Ataque em Londres expõe escalada de violência antissemita no Reino Unido
Um homem de 45 anos esfaqueia dois judeus em Golders Green, norte de Londres, na manhã de 29 de abril. A polícia classifica o caso como terrorismo antissemita e acende o alerta máximo para a segurança da comunidade judaica britânica.
Bairro judaico em choque e alerta nacional
O ataque atinge o coração de Golders Green, principal polo da comunidade judaica na capital britânica. As vítimas, identificadas localmente como Shilome Rand, de 34 anos, e Moshe Shine, de 76, caminham pela região quando são surpreendidas pelo agressor armado com uma faca. Elas recebem atendimento ainda na rua e seguem para o hospital em condição estável.
A cena se desenrola em poucos minutos, pouco depois das 11h16 no horário local, equivalente às 7h16 em Brasília. Moradores correm, lojas fecham as portas às pressas e mães com carrinhos de bebê se escondem em uma livraria. “Ele está com uma faca, corram”, ouve a testemunha Daniela, de 29 anos, antes de ver o suspeito disparar pela rua em direção a uma via movimentada.
O agressor, um cidadão britânico nascido na Somália, tenta também esfaquear policiais que chegam ao local. Agentes recorrem a um taser para imobilizá-lo e o derrubam no asfalto. Imagens de celulares e câmeras de segurança circulam nas redes e mostram o momento em que ele segura o objeto cortante contra o próprio peito, enquanto policiais e um transeunte tentam arrancar a faca de suas mãos.
Durante a contenção, os agentes o chutam na cabeça várias vezes. A Polícia Metropolitana divulga depois imagens de câmeras presas ao corpo dos policiais e afirma que o homem “se recusa a mostrar as mãos, é violento e continua representando uma ameaça clara”. Segundo a corporação, ele tenta atacar e esfaquear os agentes mesmo já no chão.
O suspeito é preso sob acusação de tentativa de homicídio e permanece sob custódia. O comissário da Scotland Yard, Mark Rowley, revela no fim da tarde que ele tem histórico de violência grave e problemas de saúde mental, e diz que os policiais temem, no momento da abordagem, que ele carregue um possível explosivo. “Eles não eram policiais armados”, destaca Rowley, ao elogiar a ação da equipe.
Terrorismo, emergência nacional e pressão política
O comando antiterrorismo da polícia rapidamente assume o caso. Laurence Taylor, comissário assistente responsável pela área, formaliza o enquadramento do episódio como terrorismo. Para as autoridades britânicas, trata-se de um ataque motivado por ódio religioso, direcionado a judeus visivelmente identificáveis em um bairro onde kipás e roupas tradicionais fazem parte da paisagem diária.
O avaliador independente da legislação antiterrorista do governo, Jonathan Hall, classifica a situação como a “maior emergência de segurança nacional” desde 2017. Ele cita uma série de incidentes recentes e diz à BBC que há britânicos em Londres e Manchester que “pensam que não podem viver uma vida normal”. “Não se trata de um único ataque, são múltiplos ataques”, alerta.
O episódio vira assunto imediato em Downing Street. O primeiro-ministro Keir Starmer condena o ataque como “absolutamente revoltante” e o define de forma direta: “Ataques contra a nossa comunidade judaica são ataques contra a Grã-Bretanha”. Ele reúne ministros em uma reunião de emergência e promete revisar medidas de segurança reforçada e ampliar o financiamento para proteção de sinagogas, escolas e centros comunitários.
Starmer também fala em enfrentar atores estatais mal-intencionados, numa referência a regimes estrangeiros apontados em investigações anteriores como inspiradores ou financiadores de campanhas de ódio. O tema engrossa um debate que já ocupa o Parlamento e a imprensa desde o aumento da tensão internacional no Oriente Médio e a multiplicação de ameaças contra instituições judaicas no Reino Unido.
A pressão, porém, não parte apenas de Londres. O gabinete do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, reage com dureza e afirma que “palavras não são suficientes para enfrentar esse flagelo” de ataques em Londres. O recado expõe a cobrança internacional por ações concretas e coloca a política de segurança britânica sob escrutínio externo.
Dentro da própria comunidade judaica, a cobrança é frontal. O rabino-chefe do Reino Unido, Ephraim Mirvis, diz que o ataque “prova que, se você é visivelmente judeu, não está seguro” e pede que “muito mais” seja feito. O Board of Deputies of British Jews, principal órgão representativo da comunidade, afirma que o antissemitismo precisa ser “enfrentado, punido e dissuadido com toda a força do Estado”.
Medo nas ruas, reação nas urnas e o que muda na prática
As ruas de Golders Green revelam, em escala local, o impacto de uma crise nacional. O grupo de segurança comunitária Shomrim recebe o primeiro chamado sobre um homem correndo armado com uma faca e tentando esfaquear judeus em via pública. Voluntários correm para a região e, segundo o coordenador Ben Grossnass, são os primeiros a alcançar o suspeito, antes da chegada dos policiais.
O serviço voluntário de ambulâncias Hatzola também participa do atendimento inicial às vítimas. Keir Starmer agradece publicamente às duas organizações e à polícia pela rapidez na resposta. O elogio, porém, não impede uma reação hostil quando o comissário Mark Rowley visita o local. Moradores o vaiam, gritam “vergonha” e pedem sua renúncia. A deputada local e ministra da Justiça, Sarah Sackman, também é alvo de protestos.
Sackman diz entender a raiva. Judia e moradora da região, ela conta que muda o próprio comportamento ao sair com os filhos. “Quando levo meus filhos à sinagoga, me pego segurando a mão deles um pouco mais forte. Sei que não estou sozinha nisso”, afirma. Para ela, as ameaças contra judeus no país são “muito reais” e a segurança total é impossível de garantir.
O prefeito de Londres, Sadiq Khan, admite estar “irritado”, “chocado” e “indignado” com o fato de que judeus vivam com medo. O rei Charles 3º, segundo o Palácio de Buckingham, está “naturalmente profundamente preocupado”. “Seus pensamentos e orações estão com os dois indivíduos feridos”, informa o comunicado, que agradece a quem corre para ajudar as vítimas.
A oposição e partidos menores tentam capitalizar o clima de urgência. A líder conservadora Kemi Badenoch fala em “epidemia de violência contra pessoas judias” e chama a situação de “emergência nacional”. Nigel Farage, do Reform UK, afirma que o ataque é “abominável” e “totalmente previsível” e diz que é “temporada aberta contra pessoas judias”. Ed Davey, dos Liberal Democratas, e Zack Polanski, dos Verdes, também cobram ações firmes contra o antissemitismo.
Nos bastidores da polícia, a investigação se desdobra em outras frentes. Agentes fazem buscas em um endereço no sudeste de Londres e ligam o suspeito a uma altercação ocorrida na manhã anterior, às 8h50, em que um morador sofre ferimentos leves. O homem já havia fugido quando a polícia chega, o que levanta questões sobre falhas na contenção de um potencial agressor violento em menos de 24 horas.
Próximos passos e uma pergunta em aberto
O ataque em Golders Green se soma a outros episódios recentes, como o ataque incendiário a ambulâncias comunitárias e ocorrências em duas sinagogas de Londres. Juntos, eles alimentam a sensação de cerco descrita por Jonathan Hall e abrem espaço para uma revisão mais ampla da estratégia britânica contra crimes de ódio e terrorismo doméstico.
No curto prazo, o governo discute aumento de verbas para segurança física de escolas, sinagogas e centros culturais, ampliação da presença policial em bairros com forte presença judaica e cooperação mais estreita com grupos comunitários. Em paralelo, cresce a defesa de programas integrados que combinem vigilância, monitoramento de extremistas e apoio em saúde mental, diante de suspeitos com histórico psiquiátrico e comportamento violento.
A legislação antiterrorista britânica, reforçada após atentados de 2017, volta ao centro do debate. Parlamentares e especialistas discutem se o arcabouço atual dá conta de um cenário em que ataques podem ser cometidos por indivíduos isolados, com motivações difusas, mas alvos claramente escolhidos por religião ou origem étnica.
Enquanto as autoridades discutem estatísticas, orçamentos e normas, a vida em Golders Green tenta voltar a um ritmo minimamente normal. Lojas reabrem as portas, fiéis retornam às sinagogas sob vigilância reforçada e pais seguem segurando com mais força a mão dos filhos. A pergunta que fica, para Londres e para o Reino Unido, é até quando a comunidade judaica precisará viver como se estivesse sempre à beira do próximo ataque.
