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Rei Charles inicia visita aos EUA em meio à maior crise anglo-americana em décadas

O rei Charles III inicia nesta segunda-feira (27) uma visita de Estado aos Estados Unidos, marcada para celebrar os 250 anos da independência americana. A viagem, recebida pelo presidente Donald Trump em Washington, ocorre sob forte tensão diplomática e poucas horas após um ataque a tiros que mirava a cúpula do governo americano.

A realeza chega em clima de desconfiança

A visita, planejada há meses como o ponto alto do reinado de Charles, desembarca em Washington num momento em que a chamada “relação especial” entre os dois países atravessa o período mais delicado desde a Crise de Suez, em 1956. O rei de 77 anos, ainda em tratamento contra um câncer, cruza o Atlântico para celebrar o aniversário da independência de 1776, enquanto Londres e Washington se enfrentam nos bastidores sobre a guerra EUA-Israel contra o Irã.

O roteiro oficial tenta preservar solenidade e normalidade. O rei e a rainha começam a agenda com um chá privado na Casa Branca com Trump e a primeira-dama Melania. O presidente, que se define como admirador da família real e chama Charles de “grande homem” em público, insiste em manter o tom de cordialidade, apesar dos atritos recentes. O Palácio de Buckingham, após consultas de emergência com autoridades americanas, decide manter cada item da viagem mesmo depois do ataque a tiros durante o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, no sábado (25), em Washington.

O procurador-geral interino dos EUA aponta o presidente e membros de seu governo como prováveis alvos do atirador, detido após abrir fogo na região do hotel que recebia o evento. O episódio expõe falhas de segurança às vésperas da chegada de um chefe de Estado estrangeiro e leva assessores dos dois lados a discutirem, até a noite de domingo, a conveniência de seguir com o protocolo. “O rei e a rainha estão extremamente gratos a todos que trabalharam com agilidade para garantir que isso continue acontecendo e aguardam ansiosamente o início da visita amanhã”, afirma um porta-voz do palácio em nota.

Discurso raro no Congresso e feridas na diplomacia

O momento mais simbólico da agenda está reservado para terça-feira (28), quando Charles discursa perante o Congresso dos Estados Unidos, em sessão conjunta. Será apenas a segunda vez na história que um monarca britânico fala no Capitólio, quase oito décadas após a passagem da rainha Elizabeth II. O texto, preparado a várias mãos entre Londres e Washington, tenta equilibrar homenagem à democracia americana, menção discreta aos 250 anos da ruptura colonial e defesa de valores comuns, como Estado de Direito e proteção ao meio ambiente.

Nos bastidores, diplomatas tratam de um cenário mais áspero. Trump passa semanas criticando em público o governo trabalhista de Keir Starmer por não apoiar, de forma explícita, a ofensiva americano-israelense contra o Irã. O presidente insinua que a falta de alinhamento terá consequências. Um e-mail interno do Pentágono, revelado por vazamento, indica até a possibilidade de revisão da posição histórica dos EUA sobre a reivindicação britânica das Ilhas Malvinas como forma de pressão política. A simples hipótese de mudança, mesmo sem efeito imediato, cai como uma bomba em Londres e reforça a percepção de que a parceria estratégica entrou em zona de risco.

A visita também opera sob outra camada de constrangimento. O escândalo em torno de Jeffrey Epstein, morto em prisão americana em 2019, paira sobre a família real. O irmão do rei, Andrew Mountbatten-Windsor, perde títulos e espaço público após vir à tona sua proximidade com o criminoso sexual. Agora, ele é formalmente investigado pela polícia por possíveis ligações com os crimes. Assessores de Charles decidem, após consultas a autoridades judiciais dos dois países, deixar o tema fora da pauta. Fontes palacianas admitem que houve pedidos para que o casal real se encontrasse com vítimas de Epstein, mas alegam que qualquer gesto poderia interferir em processos criminais em andamento.

Memória, guerra e disputa por protagonismo

Depois de Washington, o rei segue para Nova York, onde presta homenagem às quase 3 mil vítimas dos ataques de 11 de setembro de 2001. A cerimônia ocorre poucos meses antes do aniversário de 25 anos dos atentados. A escolha de Ground Zero reforça o discurso de sacrifício compartilhado, especialmente após a participação britânica nas guerras do Afeganistão e do Iraque ao lado dos EUA. A rainha usa parte da agenda na cidade para celebrar o centenário do Ursinho Pooh, personagem criado em 1926, em um evento cultural voltado a crianças e famílias, projetado para suavizar a imagem da monarquia num país historicamente avesso a coroas.

A etapa final acontece na Virgínia, onde o monarca se encontra com pesquisadores, ambientalistas e moradores envolvidos em projetos de conservação. A região simboliza a antiga fronteira colonial e serve de cenário para o outro eixo da identidade pública de Charles: seus mais de 50 anos de ativismo ambiental. A equipe do rei vê a visita como oportunidade para reposicionar a monarquia como voz relevante no debate climático, num momento em que governos se dividem sobre metas de redução de emissões e investimentos em energia limpa.

O governo Starmer, em Londres, aposta que a missão ajuda a reconstruir pontes num horizonte de até cinco anos, prazo que integrantes da chancelaria consideram crítico para redefinir acordos militares, comerciais e de inteligência. O embaixador britânico em Washington, Christian Turner, insiste no discurso de continuidade. Ele diz que a viagem vai “ressaltar a história compartilhada, os sacrifícios e os valores comuns” entre as duas nações e resume a estratégia com uma frase repetida desde a Segunda Guerra: “Manter a calma e seguir em frente”.

O que fica em aberto após a passagem do rei

A visita se estende por vários dias, entre 27 de abril e o início de maio, e atravessa três estados centrais para a narrativa fundadora dos EUA: a capital federal, a metrópole financeira que ergueu o novo skyline após 2001 e a Virgínia, berço de figuras como George Washington e Thomas Jefferson. O trajeto concentra imagens pensadas para circular em escala global: o brinde no jantar de gala na Casa Branca, o aplauso no Congresso, o silêncio diante do memorial de 11 de Setembro. Em comum, todas trazem a mensagem de que, apesar da independência conquistada há 250 anos e das disputas atuais, os dois lados continuam dependentes um do outro em segurança, comércio e influência internacional.

O efeito concreto da viagem, porém, não se mede em discursos ou desfiles. O que sairá dela, segundo diplomatas dos dois países, são sinais sobre o futuro de cooperação militar no Oriente Médio, o peso real das ameaças americanas em relação às Malvinas e o espaço que a monarquia britânica ainda ocupa como instrumento de “soft power” em um mundo mais fragmentado. Ao deixar o solo americano, Charles deve retornar a um Reino Unido pressionado por cortes orçamentários e por um eleitorado dividido sobre o papel da coroa. Nos Estados Unidos, Trump volta a lidar com um cenário de segurança interna mais instável e um conflito externo que testa aliados. Resta saber se a imagem do rei no Capitólio, a poucos metros do local invadido em 6 de janeiro de 2021, será lembrada como o início de uma recomposição da velha aliança ou apenas como um intervalo protocolar em meio à crise.

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