Mulher é sequestrada e jogada de penhasco pelo ex em parque de MG
Ana Cláudia Rodrigues da Silva Souza, 41, é sequestrada pelo ex-marido e jogada de um penhasco na Serra do Rola Moça na segunda-feira (25). Ela sobrevive a uma queda de cerca de 50 metros e é resgatada com vida após passar quase 24 horas desaparecida.
Sequestro, queda e quase um dia desaparecida
O desaparecimento começa por volta das 10h de segunda-feira, 25 de maio de 2026. Ana Cláudia sai de casa na Região Metropolitana de Belo Horizonte e não volta mais. Horas depois, a família percebe que algo está errado. A filha mais velha, Thaiene Heloísa, 24, procura uma delegacia em Pindorama e registra o boletim de desaparecimento.
O caso rapidamente deixa de ser apenas uma busca por uma pessoa desaparecida. A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros são acionados às 14h25. As primeiras informações indicam que Ana pode estar em área de mata. Os militares iniciam as buscas, ainda sem saber que ela já despenca de um dos paredões do Parque Estadual da Serra do Rola Moça, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, um dos pontos turísticos mais visitados da Grande BH.
Enquanto equipes vasculham trilhas e estradas de terra, a investigação segue em paralelo. A polícia localiza o ex-marido de Ana, Sivanildo Amâncio de Araújo, 52, em Várzea da Palma, no Norte de Minas. Diante dos militares, ele admite o crime. Confessa que sequestra a ex-companheira, tenta matá-la e, em seguida, a joga de um penhasco na serra.
Com o relato do suspeito, o foco das buscas muda de cenário. Não se trata mais de uma mulher que se perde em área de mata, mas de uma tentativa de feminicídio em uma das unidades de conservação mais importantes de Minas. O relato indica um ponto específico entre o mirante do Planeta e o mirante dos Veadeiros, áreas conhecidas pela vista ampla e pelas encostas íngremes.
Equipes do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar e do Samu passam a concentrar esforços naquele trecho. A região combina paredões verticais, encostas em plano inclinado e vegetação densa, o que dificulta o acesso terrestre e aumenta o risco para os socorristas. Cada minuto conta, porque ninguém sabe em que condições Ana resiste após a queda.
Operação de resgate complexa e sobrevivência improvável
A resposta das forças de segurança transforma o penhasco numa frente de operação. Sete viaturas terrestres e cerca de 22 militares atuam em regime contínuo, em dois dias de buscas. Drones equipados com câmeras e sensores térmicos sobrevoam o vale. A aeronave Arcanjo, do Corpo de Bombeiros, entra em ação para ampliar o alcance visual e permitir resgate aéreo.
Os bombeiros calculam que Ana cai cerca de 50 metros. Os 10 primeiros metros são praticamente verticais, um paredão íngreme. Os 40 metros seguintes formam um plano inclinado, onde o corpo desliza e se choca contra pedras e vegetação. Sobreviver a uma queda assim é incomum. Permanecer consciente e orientada, depois de quase 24 horas exposta ao frio, à fome e à dor, é ainda mais raro.
Na manhã de terça-feira, por volta das 11h, o esforço conjunto encontra resultado. Em um ponto de difícil acesso, entre os dois mirantes, os militares localizam Ana. Ela está em um paredão, com escoriações pelo corpo, ferimentos no rosto e no pé, mas sem sinais aparentes de fraturas graves. Consegue responder às equipes e dizer seu nome. O resgate exige técnica de salvamento em altura e uso de guincho na aeronave.
Imagens divulgadas pelos Bombeiros de Minas mostram a cena do alto: a encosta íngreme, a maca suspensa, o helicóptero estabilizado em meio ao vento e à irregularidade do terreno. “Registro do resgate aéreo visto por outro ângulo”, descreve a corporação ao publicar o vídeo nas redes sociais. O registro ajuda a dimensionar o risco do atendimento e a improbabilidade da sobrevivência.
A operação encerra a fase mais dramática de uma história que começa com um sequestro e termina, por enquanto, com a prisão do agressor e o atendimento médico à vítima. O caso, porém, passa a ser tratado como tentativa de feminicídio, crime previsto na legislação brasileira desde 2015 para casos de violência letal contra mulheres por razões de gênero.
Violência de gênero, reação das autoridades e próximos passos
O ataque atinge em cheio uma realidade que se repete no país. Conflitos entre ex-companheiros, escalada de ameaças e tentativas de controle costumam anteceder agressões mais graves. Em 2024, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública registra mais de mil casos de feminicídio no Brasil. Especialistas apontam que tentativas, como a sofrida por Ana, não entram sempre nas estatísticas com a mesma visibilidade.
A confissão de Sivanildo, preso em Várzea da Palma, antecipa parte do trabalho de investigação, mas não encerra o processo. A Polícia Civil de Minas deve aprofundar as motivações, reconstruir o trajeto do sequestro e ouvir familiares e testemunhas. A apuração busca entender se havia histórico de ameaças, medidas protetivas ignoradas ou episódios anteriores de violência.
A família acompanha a recuperação de Ana e aguarda respostas. A filha, que toma a iniciativa de registrar o desaparecimento menos de um dia após perder o contato com a mãe, ajuda a acelerar a mobilização policial. A rapidez na comunicação com as autoridades, apontam delegados em casos semelhantes, é decisiva para evitar desfechos fatais.
O Parque Estadual da Serra do Rola Moça, cenário da tentativa de homicídio, também entra em debate. A área, que recebe visitantes para trilhas, mirantes e esportes ao ar livre, é conhecida pelas encostas profundas. O caso reacende discussões sobre segurança em unidades de conservação abertas ao público e sobre a necessidade de monitoramento em pontos mais isolados.
As próximas etapas se desenham em duas frentes. Na esfera criminal, o inquérito deve ser concluído nas próximas semanas e o Ministério Público pode denunciar Sivanildo por sequestro, tentativa de feminicídio e outros crimes correlatos. Na esfera social, o episódio volta a expor a fragilidade das redes de proteção às mulheres em situação de violência.
Organizações de defesa dos direitos das mulheres reforçam, em casos como esse, a importância de canais como o Ligue 180, central nacional de atendimento, e o 190, da Polícia Militar, para situações de emergência. A história de Ana, que sobrevive a uma queda de 50 metros e permanece quase um dia à espera de socorro, tende a alimentar o debate sobre prevenção, resposta rápida e punição de agressores.
O desfecho imediato, com a prisão do ex-marido e o resgate bem-sucedido, não elimina a pergunta que fica para a sociedade e para as autoridades: quantas outras mulheres em risco extremo não conseguem pedir ajuda a tempo?
