o avanço, as forças israelenses ordenam que moradores não retornem a dezenas de vilarejos dentro da zona e passam a demolir casas e estruturas consideradas de risco militar. Um oficial israelense afirma que as tropas “operam de forma direcionada além da Linha de Defesa Avançada, a fim de eliminar ameaças diretas aos cidadãos do Estado de Israel e aos soldados israelenses, em conformidade com as diretrizes da cúpula política”.
Do outro lado, o Hezbollah anuncia que ataca forças e tanques israelenses que avançam em direção à cidade de Zawtar al-Sharqiya, no sul do Líbano. O grupo afirma usar drones explosivos, foguetes e artilharia contra as posições inimigas. Israel confirma a morte de 10 soldados desde o início do cessar-fogo de 16 de abril, seis deles atingidos por drones explosivos atribuídos ao Hezbollah.
O Ministério da Saúde do Líbano calcula que, desde 2 de março, quando o Hezbollah lança projéteis contra Israel em resposta ao início da guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, a ofensiva israelense já deixa 3.213 mortos e 9.737 feridos em território libanês. A Organização Mundial da Saúde registra pelo menos 608 mortos em ataques israelenses apenas após a entrada em vigor da trégua de abril, número que expõe a distância entre os termos do cessar-fogo e a realidade no terreno.
Crianças sob bombardeio e risco de expansão regional
A multiplicação de alvos civis transforma a crise em emergência humanitária. Com vilarejos interditados pelo Exército israelense e casas demolidas em áreas rurais, famílias se espalham por escolas, abrigos improvisados e casas de parentes em outras regiões do Líbano. Hospitais do sul enfrentam superlotação e falta de insumos, enquanto ambulâncias circulam por estradas danificadas ou bloqueadas.
A proximidade dos ataques com a represa de Qaraoun desperta preocupação adicional. A estrutura é o principal reservatório de água do país e abastece cidades, áreas agrícolas e usinas de energia. Danos significativos à barragem teriam impacto direto no fornecimento de água potável, na produção de alimentos e na já frágil economia libanesa, marcada por anos de crise financeira.
No plano militar, a expansão das operações para além da Linha Amarela indica que Israel aceita correr riscos maiores para tentar afastar o Hezbollah de sua fronteira norte. Ao reforçar a presença terrestre em um arco de 5 km a 10 km dentro do Líbano, o governo Netanyahu envia o recado de que a atual configuração de segurança é considerada insuficiente, apesar da oposição de autoridades libanesas e da preocupação de mediadores internacionais.
Netanyahu declara na segunda-feira que Israel vai “intensificar” os ataques contra o Hezbollah. Um oficial americano, citado por agências internacionais, afirma que o grupo apoiado pelo Irã ignora alertas de Washington para interromper ações que possam prejudicar as negociações para encerrar a guerra entre Estados Unidos e Israel, de um lado, e o Irã, de outro. A leitura em capitais ocidentais é que qualquer passo em falso pode arrastar a região para um conflito mais amplo, com impacto sobre a segurança energética global e as rotas de comércio.
Futuro da trégua e risco de nova guerra aberta
A continuidade dos ataques israelenses e a resposta do Hezbollah colocam o cessar-fogo de 16 de abril em estado crítico. Na prática, o acordo já não interrompe os confrontos no sul do Líbano e passa a funcionar mais como referência diplomática do que como mecanismo efetivo de contenção da violência. A ausência de dados públicos sobre as baixas do Hezbollah acrescenta uma camada de opacidade ao conflito e dificulta a avaliação do custo real da ofensiva para o grupo.
Diplomatas em Beirute, Jerusalém e Washington avaliam cenários que vão de uma reativação negociada da trégua a uma escalada que levaria a bombardeios de maior alcance, envolvendo mais cidades libanesas e israelenses. A pressão de organizações humanitárias cresce à medida que o número de civis mortos aumenta e a infraestrutura essencial se deteriora.
Sem sinal claro de recuo das partes, a questão que passa a dominar as conversas em gabinetes e salas de crise é quanto tempo a fronteira entre Líbano e Israel continuará a suportar o peso de uma guerra que, a cada novo bombardeio, deixa de ser local para se tornar cada vez mais regional.
