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Trump é retirado de jantar na Casa Branca após ataque a tiros

O presidente americano Donald Trump é retirado às pressas de um jantar com correspondentes da Casa Branca na noite deste sábado (25), em Washington, depois que um homem armado abre fogo contra a segurança do evento. O atirador é detido do lado de fora do salão de baile, um agente fica ferido, mas sobrevive graças ao colete à prova de balas. Trump, a primeira-dama Melania e altas autoridades do governo deixam o local ilesos.

Disparos interrompem jantar e expõem falhas de segurança

O relógio marca por volta de 20h35 em Washington, 21h25 em Brasília, quando o barulho de tiros rompe o clima de gala no Washington Hilton. Dentro do salão principal, Trump já ocupa a mesa de honra do tradicional jantar anual da Associação de Correspondentes da Casa Branca, evento que reúne governo, imprensa e celebridades desde 1921. Em segundos, o ambiente de piadas e flashs se transforma em correria, gritos e ordens do Serviço Secreto para que todos se abaixem.

Do lado de fora das portas do salão, agentes enfrentam o suspeito, identificado como Cole Tomas Allen, de 31 anos, morador de Torrance, na Califórnia. Segundo autoridades ouvidas por emissoras como CBS e CNN, Allen tenta avançar em direção ao cordão de segurança armado com diversas armas e abre fogo. Entre cinco e oito disparos ecoam na área do hotel, de acordo com relatos iniciais da investigação. Um agente é atingido, mas o tiro é contido pelo colete balístico. Ele é levado a um hospital de Washington e recebe alta no domingo.

O Serviço Secreto reage em segundos. Vários agentes cercam o presidente, que ainda está à mesa, e o retiram pela lateral do salão, enquanto Melania Trump é escoltada por outra equipe. Autoridades sentadas nas mesas próximas, como o diretor do FBI, o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. e o secretário de Defesa Pete Hegseth, também deixam o local sob proteção cerrada. Parte do público permanece em lockdown dentro do salão, aguardando instruções, enquanto repórteres tentam noticiar o que sabem pelo celular.

“Lobo solitário maluco” e clima de violência política

Pouco depois da detenção do suspeito, Trump surge em uma sala de imprensa improvisada e tenta retomar a iniciativa política. Ele confirma a prisão de Cole Tomas Allen, indica que o homem carrega mais de uma arma e descreve o episódio como um ataque contra autoridades ligadas à Presidência. “Minha impressão é que ele era um lobo solitário maluco”, afirma. “Essas pessoas são loucas. São pessoas loucas, e precisam ser contidas”.

De acordo com a CBS News, Allen diz às autoridades que tem como alvo figuras associadas a Trump. O Departamento de Justiça prepara a acusação formal, prevista para segunda-feira. Ele deve responder por uso de arma de fogo durante crime violento e agressão a agentes federais, acusações que podem render décadas de prisão. Até o momento, não há indicação pública de que o ataque tenha ligação com grupos organizados, o que reforça, por ora, a tese de ação individual.

Na coletiva, Trump aproveita para falar de um cenário mais amplo de violência política. “Você pode ter o melhor esquema de segurança do mundo, mas se houver um maluco, ele pode causar problemas”, diz. O presidente afirma que participar da política nos Estados Unidos “tem um custo” e que “nenhum país está imune” a ataques contra autoridades. “Não consigo imaginar que exista alguma profissão mais perigosa”, declara, sugerindo que o risco se torna parte do cotidiano do cargo.

O episódio ocorre em um contexto de sucessivas ameaças contra o republicano. Em julho de 2024, quando ainda é candidato à Casa Branca, Trump leva um tiro na orelha durante um comício ao ar livre em Butler, na Pensilvânia. O atirador de 20 anos é morto no local por agentes do Serviço Secreto. Dois meses depois, um homem armado é preso escondido em um clube de golfe de Trump em West Palm Beach, na Flórida, enquanto o então ex-presidente está no local. A Justiça classifica o caso como tentativa de assassinato, e o suspeito é condenado à prisão perpétua neste ano.

Hotel de ataque a Reagan volta ao centro do debate

O ataque deste sábado atinge também um símbolo. O Washington Hilton é o mesmo hotel onde o então presidente Ronald Reagan é baleado em 30 de março de 1981. Naquele dia, John Hinckley Jr. dispara contra Reagan na saída do hotel, enquanto o presidente caminha para a limusine. Uma bala ricocheteia na lataria do carro e atinge o tórax do republicano, quebrando uma costela e perfurando um pulmão. Reagan sobrevive após cirurgia de emergência, e uma placa hoje marca o local do atentado em uma das laterais do edifício.

Quase 45 anos depois, o endereço volta a simbolizar a vulnerabilidade de presidentes americanos em espaços teoricamente controlados. O ex-embaixador britânico em Washington Kim Darroch afirma à BBC que há “claros problemas de segurança” no evento. Ele descreve um processo de entrada relativamente simples: mostrar o convite a alguns metros de distância, circular em um hotel cheio de hóspedes comuns e só então passar por detectores de metal e revista de bolsas para entrar no salão. Para alguém com “más intenções”, diz, existe “apenas uma barreira de segurança que você precisa superar”.

O correspondente-chefe da BBC na América do Norte, Gary O’Donoghue, que participa do jantar, relata uma revista superficial. Segundo ele, o detector de metais chega a apitar, mas ninguém pede para que esvazie os bolsos. “O Serviço Secreto fez o seu trabalho, impediu esse homem de entrar no salão de baile”, afirma. “Mas esse cordão de segurança estava logo do lado de fora das portas do salão, e, claro, o hotel estava cheio de hóspedes comuns.” Os relatos reforçam a percepção de que o risco se concentra justamente nas zonas de transição entre público e área protegida.

Evento adiado, investigação em curso e pressão por mudanças

O jantar é suspenso ainda na noite de sábado, antes do discurso de Trump. Seria a primeira participação dele no evento durante suas duas passagens pela Presidência, um gesto simbólico em meio a anos de relação tensa com a imprensa. No salão, jornalistas e convidados esperam por cerca de uma hora até a liberação gradual das saídas. Muitos trabalham ali mesmo, com laptops sobre as toalhas brancas e celulares conectados a redações em diferentes fusos.

As autoridades americanas iniciam a reconstrução da cronologia do ataque, analisam imagens de câmeras de segurança divulgadas pelo próprio presidente e ouvem testemunhas. A expectativa é de que, além da acusação contra Cole Tomas Allen, venha também uma revisão dos protocolos para eventos de grande porte em hotéis e centros de convenções. A combinação de hóspedes comuns, múltiplos acessos e presença de chefes de Estado volta ao centro do debate sobre segurança presidencial nos EUA.

O governo Trump tenta mostrar controle da narrativa e resiliência política. Mas cada novo episódio de violência amplia a sensação de que a linha entre rotina institucional e tragédia é cada vez mais tênue. A investigação precisa responder não só como Allen chega tão perto da barreira de segurança, mas também se o modelo atual de proteção em ambientes abertos ao público ainda dá conta da escalada de riscos em torno da política americana.

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