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Mordidas de ratos e surtos elevam drama de deslocados em Gaza

Crianças palestinas deslocadas em Gaza sofrem mordidas de ratos e infecções em série em 2026. Em acampamentos superlotados, a OMS já registra cerca de 17 mil casos ligados à infestação de roedores.

Infestação transforma acampamentos em foco de doenças

As tendas improvisadas que abrigam famílias inteiras na Faixa de Gaza acumulam lixo, esgoto a céu aberto e água parada. Nesse cenário, ratos circulam entre colchões, restos de comida e montes de entulho, avançando principalmente sobre crianças adormecidas. Em muitos corredores estreitos, o chão de terra batida exibe marcas de mordidas recentes e sangue seco.

Equipes médicas relatam que as mordidas se tornam rotina em diferentes áreas da faixa, desde o norte destruído até a região de Rafah, no sul. Em um posto de atendimento montado em contêineres metálicos, uma enfermeira descreve noites em que cada maca recebe mais de uma criança ferida. “As famílias chegam desesperadas, contando que os ratos sobem nas camas. Vemos cortes profundos em braços, pernas e rostos”, afirma uma profissional de saúde local.

Guerra prolongada empurra população para o limite

A guerra entre Israel e Hamas, que se arrasta desde 2023, destrói infraestrutura básica e empurra mais de 1 milhão de pessoas para acampamentos improvisados. Redes de esgoto deixam de funcionar, a coleta de lixo entra em colapso e o abastecimento de água potável falha repetidamente. A combinação de umidade, restos orgânicos e ausência de controle de pragas cria um ambiente perfeito para a proliferação de roedores.

Autoridades de saúde ligadas à Organização Mundial da Saúde falam em aproximadamente 17 mil infecções associadas a mordidas de ratos e à exposição a urina e fezes desses animais desde o início de 2026. Os casos incluem desde infecções graves de pele até doenças transmitidas por bactérias, como leptospirose, que causa febre alta, dores intensas e pode levar à falência de órgãos. “A situação sanitária em Gaza é explosiva. Sem saneamento e com densidade populacional extrema, os surtos tendem a se multiplicar”, alerta um especialista em emergências da OMS.

Infância em risco permanente

A maior parte dos deslocados vive em tendas montadas a poucos metros umas das outras, com famílias de até dez pessoas dividindo poucos metros quadrados. Crianças circulam descalças entre valas de esgoto, pontos de água contaminada e pilhas de alimentos doados. Um descuido basta para um roedor atacar, principalmente à noite, quando a maioria dorme no chão ou em colchões baixos.

Relatos de pais descrevem uma rotina de medo constante. Muitos tentam improvisar barreiras com plásticos, pedaços de madeira e sucata de metal para impedir a entrada dos animais. Outros mantêm vigília com lanternas durante a madrugada. “Meu filho de 4 anos acordou gritando. O rato mordeu a mão dele duas vezes. Não temos para onde fugir”, conta um deslocado que vive em um acampamento no centro de Gaza. As mordidas, quando não tratadas rapidamente, evoluem para infecções que podem exigir internação, algo cada vez mais raro em um sistema hospitalar em colapso.

Hospitais saturados e resposta limitada

Hospitais e clínicas que ainda funcionam operam muito acima da capacidade, depois de meses de ataques, falta de combustível e escassez de medicamentos. Profissionais relatam que, em dias de maior movimento, até 30 pacientes chegam com ferimentos compatíveis com mordidas de roedores em um único turno. O atendimento inclui limpeza rigorosa da ferida, antibióticos e, quando possível, vacinas para evitar infecções graves.

A falta de insumos impede protocolos completos. Nem sempre há antibióticos adequados, seringas suficientes ou condições de manter acompanhamento prolongado. “Sabemos o que deveríamos fazer, mas não temos como. Em muitos casos, só limpamos a ferida e torcemos para que não piore”, admite um médico de uma organização humanitária que atua na região. O quadro se agrava com a interrupção de cadeias de frio necessárias para armazenar vacinas, comprometidas por cortes frequentes de energia.

Crise humanitária ganha nova dimensão

A infestação de ratos adiciona uma camada de risco a um território já marcado por destruição, fome e desabrigo. Organizações humanitárias alertam que doenças transmitidas por roedores podem se espalhar rapidamente em ambientes superlotados, aumentando o número de internações e sobrecarregando ainda mais a rede de saúde. Crianças desnutridas e idosos aparecem entre os mais vulneráveis, com menor capacidade de reação a infecções.

Medidas básicas de controle de pragas, como coleta regular de lixo, eliminação de focos de água suja e uso de veneno em pontos estratégicos, se tornam difíceis em meio a bombardeios e deslocamentos constantes. Caminhões de limpeza não circulam com regularidade, e equipes locais relatam que muitas áreas permanecem semanas sem qualquer tipo de higienização. O resultado é um ciclo de degradação que reforça a presença dos roedores e amplia o alcance das doenças.

Pressão internacional e caminhos possíveis

Alertas da OMS e de agências da ONU intensificam a pressão sobre Israel, o Hamas e governos da região para permitir mais insumos médicos, combustível e equipes de saneamento em Gaza. Especialistas defendem a criação de corredores humanitários específicos para ações de limpeza urbana, vacinação e controle de vetores, com monitoramento independente. Sem isso, avaliam, o número de infecções tende a crescer nas próximas semanas.

Diplomatas discutem em diferentes fóruns, de Genebra a Nova York, compromissos mínimos para estabilizar a situação sanitária e evitar novos surtos epidêmicos. Enquanto resoluções são negociadas, famílias seguem dividindo o espaço com ratos, tentando proteger crianças com o pouco que têm à mão. O futuro imediato da saúde pública em Gaza depende de decisões políticas que ainda não saem do papel, e a pergunta que se impõe é quanto tempo a população deslocada consegue suportar essa combinação de guerra, miséria e doença.

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