Rejeição de Jorge Messias ao STF expõe racha evangélico e isola Planalto
O Senado rejeita, por 42 votos a 34, a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal na noite desta quarta-feira (29/4), em Brasília. A decisão, inédita em 132 anos, expõe o desgaste político do governo Lula e aprofunda fissuras entre lideranças evangélicas dentro e fora do Congresso.
Derrota histórica em clima de pré-campanha
O painel eletrônico do plenário confirma o placar pouco depois das 20h e encerra uma aposta central do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para consolidar maioria no Supremo. Eram necessários 41 votos favoráveis para que o advogado-geral da União avançasse à Corte; ele consegue apenas 34, enquanto 42 senadores o rejeitam.
A derrota acontece a cinco meses da eleição presidencial de outubro de 2026, num momento em que pesquisas registram aprovação em baixa do governo e resistência crescente no Congresso a novas concessões ao Planalto. No corredor do Senado, aliados admitem, em voz baixa, que o resultado cristaliza a perda de controle da articulação política.
No campo evangélico, o clima é distinto. O presidente da Frente Parlamentar Evangélica, Carlos Viana (Podemos-MG), grava vídeo ainda dentro do prédio e descreve “clima quase que de festa aqui no Senado Federal”. Em tom de celebração, ele classifica a rejeição como “vitória do Brasil” e ressalta o caráter inédito do gesto: “Pela primeira vez nesta história recente esta casa rejeitou um nome indicado pela Presidência da República”.
O movimento não se limita ao embate entre governo e oposição. Senadores que haviam sinalizado apoio reservado a Messias, inclusive de perfil conservador e religiosos, recuam na reta final diante da pressão de bases eleitorais, da mobilização nas redes e de disputas internas no Senado sobre a própria autonomia da Casa.
Lideranças evangélicas dividem o tom
A reação de lideranças evangélicas evidencia uma divisão menos sobre a figura de Messias e mais sobre a forma como o Planalto tenta ocupar cadeiras no Supremo. A vice-presidente da bancada evangélica, Damares Alves (Republicanos-DF), ex-ministra de Jair Bolsonaro, afirma em vídeo que o resultado “não diz respeito ao candidato, não é o ministro Messias, diz respeito aos Poderes”.
Para ela, o recado mira diretamente o Planalto. “Quem perdeu foi o governo Lula, que provou sua incapacidade de articulação política”, diz, antes de defender a revisão do modelo de indicação de ministros ao STF. “O Senado sai vitorioso, mandando o recado de que, a partir de agora, somos uma casa que precisa ser respeitada, temos independência e temos um grupo de senadores maduros, que querem ver as instituições nos seus devidos lugares”, afirma. E insiste: “Não foi nada contra a pessoa do ministro Messias, foi apenas um sistema que estamos rejeitando hoje”.
Na outra ponta, a principal voz de apoio público a Messias entre figuras de projeção nacional no meio evangélico vem do próprio Supremo. O ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro em 2021, escreve no X que respeita a decisão do Senado, mas lamenta: “O Brasil perde a oportunidade de ter um grande ministro do Supremo”.
Mendonça chama Messias de “homem de caráter, íntegro” e destaca que ele preenche os requisitos constitucionais para a vaga. “Amigo verdadeiro não está presente nas festas, está presente nos momentos difíceis. Messias, saia dessa batalha de cabeça erguida. Você combateu o bom combate! Deus o abençoe! Deus abençoe nosso Brasil!”, registra.
Fora do Congresso, pastores de megaigrejas que vinham sinalizando simpatia pelo nome também silenciam após o resultado. O apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Renascer em Cristo e organizador da Marcha para Jesus, e o apóstolo César Augusto, da Igreja Fonte da Vida, que diz manter mais de 700 templos no país, não se manifestam até o fim da noite.
Quem ocupa o vácuo é o pastor Silas Malafaia, um dos líderes evangélicos mais próximos da oposição bolsonarista. Em rede social, ele comemora: “Derrota vergonhosa para Lula! Como disse em várias entrevistas, Messias é um esquerdopata gospel, onde tenho profundas divergências, diametralmente oposto ao que penso. Acabou a indicação dele para o STF. Só o próximo governo!”.
Sabatina, bastidores e mensagem ao STF
A rejeição acontece poucas horas depois de Messias superar, com relativa folga, a etapa da Comissão de Constituição e Justiça. Na CCJ, ele é aprovado por 16 votos a 11 após mais de sete horas de sabatina. Durante as perguntas, tenta reduzir resistências à direita ao afirmar ser “totalmente contra o aborto”, embora defenda a legalidade dos casos já previstos na Constituição e na jurisprudência do STF, como risco à vida da mãe, estupro ou anencefalia.
Messias também destaca sua origem evangélica, se descreve como “servo de Deus” e, ao mesmo tempo, reafirma que o Estado é laico. Promete um Supremo que não seja omisso, mas também evite “ativismo”, em aceno a senadores que criticam decisões da Corte em temas de costumes. Ele defende ainda sua atuação como advogado-geral da União nos processos contra condenados pelos atos de 8 de Janeiro e nega vínculos pessoais diretos com Lula.
O discurso, porém, não é suficiente para reverter o humor do plenário. Senadores relatam, em conversas reservadas, incômodo com o que veem como excesso de influência do Executivo nas escolhas para o STF. Hoje, quatro ministros da Corte são indicados por Lula, em diferentes mandatos: Cristiano Zanin e Flávio Dino, no governo atual, além de Cármen Lúcia e Dias Toffoli em gestões anteriores. Outros quatro vêm de ex-presidentes recentes, como Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Luiz Fux e Edson Fachin, e dois de Jair Bolsonaro, Kássio Nunes Marques e o próprio Mendonça.
Ao barrar Messias, o Senado sinaliza que pretende redesenhar essa relação. O recado não se dirige apenas ao Planalto. O STF, que há anos acumula protagonismo em temas políticos e de costumes, passa a conviver com a perspectiva de maior vigilância do Legislativo sobre futuras nomeações e sobre os limites de suas decisões.
Relação em tensão e disputa por narrativas
O governo sai da sessão com uma derrota concreta e outra simbólica. No curto prazo, Lula precisa construir um novo nome capaz de transitar entre alas ideológicas e blocos religiosos em um Senado fragmentado. O calendário é apertado: a menos de 160 dias do primeiro turno, cada gesto passa por cálculo eleitoral fino, sobretudo entre parlamentares que dependem do voto evangélico.
No campo religioso, a Frente Parlamentar Evangélica explora o episódio como demonstração de força. Ao reivindicar a rejeição como “vitória do Brasil” e prova de independência, líderes do grupo tentam converter o placar em ativo eleitoral, reforçando a imagem de freio tanto ao governo quanto ao Supremo. A postura contrasta com a de evangélicos ligados ao Executivo, que preferem o silêncio público após a derrota.
Para Messias, a votação encerra, ao menos por ora, a perspectiva de chegar ao topo do Judiciário. O advogado deixa o Senado com elogios de aliados e da ala que o apoiava no meio religioso, mas carrega o peso de ter seu nome recusado pela primeira vez desde o início da República. O episódio tende a marcar sua trajetória política e jurídica, ainda que preserve espaço para novas funções no governo ou em cortes superiores.
Ainda não há consenso no Congresso sobre qual modelo deve substituir o atual sistema de indicações, hoje concentrado no presidente da República com aval do Senado. Propostas vão desde mandatos fixos para ministros até a formação de listas tríplices por tribunais e entidades de classe. O fracasso da indicação de Messias funciona como catalisador desse debate, mas não garante soluções rápidas.
O Planalto tenta, nas próximas semanas, medir o dano e reconstruir pontes com bancadas hoje essenciais, como a evangélica e a de centro-direita. No Supremo, ministros acompanham com atenção o desfecho e o tom das reações, em especial de senadores que falam em conter o “ativismo” da Corte. A próxima indicação ao STF, qualquer que seja o nome, terá de responder a uma pergunta que ecoa do plenário nesta noite: até onde vai a disposição do Senado de testar, na prática, os limites da independência entre os Poderes?
