Sanções dos EUA aceleram saída de redes estrangeiras de Cuba
Grandes redes estrangeiras começam a encolher ou abandonar operações em Cuba em 4 de junho de 2026, sob pressão das sanções econômicas dos Estados Unidos. Meliá, Iberostar e Blue Diamond anunciam mudanças em contratos, gestão e novos projetos, num movimento que atinge o coração do turismo cubano.
Pressão americana esvazia aposta estrangeira na ilha
Os anúncios chegam em sequência ao endurecimento das sanções de Washington, que desde 2019 amplia restrições a negócios com empresas controladas pelos militares cubanos. O turismo, responsável por cerca de 10% do PIB da ilha antes da pandemia e por mais de 400 mil empregos diretos, volta ao centro da disputa geopolítica.
Fontes do setor em Havana relatam, sob condição de anonimato, revisões discretas de contratos desde o fim de 2025. A partir de janeiro deste ano, a reavaliação se acelera. Em reuniões reservadas com autoridades cubanas e assessores jurídicos internacionais, executivos de redes espanholas e canadenses expõem a conta das punições americanas: dificuldade de acesso a crédito, custos bancários até 40% mais altos e risco crescente de processos em cortes dos EUA.
Um consultor europeu que assessora grupos hoteleiros na região resume o clima: “Nenhuma empresa global quer explicar a um banco em Nova York por que mantém capital preso em Cuba em 2026”. Segundo ele, ao menos uma dezena de projetos em estudo desde 2022 é retirada da mesa nos últimos meses, incluindo novos resorts em Cayo Coco e Varadero.
Redes recuam, governo tenta conter dano e turista sente o baque
Meliá, que chegou a administrar mais de 30 hotéis em Cuba, revê contratos e concentra operações em unidades consideradas mais rentáveis, como os complexos em Varadero e nos cayos do norte. Iberostar congela expansões previstas para Havana e reduz gradualmente sua presença em cidades do interior. Blue Diamond, uma das parceiras mais agressivas da última década, sinaliza transferência de parte de sua gestão a operadores locais e adia indefinidamente um plano de investimentos estimado em US$ 250 milhões anunciado em 2020.
Economistas em Havana calculam que a retração pode cortar entre 15% e 25% da capacidade hoteleira administrada por marcas internacionais até 2027, dependendo do ritmo de saída e da capacidade do Estado de assumir a gestão. A perda não é apenas de bandeiras globais na fachada: redes estrangeiras costumam trazer padrões de serviço, canais de venda internacionais e acesso a operadores turísticos europeus e canadenses que garantem fluxo de visitantes o ano todo.
Um professor de economia da Universidade de Havana, que pede para não ser identificado, vê um efeito em cascata. “Cada quarto que deixa de ser ofertado por uma grande rede significa menos voos, menos táxis, menos restaurantes funcionando. O impacto se multiplica no bairro inteiro”, afirma. Ele estima que, mantida a tendência, a ilha pode perder entre 300 mil e 500 mil visitantes por ano em relação à meta oficial de 3,5 milhões de turistas para 2026.
Para trabalhadores, a mudança chega sem aviso. Camareiras, garçons e recepcionistas relatam redução de turnos, suspensão de bônus em moeda forte e atrasos em contratos temporários. Em Varadero, um barman de 32 anos resume o medo: “Quando a Meliá veio, todo mundo correu para aprender inglês e melhorar de vida. Agora, ninguém sabe se vai ter trabalho na próxima alta temporada”.
Cuba mais isolada e um futuro em disputa
O aperto das sanções americanas amplia um quadro já frágil. A economia cubana encolhe cerca de 10% entre 2020 e 2023, segundo estimativas independentes, pressionada pela pandemia, pela queda nas remessas e pela crise energética. O governo tenta reagir com medidas graduais de abertura ao capital estrangeiro e estímulos a pequenos negócios privados, mas encontra barreiras financeiras quase intransponíveis.
Sem grandes redes, Havana busca novos parceiros em mercados menos expostos à pressão de Washington, como Rússia, China e alguns países do Oriente Médio. Em 2025, autoridades cubanas anunciam conversas com investidores turísticos russos e chineses para modernizar hotéis estatais e desenvolver marinas e cruzeiros. Nada, porém, se compara em escala ao ciclo de investimentos espanhóis dos anos 1990 e 2000, que transformou regiões como Jardines del Rey em vitrine do Caribe.
Especialistas alertam que a saída de empresas tradicionais limita a capacidade de Cuba de gerar divisas e financiar importações essenciais de alimentos, combustíveis e medicamentos. Em relatório recente, um centro de estudos caribenho calcula que cada dólar investido em turismo estrangeiro gera, em média, US$ 1,50 em atividade econômica adicional na ilha. A retração atual, diz o documento, ameaça essa engrenagem num momento em que a inflação acumulada supera 200% em três anos.
Para a diplomacia regional, o movimento reabre o debate sobre o alcance das sanções extraterritoriais dos EUA. Governos europeus criticam há décadas o impacto dessas medidas sobre empresas do bloco atuando em Cuba, mas evitam confrontos frontais com Washington. A tendência, agora, é de uma ilha ainda mais dependente de poucos aliados estratégicos e de um turismo menos diversificado, concentrado em mercados politicamente alinhados.
Turismo em xeque e dúvidas sobre a próxima temporada
Autoridades cubanas prometem, publicamente, manter a oferta turística e minimizar o efeito da saída de parceiros estrangeiros. Planos internos falam em assumir diretamente a gestão de parte dos hotéis e em ampliar os contratos com operadores menores da América Latina. Técnicos do setor, porém, alertam para a falta de capital para reformas, modernização tecnológica e campanhas internacionais de marketing.
Nos corredores dos resorts que ainda funcionam com ocupação reduzida, a aposta é na resiliência de um destino que já sobrevive a três décadas de oscilações políticas e econômicas. Analistas veem espaço para um novo ciclo de investimentos, caso as sanções afrouxem ou surjam mecanismos financeiros alternativos que protejam empresas estrangeiras. Até lá, a pergunta que orienta decisões em Havana, Madri e Toronto é a mesma: quanto tempo o turismo cubano aguenta sangrar antes que a próxima alta temporada se transforme em um teste decisivo para o futuro da ilha?
