Polícia prende mulher de líder do CV e cumpre 162 mandados no país
A Polícia Civil prende nesta sexta-feira (29/5/2026) Raquel Neves dos Santos Mendonça, mulher de Antônio Ilário Ferreira, o Rabicó, um dos chefes do Comando Vermelho. A prisão integra uma operação que cumpre 162 mandados judiciais contra um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico de drogas da facção em vários estados.
Rede financeira do Comando Vermelho entra na mira
A ofensiva mira o coração financeiro do Comando Vermelho. Investigadores afirmam que o grupo usa empresas de reciclagem e ferros-velhos para transformar dinheiro do tráfico em receita aparentemente legal. O esquema funciona há anos em diferentes cidades do Rio de Janeiro e se espalha por São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Maranhão.
No Rio, mandados são cumpridos na capital e em municípios como São Gonçalo, Duque de Caxias, Itaboraí, Iguaba Grande, Armação dos Búzios e São João de Meriti. Ao todo, a 1ª Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa expede 55 mandados de prisão preventiva e 107 de busca e apreensão. As decisões atingem empresários, laranjas e operadores financeiros ligados ao grupo de Rabicó.
As investigações apontam que Rabicó não atua apenas como liderança do tráfico em comunidades. Ele se consolida como principal operador financeiro do CV, responsável, segundo mensagens interceptadas, pela lavagem de dinheiro, administração de empresas de fachada e uso de terceiros para ocultar patrimônio. “Ele é o cérebro financeiro da facção”, resume um investigador envolvido no caso.
Os relatórios mostram uma rotina de depósitos fracionados em espécie, uso de contas de passagem, emissão de notas fiscais frias e transferência intensiva de valores entre empresas do mesmo grupo. Na prática, a rede simula compra e venda de sucata, metais e materiais recicláveis para justificar milhões de reais que saem das bocas de fumo e acabam em contas controladas pelo núcleo de Rabicó.
Empresas de sucata, cobre queimado e dinheiro pulverizado
O comércio de sucata aparece como peça central do esquema. Investigações financeiras identificam empresas do ramo de reciclagem que transferem milhões diretamente para contas de Rabicó e de firmas ligadas a ele. Os valores circulam por diversas contas em poucos dias, em operações menores, para escapar de alertas automáticos do sistema bancário.
Relatórios de Inteligência Financeira, que reúnem movimentos suspeitos comunicados por bancos, servem de ponto de partida. A partir deles, a polícia faz quebras de sigilo fiscal, bancário, telefônico e de mensagens eletrônicas. A combinação de dados revela que parte da sucata negociada não existe de fato. Notas frias encobrem a origem criminosa de recursos que vêm do varejo de drogas controlado pelo Comando Vermelho.
Investigadores localizam ainda áreas usadas para queima clandestina de cabos de cobre, prática comum para retirar o metal e revender no mercado ilegal. Estabelecimentos associados a Rabicó aparecem nesses pontos, o que, para a polícia, reforça a integração entre furtos de materiais, receptação qualificada e lavagem de dinheiro da facção. O cobre queimado vira mercadoria, a nota fiscal forjada vira álibi e o dinheiro volta limpo para o caixa do crime.
O modelo de negócios criminoso tem duas frentes. Uma abastece o tráfico com armas, drogas e influência em territórios. A outra constrói uma fachada empresarial com CNPJs formalizados, funcionários contratados e contabilidade ajustada para que a movimentação milionária pareça rotineira. “O objetivo é sempre o mesmo: dificultar o rastreamento do dinheiro e proteger o topo da cadeia”, diz um delegado que acompanha o caso.
Golpe na cúpula do CV e próximos passos da investigação
A prisão de Raquel Neves atinge o entorno familiar de um dos principais chefes do Comando Vermelho e amplia a pressão sobre a cúpula da facção. Para investigadores, o recado é direto: não só gerentes do tráfico estão na mira, mas também parentes que ajudam a administrar empresas e patrimônio. A expectativa é que o bloqueio de bens, contas e imóveis reduza a capacidade da organização de financiar armas, subornar agentes e disputar territórios.
A operação também evidencia o caráter interestadual do CV. A disseminação dos mandados por pelo menos seis estados revela uma estrutura que não depende mais apenas de comunidades do Rio, mas de uma malha de negócios que atravessa fronteiras. A cooperação entre polícias civis e órgãos de inteligência financeira se torna essencial para mapear cada etapa dessa cadeia, do caixa da boca de fumo ao contrato social das empresas.
Os próximos passos incluem novas quebras de sigilo, análise de computadores e celulares apreendidos e rastreamento de patrimônio em nome de terceiros. Investigadores avaliam ainda o compartilhamento de provas com o Ministério Público Federal para eventual abertura de processos por organização criminosa e lavagem de dinheiro em esfera federal, o que pode ampliar penas e responsabilizar mais envolvidos.
O avanço desse tipo de investigação recoloca em debate a eficácia do combate às facções no Brasil. A estratégia de seguir o dinheiro, e não apenas a droga e as armas, ganha espaço em órgãos de segurança, mas ainda enfrenta resistências e limitações estruturais. A extensão da rede desmontada agora indica que o CV opera como um grupo empresarial clandestino. A pergunta que permanece é se o sistema de justiça e de fiscalização financeira conseguirá manter o ritmo antes que outra engrenagem criminosa ocupe o lugar da que hoje está no alvo.
