Zema e Caiado abrem negociação por chapa, mas mantêm disputa em 2026
Romeu Zema e Ronaldo Caiado se reúnem nesta terça-feira (26), em Goiás, para discutir uma possível chapa conjunta nas eleições presidenciais de 2026. O encontro marca a tentativa da centro-direita de reorganizar seu espaço, mas, por enquanto, não altera a disposição de Caiado de manter a própria candidatura.
Café em Goiânia expõe disputa por liderança na centro-direita
No fim da tarde, no escritório político de Ronaldo Caiado em Goiás, o clima é de conversa reservada, não de anúncio. Zema, pré-candidato à Presidência pelo PSD, cruza a porta com a missão de testar uma aliança ainda no primeiro turno. Do outro lado da mesa, o ex-governador goiano escuta, mede cenários e evita qualquer gesto que soe como recuo.
O encontro presencial, confirmado por interlocutores dos dois grupos, ocorre em meio à pressa da centro-direita em construir uma candidatura competitiva para 2026. A movimentação ganha peso porque se dá em um campo conservador fragmentado e pressionado pela crise de imagem de figuras ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, entre elas o senador Flávio Bolsonaro, alvo de desgaste político no caso envolvendo o Banco Master.
Zema chega ao escritório de Caiado com a proposta de abrir conversas sobre uma composição já no primeiro turno. Fontes ligadas à pré-campanha do mineiro relatam que o governador de Minas tenta se apresentar como alternativa viável para o eleitorado conservador que resiste a voltar ao entorno direto do bolsonarismo. A ideia é testar combinações de chapa e mapear possíveis apoios regionais antes que adversários consolidem palanques.
Do lado de Caiado, a leitura é outra. Assessores próximos repetem que o ex-governador goiano mantém a convicção de disputar o Planalto em 2026. Pessoas envolvidas nas negociações afirmam que a hipótese de Zema ocupar a vaga de vice na chapa de Caiado não entra na mesa com força. “Não há discussão para o PSD entrar como vice agora. A prioridade de Caiado é manter a candidatura e tratar de alianças só em eventual segundo turno”, afirma um interlocutor da pré-campanha.
A conversa, no entanto, não é isolada. O movimento se encaixa em uma série de encontros discretos que marcam as últimas semanas no campo conservador. Em paralelo ao diálogo com Zema, aliados de Caiado cultivam pontes com outros partidos da centro-direita e monitoram tentativas de reorganização da direita tradicional, em especial no Centro-Oeste e no Sudeste, onde a disputa por palanques tende a ser mais acirrada.
Cálculos eleitorais, nomes para vice e disputa por espaço
As negociações em torno de uma possível chapa Zema-Caiado não avançam, por ora, para anúncios concretos. Dirigentes do PSD minimizam a chance de definição antecipada. A avaliação interna é que o partido precisa medir o peso de uma candidatura nacional em 2026, testar o desempenho de Zema nas pesquisas e aguardar a movimentação de outros presidenciáveis do campo conservador antes de selar qualquer acordo.
Interlocutores envolvidos nas conversas relatam que outro nome surge como opção de vice em uma hipotética chapa liderada por Zema: o ex-governador de Goiás Marconi Perillo. Em caráter reservado, aliados citam que Perillo sinaliza disposição para compor uma chapa presidencial, o que adiciona uma camada de disputa local à equação nacional. Uma aliança desse tipo reforçaria o peso de Goiás no tabuleiro, mas poderia tensionar ainda mais a relação com o grupo de Caiado.
A indefinição sobre a formatação da chapa também reflete a disputa por território dentro da direita. O PL, partido de Jair Bolsonaro e de Flávio Bolsonaro, ainda tenta manter protagonismo no campo conservador, enquanto aguarda decisões de nomes estratégicos, como o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, sobre a disputa ao Senado. Em Brasília, dirigentes calculam que os próximos 90 dias serão decisivos para medir quem consegue acumular mais apoios regionais e recursos de campanha.
Os efeitos do desgaste de Flávio Bolsonaro no caso Banco Master aparecem em quase todas as conversas. Líderes da direita admitem, em reservado, que a crise abre espaço para que governadores e ex-governadores se apresentem como opções mais palatáveis para parte do eleitorado conservador. “Com o Senado sob pressão e o entorno de Bolsonaro fragilizado, cresce a busca por nomes com gestão em dia e rejeição menor”, avalia um dirigente de centro-direita ouvido pela reportagem.
O reencontro entre Zema e Caiado é lido por aliados como teste de forças e não apenas gesto de aproximação. Cada um mira o comando de uma fatia relevante do eleitorado conservador, em especial entre empresários, agronegócio e servidores de segurança pública. A costura de alianças estaduais, sobretudo em Minas Gerais e Goiás, entra na conta, com projeções de palanques cruzados e trocas de apoio em disputas por Senado e governos locais.
Centro-direita adia definição e empurra decisão para a reta final
As conversas desta terça-feira não produzem anúncio imediato, mas reorganizam o calendário interno da centro-direita. A tendência, segundo aliados de ambos, é que Zema e Caiado mantenham diálogo frequente nas próximas semanas, sem fechar porta para nenhuma composição. A estratégia passa por ganhar tempo enquanto pesquisas de intenção de voto projetadas para o segundo semestre de 2026 indicam quais nomes conseguem romper o teto de 15% a 20% do eleitorado.
A cautela tem motivo. Líderes do campo conservador temem repetir a fragmentação de 2022, quando a multiplicidade de candidaturas fora do eixo bolsonarista e lulista não consegue furar a polarização. O cálculo agora considera não apenas o desempenho nacional, mas a capacidade de cada pré-candidato em atrair apoios regionais, mobilizar redes sociais e garantir tempo de TV suficiente para aparecer ao eleitor médio, hoje mais desconfiado de promessas e rótulos ideológicos.
Na prática, o encontro entre Zema e Caiado produz um recado duplo. De um lado, mostra que a centro-direita busca alternativas ao entorno imediato de Bolsonaro e testa uma reconfiguração do campo conservador. De outro, deixa claro que nenhum dos dois está disposto, neste momento, a abrir mão do protagonismo na corrida presidencial.
As próximas rodadas de negociação devem envolver também dirigentes partidários, não apenas os pré-candidatos. PSDB, MDB, União Brasil e Republicanos observam o movimento e ajustam suas próprias estratégias, atentos à possibilidade de ocupar a vaga de vice em uma chapa competitiva ou de negociar apoio em um eventual segundo turno. Em conversas privadas, caciques falam em manter o tabuleiro “aberto” até, pelo menos, o início oficial da campanha.
Enquanto isso, o eleitorado conservador assiste a uma disputa silenciosa que ainda não se traduz em propaganda, jingles ou carreatas. A reunião em Goiás funciona como primeiro capítulo visível de uma novela que deve atravessar 2026. A pergunta que permanece sem resposta é se Zema e Caiado chegarão à reta final como aliados no mesmo palanque ou como adversários disputando o mesmo espaço no campo da direita.
