Netanyahu minimiza ataque verbal de Trump em meio a pressão por acordo com Irã
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, minimiza nesta quarta-feira (3) um desentendimento com Donald Trump, após o ex-presidente americano admitir tê-lo chamado de “louco” em ligação telefônica. O atrito ocorre enquanto Washington tenta manter negociações delicadas sobre o Líbano e um acordo de paz com o Irã.
Racha verbal expõe atrito em plena negociação
Netanyahu tenta enquadrar o episódio como um ruído previsível entre aliados antigos. Em entrevista à CNBC, ele afirma que as diferenças com Trump são “táticas” e que a relação pessoal segue sólida. “Às vezes temos, como nas melhores famílias, essas divergências táticas”, diz. “Mas sempre encontramos uma maneira de resolvê-los e fazemos isso como grandes amigos.”
A fala vem poucas horas depois de Trump, em entrevista ao podcast “Pod Force One with Miranda Devine”, do New York Post, confirmar que chamou o premiê de “completamente louco” durante uma ligação na segunda-feira (1º). “Sim, chamei”, admite. “Não diria que fiquei com raiva. Fiquei um pouco incomodado com as constantes brigas dele com o Líbano, sabe?”
Trump relata ter ficado “perturbado” com os planos de Israel para operações militares no Líbano, em meio à ofensiva do Hezbollah e sob pressão para evitar uma guerra em larga escala. Segundo o site Axios, que cita um funcionário americano não identificado, Trump eleva o tom e ameaça o aliado. “Você está completamente louco. Você estaria na prisão se não fosse por mim. Estou salvando a sua pele. Todo mundo te odeia agora. Todo mundo odeia Israel por causa disso”, teria dito.
Netanyahu evita responder na mesma moeda. Questionado sobre o xingamento, recusa entrar em detalhes da conversa privada e reforça apenas a constância do canal com Trump. “Podemos discordar pela manhã e encontrar um terreno comum à tarde”, afirma. Segundo ele, os dois seguem em contato frequente e conversam “a cada dois dias” sobre o andamento das negociações e a situação de segurança regional.
Pressão militar no Líbano e paz com o Irã no centro da disputa
O embate verbal não ocorre no vácuo. Israel enfrenta ataques diários do Hezbollah ao longo da fronteira norte, enquanto ameaça operações mais profundas no território libanês. Ao mesmo tempo, Washington tenta amarrar um acordo que envolva o fim das hostilidades no Líbano e avanços concretos em negociações de paz com o Irã, rival histórico de Israel e principal patrocinador do grupo xiita.
Diplomatas que acompanham o dossiê apontam que a frustração de Trump nasce da percepção de que ações militares mais agressivas de Israel podem sabotar uma costura política em andamento há meses. A avaliação em Washington é que uma escalada no Líbano reforça a ala dura em Teerã, reduzindo o espaço para concessões em um eventual acordo de longo prazo sobre segurança regional.
Nesse cenário, qualquer frase dita entre líderes pesa mais do que um desabafo de bastidor. As palavras de Trump correm o mundo em poucas horas, reforçam críticas internacionais a Netanyahu e alimentam narrativas de isolamento de Israel. O premiê reage com contenção calculada. Em público, insiste que, apesar de diferenças pontuais, Israel e Estados Unidos seguem alinhados no objetivo de “restaurar a soberania do Líbano” e “garantir a segurança de Israel”.
O Departamento de Estado americano confirma que representantes dos dois países retomam em Washington, nesta terça (2) e quarta-feira (3), uma nova rodada de conversas mediadas pelos EUA. O porta-voz Tommy Pigott afirma nas redes sociais que “o progresso continua nas vias políticas e de segurança”, ao defender que a negociação precisa superar “os fracassos dos últimos 20 anos” para alcançar um acordo abrangente. Não cita o desentendimento direto entre Trump e Netanyahu, mas tenta transmitir a imagem de processo sob controle.
Impacto imediato e riscos para a aliança
A troca de acusações, ainda que suavizada depois, expõe os limites da tolerância americana em relação à estratégia militar de Netanyahu. A parceria entre Israel e Estados Unidos é um dos pilares da arquitetura de segurança do Oriente Médio desde a década de 1970, apoiada em bilhões de dólares anuais em ajuda militar e em coordenação diplomática constante em fóruns internacionais.
Quando um ex-presidente dos EUA admite ter dito a um premiê israelense que “todo mundo odeia Israel por causa disso”, o recado ressoa em Tel Aviv, Beirute e Teerã. Sinaliza que parte da elite política americana teme pagar um preço político e de imagem por uma guerra prolongada no Líbano. Organizações de direitos humanos calculam que confrontos recentes entre Israel e Hezbollah já deslocam dezenas de milhares de civis no sul do Líbano, reacendendo memórias da invasão israelense de 2006.
Dentro de Israel, a revelação da bronca de Trump alimenta o debate sobre até onde Netanyahu pode ir sem romper a confiança de seu principal aliado. Na diplomacia, interlocutores de Washington e Jerusalém trabalham para isolar o episódio e evitar que uma disputa de ego contamine uma negociação maior, que envolve não só a fronteira norte, mas também garantias de segurança de longo prazo contra o Irã.
No campo militar, comandantes israelenses e americanos revisam cenários de escalada. Uma ofensiva mais ampla de Israel no Líbano tende a provocar resposta do Hezbollah em maior escala, atingindo centros urbanos israelenses e, possivelmente, arrastando outros atores regionais. A perspectiva de um conflito assim pesa em cada telefonema entre Trump e Netanyahu, por trás das frases duras que vieram a público.
Negociações em Washington e incerteza adiante
As delegações de Israel e dos Estados Unidos concentram-se, nesta semana, em Washington, D.C., em reuniões em sequência para tentar conter o risco de uma nova guerra no Líbano. A rodada iniciada na terça-feira (2) e retomada nesta quarta (3) busca amarrar, em poucos dias, um esboço de entendimento que reduza ataques na fronteira, preserve a soberania libanesa e dê a Israel garantias mínimas contra o Hezbollah.
As conversas ocorrem sob o som de foguetes e drones na fronteira norte de Israel e em meio à ameaça de nova escalada anunciada por membros do governo Netanyahu. O premiê aposta em mostrar firmeza diante do Hezbollah, mas tenta não romper a linha vermelha traçada por Washington. Ao apresentar as divergências com Trump como “brigas de família”, ele sinaliza para o público interno e para aliados que a aliança estratégica segue de pé.
O avanço das negociações com o Irã, se consolidado nas próximas semanas, pode redefinir o equilíbrio de forças no Oriente Médio pelos próximos dez ou vinte anos. Um acordo que envolva limites ao programa militar iraniano, garantias de fronteira para Israel e um plano internacional para o Líbano mexe com governos, milícias e mercados de energia.
Ainda não está claro se a relação pessoal entre Netanyahu e Trump ajuda ou atrapalha esse processo. O episódio do “louco” revela a tensão por trás das fotos oficiais e dos comunicados diplomáticos. A pergunta que fica em Washington, Tel Aviv e Beirute é se os dois líderes conseguirão manter as brigas no campo das palavras, sem empurrar a região para mais uma guerra.
