Perito do IML descarta queda acidental na morte de Henry em júri
O perito do Instituto Médico Legal descarta, em audiência realizada nesta segunda-feira (1º), a hipótese de queda acidental na morte do menino Henry. A mãe, Monique, chora ao ver as fotos do filho morto exibidas no telão do júri. A sessão marca um novo ponto de tensão em um dos casos criminais mais acompanhados do país.
Laudo reforça tese de agressão e muda clima do julgamento
A sala do júri permanece em silêncio quando as imagens do corpo de Henry aparecem no telão. Monique abaixa a cabeça, leva as mãos ao rosto e desaba em choro, enquanto o perito descreve, em voz firme, cada marca registrada no laudo oficial. O contraste entre a frieza técnica do relatório e a reação da mãe expõe a dimensão humana de um julgamento que mobiliza o país desde a morte do menino, em 2021.
O especialista do IML afirma aos jurados que as lesões encontradas no corpo de Henry são incompatíveis com uma simples queda da cama ou de qualquer móvel doméstico. Segundo ele, a distribuição das marcas, a intensidade dos hematomas e o padrão das fraturas apontam para ação violenta repetida, não para um acidente isolado. Ao afastar de forma categórica a possibilidade de queda acidental, o depoimento atinge o centro da estratégia de defesa sustentada ao longo de mais de três anos.
O perito recorda que o laudo original já indicava múltiplas lesões, em regiões distintas do corpo, sem sinais de tentativa de proteção típica de uma queda. Explica em linguagem simples que, quando alguém escorrega ou cai, tende a apoiar mãos e braços, o que gera fraturas e arranhões específicos. No caso de Henry, reforça, as marcas estão em locais que sugerem impacto direto, com força desproporcional a um acidente doméstico. “Não há elemento técnico que sustente a versão de uma queda isolada”, diz, sob olhares atentos dos jurados.
A fala coincide com um momento sensível do processo. Desde a abertura dos trabalhos, nas primeiras horas da manhã, defesa e acusação tentam controlar a narrativa que será levada ao conselho de sentença. O Ministério Público insiste na tese de agressões em série, enquanto os advogados buscam manter aberta a dúvida sobre um possível acidente. O depoimento técnico desta segunda-feira, com quase duas horas de duração, oferece uma base mais sólida para a acusação rebater a versão de queda, ainda que os detalhes do laudo já fossem conhecidos desde a fase de investigação.
Reação de Monique expõe peso emocional e pressiona jurados
O momento em que as fotos de Henry morto surgem na tela altera o clima na sala. Monique, que até então acompanha o depoimento em silêncio, não consegue manter a postura contida. Ela enxuga as lágrimas várias vezes, respira fundo, tenta evitar olhar para o telão. Quando o perito aponta uma das lesões mais graves, a mãe se curva sobre a bancada, amparada pelos advogados. Alguns presentes desviam o olhar; outros, inclusive membros do júri, mostram desconforto visível.
A reação não é apenas um retrato do sofrimento individual. Em um julgamento com forte repercussão pública, a exibição de imagens tão duras funciona como um divisor de águas emocional. As cenas, captadas em alta resolução no dia do exame de necropsia, trazem um menino de poucos anos com múltiplas marcas espalhadas pelo corpo. A cada fotografia, o perito explica a provável origem da lesão, o intervalo de tempo estimado entre a agressão e a morte, os sinais de dor intensa. Esse detalhamento dá peso concreto a expressões que, no papel, soam abstratas, como “trauma contuso” ou “politraumatismo”.
O caso de Henry já provoca discussões acaloradas desde 2021, quando a morte do menino, então com idade inferior a 10 anos, ganha as manchetes e desperta indignação nas redes sociais. A divulgação de mensagens de celular, laudos parciais e versões conflitantes sobre a noite da morte alimenta, ao longo de meses, a sensação de que o país assiste a um drama em capítulos sucessivos. A audiência desta segunda-feira condensa essa trajetória: de um suposto acidente doméstico, noticiado nas primeiras horas, o processo avança para uma acusação formal de homicídio, fortalecida por pareceres técnicos como o que agora volta ao centro do debate.
Advogados, promotores e familiares sabem que cada detalhe pode influenciar a convicção dos sete jurados. A posição do perito, ao descartar com segurança a queda acidental, reduz o espaço para interpretações favoráveis à versão de um infortúnio inevitável. Ao mesmo tempo, a exposição pública de Monique, vista chorando em tempo real por milhões de pessoas em transmissões ao vivo ou em trechos reproduzidos em telejornais e perfis de redes sociais, alimenta discussões sobre até que ponto a emoção deve pesar em decisões que precisam se basear em provas.
Julgamento mantém país em alerta e abre nova fase do caso
O depoimento desta segunda-feira projeta efeitos concretos sobre os próximos passos do processo. Ao reforçar a tese de agressão, o perito ajuda a consolidar a linha de acusação que afasta qualquer cenário de acidente. Isso pode levar a novas estratégias defensivas, com maior foco em questionar a cadeia de custódia das provas, o procedimento do IML ou a interpretação dos dados, em vez de insistir na queda como explicação central. A disputa passa a girar, cada vez mais, em torno de quem teria responsabilidade direta pela violência sofrida por Henry.
A repercussão pública também tende a crescer. Em um ambiente em que decisões judiciais são acompanhadas minuto a minuto, a fala de um perito experiente carrega peso simbólico e prático. Organizações de proteção à infância, movimentos de direitos humanos e entidades jurídicas já acompanham o julgamento e prometem se manifestar conforme o tribunal avance rumo à sentença. A forma como o caso é decidido pode influenciar, por exemplo, debates no Congresso sobre endurecimento de penas para crimes contra crianças e sobre protocolos de investigação em casos de suspeita de maus-tratos.
O júri deve continuar ouvindo testemunhas ao longo dos próximos dias, com possibilidade de extensão do julgamento por mais de uma semana, a depender do ritmo dos depoimentos e dos embates entre acusação e defesa. A expectativa é que a sentença seja conhecida ainda em junho, mas a experiência recente de casos de grande repercussão mostra que recursos e questionamentos podem prolongar a disputa por meses, talvez anos. Enquanto isso, a imagem de Monique chorando diante das fotos do filho morto e a afirmação categórica do perito de que não houve queda acidental permanecem como símbolos de um processo que, mesmo ancorado em laudos e peças jurídicas, expõe feridas abertas na relação do país com a violência contra crianças.
