Fortaleza 300 anos: levantes que moldam a capital do protesto
Aos 300 anos, Fortaleza revisita uma história construída também em ruas em chamas. De 1824 aos anos 1960, a população enfrenta Império, oligarquias, empresas estrangeiras e ditadura nas principais praças da Capital, e transforma conflito em marca da identidade política da cidade.
Da Confederação do Equador aos mártires do Passeio Público
Fortaleza nasce de um forte militar às margens do Riacho Pajeú e cresce como cidade de fronteira e disputa. Em 1824, a Confederação do Equador, gestada em Pernambuco, chega às ruas da Capital e desafia a centralização de Dom Pedro I, vista como prolongamento da influência portuguesa no recém-independente Brasil.
Com a Revolução Pernambucana de 1817 ainda viva na memória popular, o levante republicano ganha força rápida. Centenas de moradores tomam as ruas, defendem maior autonomia para as províncias e pressionam o governo local. A articulação consegue, naquele mesmo ano, destituir o presidente da província e eleger Tristão Gonçalves de Alencar Araripe como novo governante.
A resposta do Império é dura. Em outubro de 1824, reforços militares chegam à Capital, a repressão se torna sistemática e relatos apontam perseguições, prisões e torturas. Tristão Gonçalves é capturado e morto no Interior, numa tentativa de decapitar politicamente o movimento.
Entre abril e maio de 1825, a violência simbólica atinge o coração da cidade. No Passeio Público, espaço de passeio da elite, o Império executa cinco líderes republicanos: Azevedo Bolão, Feliciano Carapinima, Francisco Ibiapina, Padre Mororó e Pessoa Anta. Décadas depois, a área recebe o nome de Praça dos Mártires e passa a carregar em placa a memória daquele fuzilamento coletivo.
Os corpos no centro urbano deixam uma marca duradoura. A cidade que até então se organiza em torno de um forte militar passa a guardar, em praça aberta, o registro de que contestar o poder central custa vidas, mas também produz símbolos duradouros para quem resiste.
Revolta de 1912, guerra dos bondes e ataques em 1942
No início do século 20, o conflito deixa de ser apenas disputa entre império e republicanos e passa a expor a crise de uma oligarquia local. Em janeiro de 1912, a Revolta de Fortaleza explode após uma eleição apontada como fraudulenta e o desgaste da gestão de Nogueira Accioly, sinônimo de clientelismo, nepotismo e autoritarismo.
O estopim vem em 21 de janeiro, quando militares reprimem uma passeata composta majoritariamente por crianças. Cavalaria avança sobre os pequenos manifestantes, há feridos, mortes e desespero. Pais armados respondem atirando contra agentes públicos, e a cidade entra em estado de choque.
Entre os dias 21 e 24, o centro de Fortaleza vira campo de batalha. Ruas e praças registram tiroteios, incêndios, barricadas, ataques à Delegacia Fiscal e à Cadeia Pública. O comércio fecha às pressas, o transporte para, e o que seria rotina de verão se converte em clima de guerra. Relatos da época indicam que o governo dispõe de cerca de mil soldados, mas muitos permanecem acuados em quartéis, com falta de comida e água à medida que o cerco popular se amplia.
A pressão só recua depois que Accioly deixa o Palácio da Luz e segue às pressas para o Rio de Janeiro. Nas eleições seguintes, o opositor Franco Rabelo vence e simboliza, para parte da população, a quebra de um ciclo oligárquico. A mensagem é direta: a população nas ruas consegue derrubar um governador que parecia inamovível.
Com a eletrificação dos bondes, em 1913, surge a promessa de modernidade. A companhia inglesa Ceará Tramway, Light and Power controla o transporte sem concorrência. Dez anos depois, a modernidade cobra seu preço. Superlotação, sujeira, falta de conforto, exposição à chuva e cortes constantes de energia alimentam o desconforto diário de milhares de passageiros.
Em 1925, a empresa anuncia aumento de tarifas, divisão dos bondes em 1ª e 2ª classe e mudanças de horário. A tentativa de segmentar o serviço acirra o sentimento de injustiça. Em setembro, estudantes lideram protestos na Praça do Ferreira. Bondes são invadidos, depredados, parados no trilho. O comércio fecha, aulas são suspensas, e o coração financeiro da Capital para.
A polícia reage com prisões e dispersões, mas não evita que o episódio fique registrado como uma das primeiras rebeliões urbanas contra uma empresa estrangeira de serviços públicos no Ceará. Na prática, a revolta explicita a ausência de regulação e mostra que tarifas e qualidade de serviço se tornam tema político, não apenas assunto técnico de contrato.
Em agosto de 1942, a Segunda Guerra Mundial chega de forma concreta ao litoral brasileiro. Em apenas dois dias, submarinos alemães afundam cinco navios do País, matam cerca de 600 tripulantes e acendem o sentimento de vingança. Em Fortaleza, a tensão vira ação em 18 de agosto, quando estudantes saem da Faculdade de Direito em direção à Praça do Ferreira e puxam protestos contra regimes fascistas.
O alvo da indignação muda de lugar. Não é mais o governo local ou a empresa de bondes, mas estabelecimentos ligados a estrangeiros, especialmente alemães e italianos. Lojas, padarias, cafés e armazéns são depredados, e manifestantes gritam palavras de ordem contra Adolf Hitler enquanto percorrem o Centro. A onda de ataques ocorre quatro dias antes de o Brasil declarar guerra à Alemanha e à Itália, em 22 de agosto de 1942, e deixa a cidade como palco de um conflito global traduzido em vidraças quebradas e fachadas em ruínas.
Greve das castanheiras e a Fortaleza que ainda protesta
Nas décadas de 1960, o conflito muda de forma. A expansão industrial transforma Fortaleza em polo de mão de obra barata, com forte presença de mulheres em fábricas de beneficiamento de castanha. Salários baixos, jornadas longas e ambientes insalubres marcam a rotina de centenas de operárias da Companhia Industrial de Óleos do Nordeste, a Cione.
É desse chão de fábrica que surge uma das greves mais emblemáticas da Capital. As castanheiras interrompem a produção, exigem aumento salarial, melhores condições de trabalho e o fim das punições às mulheres que se organizam. A paralisação começa espontânea, mas rapidamente ganha contornos políticos mais amplos, com piquetes, assembleias e diálogo com sindicatos, estudantes e outros segmentos de trabalhadores.
As operárias cruzam os portões da Cione e ocupam as ruas, ao contrário da lógica que as confinava em galpões apertados e pouco ventilados. A pauta inicial, centrada no bolso, se expande para questionar a forma como a cidade distribui riqueza e poder. Em plena ditadura militar, o movimento enfrenta também a repressão estatal, com intervenção posterior no sindicato e presença de órgãos de vigilância política.
As respostas não eliminam a memória da greve. O episódio ajuda a consolidar a imagem de Fortaleza como espaço em que mulheres trabalhadoras saem do anonimato e se colocam como protagonistas de disputas salariais e de direitos civis. Essa tradição ecoa em movimentos posteriores por moradia, transporte e combate à fome, que ocupam, nas décadas seguintes, as mesmas praças do Centro.
Ao longo de quase 150 anos, de 1824 aos anos 1960, esses levantes produzem efeitos concretos. Governadores caem, como Nogueira Accioly em 1912. Tarifas e serviços entram na agenda pública, com a guerra dos bondes de 1925. A relação com estrangeiros se redefine sob o impacto da guerra, em 1942. A organização das trabalhadoras, por fim, pressiona por melhorias em fábricas e muda a forma como o poder público olha para a indústria de baixa remuneração.
Os 300 anos de Fortaleza chegam com novos tipos de conflito, agora nas redes sociais, em coletivos de bairro e em movimentos por mobilidade, clima e segurança alimentar. As ruas que já viram tropas a cavalo, bondes parados e vitrines quebradas seguem disponíveis para novas formas de pressão política. A pergunta que fica, diante desse passado de revolta e organização, é como a cidade vai usar essa memória para enfrentar as desigualdades que ainda marcam o presente.
