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Irã ameaça bloqueio de estreitos e ataques caso acordo com EUA fracasse

O Irã avisa que responderá com força militar se as negociações com os Estados Unidos fracassarem a partir de maio de 2026. Teerã ameaça bloquear estreitos estratégicos, ampliar o alcance de seus mísseis e usar enxames de drones avançados, em uma escalada que pode atingir muito além do Oriente Médio.

Negociações sob pressão e memória da última guerra

As conversas entre diplomatas iranianos e americanos avançam em direção a um acordo provisório, já apresentado ao presidente Donald Trump, mas o campo de batalha segue em ebulição. Mesmo com cessar-fogo em vigor desde 8 de abril, ataques pontuais no Golfo Pérsico e no estreito de Ormuz lembram todos os dias o risco de um retorno rápido à guerra aberta.

Autoridades da Guarda Revolucionária Islâmica usam o momento para reforçar a mensagem de que, se a diplomacia falhar, a resposta será ampla e dolorosa. Em comunicado recente, o corpo de elite ameaça golpes “muito além da região” e fala em “ruína total” em locais que os adversários “nem sequer conseguem imaginar”. O discurso ecoa uma guerra de 40 dias em que o Irã atinge bases dos EUA, cidades israelenses e infraestrutura crítica em estados árabes do Golfo, ao mesmo tempo em que estrangula a navegação em Ormuz e provoca um choque energético global.

No núcleo das tratativas em Teerã está Mohammad Bagher Ghalibaf, principal negociador iraniano. Ele insiste que, durante a trégua, as Forças Armadas reconstruíram suas capacidades “no mais alto nível”. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, reforça a linha dura e promete que qualquer retaliação futura “contará com muito mais surpresas”, um recado direto a Washington e aos aliados árabes de Trump.

Bloqueio de rotas vitais e risco de choque econômico global

A estratégia central de Teerã é clara: compensar a inferioridade militar convencional com a ameaça de paralisar a economia mundial. Em 2023, mais de 10% do comércio global de petróleo por mar passa pelo estreito de Bab al-Mandeb, porta de entrada do Mar Vermelho. Essa participação cai quase pela metade no caso do petróleo e praticamente some no gás natural liquefeito após a onda de ataques Houthi em 2024, segundo a Administração de Informação sobre Energia dos EUA (EIA).

O Irã já mostrou que consegue, na prática, fechar o estreito de Ormuz, por onde escoa uma parcela decisiva do petróleo do Golfo. Agora acena com a possibilidade de ampliar o cerco, desta vez ativando os Houthis no Iêmen para ameaçar Bab al-Mandeb. Uma crise simultânea nas duas passagens estrangula rotas que ligam a Ásia, a Europa e o mundo árabe. “Seria muito mais grave, afetando tanto o comércio do Mar Vermelho como os fluxos de energia do Golfo Pérsico”, avalia o estrategista de energia Umud Shokri, da Universidade George Mason. Ele prevê aumento forte nos preços do petróleo, nas taxas de frete e na pressão inflacionária em todo o mundo.

Shokri pondera que um bloqueio total e duradouro de Bab al-Mandeb é improvável, porque “não é controlado diretamente pelo Irã” e desencadearia resposta naval internacional robusta. Para ele, o cenário mais realista é uma crise prolongada de segurança, com ataques e ameaças que tornem a rota cara e arriscada demais para o transporte comercial. Mesmo assim, o efeito sobre cadeias de suprimento globais e sobre o custo da energia seria imediato.

Do lado terrestre, a retórica também sobe. Membro do comitê de segurança nacional iraniano, Ahmad Bakhshayesh Ardestani diz que Teerã mira o coração da indústria de petróleo dos estados árabes do Golfo se os EUA atacarem refinarias e usinas iranianas. “Se eles pretendem fazer algo para que fiquemos sem petróleo, não atacaremos os seus oleodutos, atacaremos os poços para que eles também não tenham petróleo e o combustível fique caro para o mundo”, afirma, segundo a imprensa iraniana. O alvo deixa de ser apenas tubulações e passa a ser a capacidade produtiva em si.

Mísseis de longo alcance, enxames de drones e novos alvos

A ameaça de espalhar o conflito pelo mapa não se limita ao Golfo. Durante a guerra de 40 dias, o Irã já testa os limites de seu arsenal ao lançar mísseis balísticos de médio alcance contra Diego Garcia, base conjunta dos EUA e do Reino Unido no Oceano Índico, a mais de 3,2 mil quilômetros do território iraniano. Fontes militares ocidentais veem nas investidas uma espécie de ensaio para ataques ainda mais distantes.

Analistas ouvidos pela CNN Internacional afirmam que o arsenal de Teerã é conhecido, mas ainda assim perigoso. “Eles certamente têm alcances superiores a 2.000 quilômetros, mas não seria nenhuma arma nova”, diz Nicole Grajewski, professora de Relações Internacionais na Sciences Po, em Paris. O risco, segundo ela, está na decisão política de usar essas capacidades em alvos na Europa ou no Mediterrâneo, onde bases americanas e britânicas concentram aeronaves e logística.

Farzin Nadimi, pesquisador do The Washington Institute, prevê que uma escalada maior poderia levar o Irã a mirar bases como RAF Fairford e RAF Lakenheath, no Reino Unido, ou o centro logístico de Ramstein, na Alemanha. “O Irã provavelmente reservaria essa possibilidade para um nível muito alto de escalada”, afirma. Durante o último conflito, Teerã também teria tentado atingir instalações britânicas em Chipre, ampliando o raio da guerra.

Para contornar defesas aéreas cada vez mais densas, militares iranianos falam em enxames de drones equipados com inteligência artificial, capazes de se comunicar entre si, mudar rota em voo e reagir a interferências. Nadimi lembra que o país ainda não demonstra tais capacidades em combate, mas discute abertamente o desenvolvimento dessa tecnologia. A mesma lógica vale para mísseis de cruzeiro modificados para atingir velocidades supersônicas e para tentativas de bloquear satélites de comunicação e vigilância militar.

A escolha de alvos, até agora, também segue um cálculo cuidadoso. Durante a guerra, o Irã dispara mísseis contra hotéis e aeroportos civis, mas evita atingir em grande escala centrais de dessalinização que abastecem milhões de pessoas no Golfo. Instalações educacionais ligadas aos EUA chegam a receber avisos de evacuação, mas não viram alvo de ataques confirmados. O recado é de que Teerã ainda enxerga linhas vermelhas, embora siga disposto a testá-las.

Futuro imediato e incertezas para a economia global

A trégua de abril e o possível acordo em discussão em Washington compram tempo, mas não eliminam a sombra da guerra. Trump promete avaliar a proposta em uma “decisão final” na Casa Branca e sinaliza que deseja um “grande acordo” que impeça o Irã de obter armas nucleares. Ao mesmo tempo, o governo americano mantém ataques pontuais ao território iraniano e reforça a presença militar na região.

Governos do Golfo, Europa e Ásia acompanham cada movimento com atenção redobrada. Qualquer rompimento nas negociações pode disparar uma nova onda de ataques a poços, refinarias, portos e navios, pressionando ainda mais uma economia global que já lida com inflação alta e cadeias de suprimentos frágeis. Em um cenário extremo, bloqueios em Ormuz e Bab al-Mandeb fariam do preço do barril de petróleo um termômetro direto da crise diplomática.

As próximas semanas testam até onde vai a disposição de Trump e dos líderes iranianos em segurar o gatilho. A diplomacia ainda oferece uma saída, mas o custo de um fracasso, medido em pontos de inflação e incerteza geopolítica, já aparece nas projeções de economistas e estrategistas militares. A dúvida que permanece é se os sinais de contenção serão suficientes para impedir que uma nova faísca no Golfo se transforme em um choque global de grandes proporções.

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