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Negociações EUA-Irã deixam mísseis e aliados regionais fora da mesa

As negociações nucleares entre Estados Unidos e Irã entram em novo impasse e deixam fora da mesa dois dos temas mais explosivos do Oriente Médio: mísseis balísticos e o apoio de Teerã a aliados armados na região. O alerta parte do analista político Firas Maksad e da âncora Becky Anderson, durante o programa “Connect the World”, da CNN, nesta quarta-feira (26).

Impasse após rejeição de proposta iraniana

O clima de frustração cresce em Washington e Teerã desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeita, na quarta-feira (29), a mais recente proposta iraniana. O plano, apresentado por negociadores de Teerã, aborda níveis de enriquecimento de urânio e limites para as capacidades nucleares do país, mas não convence a Casa Branca. A recusa trava o processo e empurra as conversas para um eixo ainda mais estreito: apenas o dossiê atômico.

Na prática, o governo americano exige cortes mais profundos nas atividades nucleares iranianas, enquanto Teerã cobra concessões econômicas tangíveis, como o alívio de sanções e acesso mais livre ao sistema financeiro internacional. O resultado é um impasse que deixa de fora o restante do arsenal iraniano, em especial os mísseis de médio e longo alcance e o apoio a grupos aliados espalhados do Iêmen ao Líbano.

É esse recorte, considerado excessivamente limitado, que preocupa analistas da região do Golfo. Durante a transmissão ao vivo da CNN, Firas Maksad, do Eurasia Group, descreve a lacuna nas conversas com um aviso direto. “Não estamos falando em limitar os mísseis balísticos… (ou) fazer o Irã reduzir seu apoio ou acabar com seus aliados na região”, diz. Segundo ele, ao ignorar essas frentes, o acordo em negociação corre o risco de estabilizar um ponto e desestabilizar vários outros.

Segurança regional fica a cargo dos países do Golfo

Becky Anderson, que conduz o “Connect the World” nesta edição de 26 de abril de 2026, reforça a leitura de que a comunidade internacional escolhe recortar o problema. “Essas questões vão ficar a cargo dos países da região do Golfo para lidar com elas”, afirma, ao vivo. A frase resume o sentimento em capitais como Riad, Abu Dhabi e Manama, que veem o tabuleiro militar se mover às suas custas.

Os países do Golfo se acostumam, nos últimos anos, a patrulhar sozinhos o impacto de decisões tomadas a milhares de quilômetros. O Irã, sob sanções, investe em mísseis, drones armados e redes de aliados regionais como forma de projeção de poder com custo relativamente baixo. Entre os parceiros mais ativos estão os rebeldes Houthi, no Iêmen, que recebem treinamento, armamento e apoio político de Teerã, segundo governos ocidentais e relatórios da ONU.

Os Houthi já atacam embarcações comerciais que cruzam o Mar Vermelho, uma das rotas de navegação mais importantes do planeta, por onde passam cerca de 10% do comércio marítimo global. Também lançam mísseis e drones contra cidades e instalações petrolíferas da Arábia Saudita e de Israel. Cada ataque aumenta o custo do seguro marítimo, pressiona o preço do barril de petróleo e alimenta a sensação de que qualquer incidente local pode se transformar em crise internacional em poucas horas.

No estúdio da CNN, Maksad enxerga uma divisão tácita de tarefas. Aos Estados Unidos e às potências do Conselho de Segurança caberia negociar centrimetricamente o programa nuclear iraniano. Aos países do Golfo sobraria a missão de conter, com recursos próprios, o avanço dos mísseis e das milícias aliadas a Teerã. Essa separação, diz o analista, aprofunda a desconfiança entre parceiros que, em teoria, deveriam atuar em bloco para reduzir a escalada regional.

Risco de acordo parcial alimentar novas crises

Ao restringir o debate às centrífugas e ao nível de enriquecimento de urânio — se a 3,67%, 20% ou mais perto dos 90% considerados grau militar —, negociadores tentam evitar um colapso completo das conversas. Essa estratégia, porém, cobra preço alto. O arsenal de mísseis balísticos do Irã, capaz de atingir alvos a centenas de quilômetros, permanece intocado. O mesmo vale para a rede de grupos aliados no Líbano, na Síria, no Iraque e no Iêmen.

Diplomatas do Golfo argumentam, em conversas reservadas, que um acordo exclusivamente nuclear pode até reduzir o risco de uma bomba atômica iraniana nos próximos anos, mas não diminui o medo de ataques convencionais. Para esses países, um míssil lançado de poucos quilômetros de distância contra um terminal de petróleo vale, em termos econômicos, tanto quanto uma arma de destruição em massa. Bloqueios ao trânsito no Mar Vermelho ou no Golfo Pérsico podem atrasar cargas por semanas, redesenhar rotas e afetar diretamente o bolso de consumidores na Europa, na Ásia e na América Latina.

A avaliação de Maksad ecoa essa percepção. Ele lembra que o Irã não precisa de um arsenal nuclear para condicionar decisões de vizinhos e grandes potências. A simples capacidade de fechar, por alguns dias, um estreito estratégico ou de paralisar a produção de petróleo em um país rival já funciona como instrumento de pressão. Nesse cenário, cada rodada de negociações centrada apenas no dossiê nuclear soa como meio acordo, insuficiente para conter a espiral de ameaças e retaliações.

Os próprios recados de Teerã apontam para esse cálculo. O governo iraniano classifica a proposta americana mais recente como “fora da realidade e injustificável” e condiciona avanços concretos a concessões que aliviem a pressão econômica interna. Sem esses ganhos, líderes iranianos veem pouco incentivo para abrir mão de cartas estratégicas, entre elas justamente os mísseis e o poder de influência sobre grupos aliados.

Nova proposta iraniana e incertezas no horizonte

A retomada das conversas nucleares, marcada para esta quinta-feira (26), ocorre sob esse pano de fundo. Negociadores esperam que Teerã apresente, nos próximos dias, uma proposta revisada, em resposta direta à decisão de Trump de rejeitar o texto anterior. O calendário é apertado, a pressão política interna cresce dos dois lados e o espaço para concessões parece menor a cada rodada.

Ainda que um entendimento parcial sobre o programa nuclear seja possível, permanece a dúvida sobre o que fazer com o restante do arsenal e com os aliados de Teerã. Sem um mecanismo claro para conter ataques Houthi no Mar Vermelho, bombardeios esporádicos contra a Arábia Saudita e Israel e a expansão de mísseis balísticos, qualquer acordo corre o risco de envelhecer rápido. Nos bastidores, diplomatas e analistas admitem que a pergunta central continua sem resposta: é possível estabilizar o programa nuclear do Irã sem enfrentar o conjunto de instrumentos que o país usa para projetar poder na região?

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