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Ucrânia lança maior ataque de drones à Rússia às vésperas de fórum de Putin

A Ucrânia lança, na madrugada desta quarta-feira (3), um ataque maciço com drones contra cidades russas, atinge a região de São Petersburgo e afirma ter danificado um navio de guerra da Frota do Báltico. As investidas ocorrem poucas horas antes da abertura do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, vitrine global do presidente Vladimir Putin.

Ataque cruza fronteiras e mira vitrine de Putin

As sirenes começam a soar em diferentes pontos do noroeste russo enquanto centenas de drones e armas guiadas ucranianas cruzam a fronteira e avançam em direção a alvos militares e de infraestrutura. Três distritos de São Petersburgo são atingidos, segundo o governador Aleksandr Beglov, em uma manhã em que o Kremlin pretende mostrar normalidade a mais de 20 mil participantes do fórum econômico.

O Ministério da Defesa russo informa ter interceptado e destruído mais de 350 drones ao longo da noite, sobre áreas próximas à fronteira e no interior do país, incluindo a região de Leningrado e a cidade de Novgorod, no oeste. As autoridades russas descrevem o movimento como mais um episódio dos que chamam de “atos terroristas” ucranianos, enquanto mantêm silêncio sobre danos concretos em instalações militares estratégicas.

As Forças Armadas da Ucrânia divulgam, em resposta, uma versão mais ambiciosa da operação. Segundo comunicado militar, uma corveta russa do tipo “Boikiy” é atingida perto do porto da ilha de Kronstadt, a poucos quilômetros de São Petersburgo, em pleno coração da Frota do Báltico. O navio, dizem os ucranianos, opera com “armas de mísseis guiados” e integra a escolta da frota petrolífera paralela usada por Moscou para driblar sanções internacionais.

A CNN busca confirmação do Ministério da Defesa russo sobre o impacto no navio, mas não recebe resposta imediata. A Rússia costuma adotar uma comunicação rígida sobre baixas navais, sobretudo desde as perdas sofridas no Mar Negro, e evita reconhecer de forma rápida danos em embarcações de alto valor estratégico.

Capacidade de ataque expande fronteira da guerra

O alvo não é apenas militar. O horário escolhido pela Ucrânia amplia o efeito simbólico da ofensiva. Horas depois do ataque, autoridades russas correm para restabelecer a normalidade em São Petersburgo, cidade que se vende ao mundo como “capital do norte” e centro financeiro em ascensão. O aeroporto internacional passa parte do dia com o espaço aéreo restrito, atrasando cerca de duas dezenas de voos, antes de retomar as operações na tarde desta quarta-feira, no horário local.

A poucos quilômetros dali, organizadores do Fórum Econômico Internacional tentam preservar a imagem de um país em controle. Mais de 20 mil pessoas de mais de 100 países confirmam presença no encontro, segundo a agência estatal Tass, que cita o assessor de Putin, Yury Ushakov. O Kremlin promete para sexta-feira (5) um “grande discurso” do presidente, focado em “problemas econômicos” e “questões políticas”, e tenta dissociar o evento do ruído de guerra que se aproxima da cidade.

A lista de convidados estrangeiros ilustra o esforço de Moscou para mostrar que não está isolada. Entre os nomes de maior visibilidade estão a podcaster americana Candace Owens e Rodney Mims Cook Jr., presidente da Comissão de Belas Artes dos Estados Unidos. Indicado para o cargo pelo então presidente Donald Trump, Cook é o primeiro funcionário de alto escalão americano a participar do fórum desde 2017, o que permite ao Kremlin argumentar que ainda mantém canais com parte da elite política ocidental.

O ataque ucraniano evidencia, porém, uma mudança de escala. As operações com drones deixam de se concentrar em regiões de fronteira ou depósitos de combustível e passam a mirar a área metropolitana de São Petersburgo e a região de Moscou, núcleo político, militar e econômico da Federação Russa. A mensagem, para especialistas em defesa, é que Kiev demonstra capacidade de alcançar alvos sensíveis a centenas de quilômetros de distância, apesar da superioridade aérea russa.

Para Moscou, esse movimento abre um novo flanco. A defesa aérea, já pressionada pela necessidade de proteger cidades próximas ao front, passa a dividir recursos com a proteção de rotas estratégicas no interior do país. O emprego de mais de 350 interceptações em uma única noite, número divulgado pelos próprios militares russos, sugere desgaste de munição e de equipamentos que antes se concentram em áreas diretamente ligadas ao conflito na Ucrânia.

Pressão militar, impacto político e próximos passos

O ataque desta quarta-feira se encaixa em uma estratégia mais ampla de Kiev, que busca levar a guerra de volta ao território russo e atingir a logística que sustenta a ofensiva no front ucraniano. Ao mirar um navio usado para escoltar a frota petrolífera destinada a burlar sanções, a Ucrânia tenta também atingir uma fonte de receita e de influência do Kremlin em mercados de energia. Analistas ouvidos por canais internacionais apontam que os ataques a essa “frota sombra” podem elevar custos de seguro e diminuir a disposição de armadores privados de operar com petróleo russo.

Do lado russo, a resposta tende a vir em forma de novas ondas de mísseis e drones contra cidades ucranianas, mantendo o ciclo de retaliações que marca o terceiro ano de guerra. O Ministério da Defesa russo já usa episódios anteriores para justificar ataques massivos contra infraestrutura energética e redes de transporte na Ucrânia, que deixam dezenas de mortos em centros urbanos nos meses recentes. A retórica do Kremlin se apoia na ideia de que se trata de uma resposta “proporcional” a ações descritas como “terroristas”.

O ambiente geopolítico em torno do fórum também sofre efeito direto. Delegações estrangeiras avaliam medidas adicionais de segurança, e parte dos participantes observa com mais cautela a mensagem econômica que o Kremlin pretende enviar. Para investidores, a imagem de uma Rússia capaz de garantir estabilidade interna é tão importante quanto as promessas de contratos e vantagens fiscais apresentadas nos painéis oficiais.

A Ucrânia, por sua vez, explora o episódio como prova de resiliência e de inovação tecnológica. O uso coordenado de enxames de drones e armas guiadas a longa distância se torna elemento central da comunicação de Kiev com aliados ocidentais, em um momento em que pacotes de ajuda militar passam por revisão em Parlamentos europeus e no Congresso dos Estados Unidos. Cada demonstração de capacidade ofensiva serve de argumento para manter em fluxo o fornecimento de sistemas antiaéreos, munições e inteligência.

O fórum de São Petersburgo prossegue, ao menos oficialmente, com agenda cheia até sábado, enquanto Putin prepara o discurso de sexta-feira sob o ruído de um conflito que insiste em bater às portas da cidade onde lançou sua carreira política. A grande questão, para diplomatas e analistas, é até que ponto ataques como o desta quarta-feira conseguem apenas constranger o Kremlin ou se, ao contrário, empurram a Rússia para uma escalada ainda mais agressiva, com custos imprevisíveis para a Ucrânia e para a segurança europeia.

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