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Merz diz que Irã “humilha” EUA e mira estratégia de Trump

O chanceler alemão, Friedrich Merz, acusa nesta segunda-feira (27.abr.2026) o governo dos Estados Unidos de ser “humilhado” pelo Irã nas negociações de paz. Ao criticar diretamente a estratégia adotada pelo ex-presidente Donald Trump, ele afirma que Washington erra no cálculo de força e concede espaço excessivo a Teerã.

Crítica incomum a Washington em plena negociação

As declarações partem de Berlim, em meio a uma sequência de rodadas diplomáticas que tenta, há meses, conter a escalada militar no Oriente Médio e desenhar um cessar-fogo duradouro. Merz rompe a cautela habitual de chefes de governo europeus ao acusar, em público, falhas “gravíssimas” na condução das conversas entre Washington e Teerã.

O chanceler afirma que o desenho atual da negociação desequilibra a mesa. “O Irã conduz esse processo de forma a expor as fraquezas dos Estados Unidos. Isso não é apenas um erro tático, é um erro estratégico”, diz, segundo interlocutores presentes às conversas internas do governo. Em termos diretos, Merz sustenta que Trump abriu um flanco que persiste até hoje: cedeu espaços de influência sem construir garantias sólidas.

A fala atinge um ponto sensível. Desde que os Estados Unidos deixaram o acordo nuclear com o Irã, em 2018, por decisão de Trump, as potências tentam recompor algum tipo de pacto de segurança. A sucessão de sanções, ataques por meio de milícias aliadas e ameaças de retaliação cria um cenário em que cada gesto público pesa. Quando um chanceler de uma das maiores economias do mundo diz que Washington está sendo submetido a “humilhação”, a percepção de fragilidade se espalha.

Diplomatas ouvidos reservadamente em Berlim apontam que a irritação de Merz amadurece nas últimas semanas. Em encontros fechados com assessores, ele repete que a condução americana oscila entre a ameaça e a acomodação, sem uma linha coerente. “O resultado é previsível: quem lê essa hesitação explora ao máximo”, resume um conselheiro, ao descrever a avaliação do chanceler sobre o comportamento iraniano à mesa.

Impacto na política externa dos EUA e na coalizão ocidental

As críticas alemãs atingem um aliado central em um momento em que a credibilidade dos Estados Unidos já enfrenta desgaste. Pesquisas internas de institutos europeus, compartilhadas informalmente com governos, indicam queda de até 15 pontos percentuais na confiança dos parceiros em relação à capacidade de Washington de mediar conflitos no Oriente Médio desde 2020. A fala de Merz tende a cristalizar números que até agora circulavam apenas em relatórios confidenciais.

Merz não se limita a uma avaliação abstrata. Ele conecta as falhas atuais à estratégia de Trump durante e após seu mandato. Ao romper o acordo nuclear de 2015 sem apresentar alternativa sólida, o ex-presidente americano, na visão do chanceler, transformou o diálogo em um cabo de guerra permanente. “A política de pressão máxima criou um ambiente em que o Irã paga um preço econômico alto, mas ganha influência política e simbólica na região”, observa um diplomata alemão, ecoando a leitura do chefe de governo.

O chanceler avalia que esse desequilíbrio se traduz em fatos concretos: mais ataques por grupos aliados ao Irã contra posições americanas, subida do prêmio de risco em rotas de petróleo estratégico e aumento da dependência de parceiros europeus de garantias de segurança que consideram menos confiáveis. Em alguns países da União Europeia, cálculos internos apontam que o custo do seguro de transporte marítimo em áreas de risco subiu mais de 20% desde o início da nova fase do conflito.

Dentro dos Estados Unidos, as declarações de Berlim tendem a alimentar o debate eleitoral. A estratégia de Trump no Oriente Médio já divide republicanos e democratas. Ouvir, de um chanceler europeu, que o país está sendo “humilhado” por Teerã adiciona munição a críticos que defendem uma revisão completa da linha de negociação. Integrantes do establishment de segurança nacional veem na fala de Merz um aviso: se Washington não ajustar o curso, corre o risco de perder, de forma duradoura, a imagem de mediador confiável.

Para o Irã, as declarações representam uma oportunidade e um risco. A oportunidade está em explorar o racha discursivo entre aliados ocidentais, reforçando a narrativa de que os Estados Unidos não falam mais com uma só voz. O risco surge se a crítica alemã ajudar a empurrar Washington para uma posição mais dura, reduzindo o espaço de manobra que Teerã vinha ganhando nas últimas rodadas.

Próximos passos e incertezas na mesa de negociação

O governo americano ainda não responde oficialmente às declarações de Merz, mas assessores em Washington discutem, desde as primeiras horas desta segunda-feira, como enquadrar a fala sem ampliar o desgaste entre aliados. Em canais diplomáticos, negociadores avaliam se a Alemanha pretende assumir papel mais ativo na construção de uma saída para a guerra ou se a crítica fica restrita ao campo retórico.

Na prática, a posição alemã pode influenciar o desenho das próximas rodadas de negociação. Se Berlim insistir que o atual formato expõe os Estados Unidos e fortalece o Irã, cresce a pressão por mudanças no calendário, nos países mediadores e até na composição das equipes. Em cenários estudados por diplomatas europeus, surgem possibilidades como a ampliação do grupo de garantes do eventual acordo, incluindo mais de três potências além de EUA e Irã, e a fixação de prazos claros para cada etapa, algo que hoje ainda aparece de forma vaga nos comunicados oficiais.

Merz indica a aliados que pretende levar a discussão para fóruns multilaterais, como a próxima reunião do G7, em junho, e encontros na União Europeia ao longo do segundo semestre de 2026. A avaliação no entorno do chanceler é que a Alemanha não pode se limitar a observar uma negociação que impacta diretamente sua segurança energética e sua relação com parceiros no Golfo Pérsico.

Entre diplomatas, uma pergunta atravessa conversas reservadas em Berlim, Bruxelas e Washington: até que ponto a crítica pública de um chanceler europeu altera, de fato, o comportamento das duas potências na mesa de paz? A resposta, por enquanto, depende menos das palavras de Merz e mais da disposição de Estados Unidos e Irã de transformar uma negociação marcada por humilhações mútuas em um acordo que resista, ao menos, aos próximos anos de instabilidade.

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