Pacheco desiste do governo de MG em 2026 e anuncia saída da política
O senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) anuncia nesta sexta-feira (29) que não disputará o governo de Minas Gerais em 2026 e que deixa a política ao fim do mandato. A decisão interrompe o plano do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de ter no mineiro o principal nome do campo governista no segundo maior colégio eleitoral do país.
Palanque de Lula em Minas perde o nome central
A declaração de Pacheco acontece durante evento do Lide, em São Paulo, e se espalha rapidamente por Brasília e Belo Horizonte. Em poucas horas, líderes governistas admitem em reservado que o Palácio do Planalto perde a peça-chave para montar um palanque competitivo em Minas, estado que concentrou cerca de 10% do eleitorado brasileiro em 2022 e é decisivo para qualquer projeto presidencial.
Até semanas atrás, auxiliares de Lula tratam a candidatura de Pacheco ao Palácio Tiradentes como cenário preferencial. O senador migra do PSD para o PSB justamente para alinhar seu projeto ao campo governista e construir uma aliança em torno de uma frente de centro-esquerda. O gesto é lido como sinal verde para a disputa de 2026.
O roteiro começa a mudar ainda em 2025, com o desgaste nas conversas entre o governo federal e parte do Senado em torno da sucessão no Supremo Tribunal Federal. Pacheco, que preside o Congresso entre 2021 e 2025, atua como intermediário em votações sensíveis e passa a cobrar mais autonomia do Legislativo. As fricções esfriam o entusiasmo inicial com seu nome em Minas.
No palco do Lide, o senador decide encerrar as especulações. Diz que conclui um ciclo na vida pública e reforça que a escolha não é repentina. “Essa decisão vem sendo amadurecida desde o fim da minha gestão na presidência do Senado. Não acredito em permanência indefinida em cargos públicos”, afirma, ao ser questionado sobre 2026.
Aos 49 anos, Pacheco entra na política nacional em 2015, como deputado federal por Minas Gerais, e se elege senador em 2018. Em 2021, assume a presidência do Senado e do Congresso, posto que ocupa por quatro anos, em meio à pandemia, ao embate com o governo Jair Bolsonaro (PL) e à reconstrução de pontes com o Judiciário.
Campo progressista mineiro entra em terreno incerto
A desistência abre um vácuo imediato no campo progressista. Lula perde o nome que combinava perfil moderado, trânsito com o empresariado mineiro e capilaridade entre prefeitos do interior. A ausência de um candidato forte no radar obriga o governo a acelerar conversas com outras lideranças locais ainda em 2026 para evitar que a oposição domine o debate estadual.
Pacheco cita publicamente dois nomes do PSB como alternativas para a disputa: o empresário Josué Gomes da Silva, presidente da Fiesp e herdeiro do grupo Coteminas, e o ex-procurador-geral de Justiça de Minas Jarbas Soares. Ambos têm histórico de diálogo com diferentes campos políticos, mas nenhum deles aparece, até agora, com a mesma densidade eleitoral atribuída ao senador em pesquisas internas.
Nos bastidores, dirigentes do PT, do PSB e do PSD admitem que a decisão de Pacheco acelera uma disputa silenciosa por espaço em Minas. Prefeitos, deputados estaduais e federais começam a medir quem tem estrutura para liderar uma candidatura em um estado com 853 municípios e mais de 16 milhões de eleitores aptos a votar na última eleição geral. A conta envolve tempo de TV, alianças regionais, rejeição e capacidade de falar ao eleitor mineiro que alterna votos entre PT e PSDB desde os anos 1990.
A saída do senador também reconfigura o equilíbrio interno do PSB. A legenda investe pesado na aproximação com o Planalto desde 2022, com ministérios e cargos estratégicos, e via em Pacheco uma oportunidade de consolidar protagonismo regional. Sem ele na disputa, cresce a pressão para que o partido apresente um quadro competitivo e não seja empurrado para um papel secundário em eventual aliança com o PT.
O impacto vai além das siglas de esquerda. O PSD, legenda que projetou Pacheco nacionalmente, passa a avaliar como reposicionar suas forças em Minas depois de perder o senador para o PSB em meio às articulações eleitorais. A decisão do mineiro reforça a percepção de que acordos para 2026 continuam em aberto e que nenhuma costura está garantida até a largada oficial da campanha.
Embora seja citado para vagas em tribunais superiores, Pacheco fecha a porta para esse caminho. “Não tenho expectativa, nem perspectiva, de ocupar cargos no Supremo Tribunal Federal ou no Tribunal de Contas da União”, diz. A frase mira especulações recorrentes em Brasília de que sua saída da disputa em Minas poderia ser compensada por uma indicação futura ao STF ou ao TCU.
Fim de ciclo e disputa por herança política
O anúncio de que deixará a política ao fim do mandato, em 2031, marca uma ruptura com a lógica de carreiras quase vitalícias em Brasília. Em um ambiente em que ex-presidentes do Senado costumam migrar para cortes superiores ou se manter em mandatos sucessivos, Pacheco tenta se colocar como exceção e reforça um discurso de “limite de tempo” na vida pública.
Aliados próximos avaliam que o senador também busca preservar o capital acumulado nos últimos dez anos. Ao encerrar a trajetória no auge da visibilidade nacional, evita o desgaste de derrotas eleitorais e se posiciona para um retorno futuro, caso o cenário político mude. Nada disso é dito abertamente, mas faz parte dos cálculos de quem acompanha sua carreira desde o início.
Em Minas, a decisão aumenta a incerteza em relação à disputa pelo governo estadual em 2026 e mexe com o tabuleiro federal. Lula precisa garantir desempenho robusto no estado para sustentar um projeto nacional competitivo, especialmente diante de uma oposição que tenta reconstruir bases após a derrota de 2022. Sem Pacheco, o Planalto perde um articulador experiente, capaz de dialogar com setores conservadores e com o empresariado local.
A indefinição dá fôlego a movimentos regionais que buscam se apresentar como alternativa à polarização nacional. Líderes do centro e do centro-direita trabalham para construir candidaturas que possam atrair eleitores descontentes com o governo federal, sem repetir o discurso mais radical associado ao bolsonarismo. A ausência de um favorito claro torna o jogo mais aberto, mas também mais imprevisível.
Os próximos meses serão decisivos para saber se o campo governista consegue encontrar um nome que ocupe o espaço deixado por Pacheco ou se a eleição mineira será travada em outro eixo político. A dúvida que fica, em Brasília e em Belo Horizonte, é se a saída antecipada do senador da corrida abre caminho para uma renovação real de lideranças ou apenas rearranja as mesmas peças de sempre no tabuleiro.
