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Economia

Falsos médicos criados por inteligência artificial acendem alerta e expõem nova ameaça às profissões

Estudos apontam que milhões de empregos podem ser deslocados pela inteligência artificial, enquanto ferramentas capazes de simular médicos e outros especialistas levantam preocupações sobre o futuro das profissões e a confiança do público.

Falsos médicos criados por inteligência artificial acendem alerta e expõem nova ameaça às profissões
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar parte de uma transformação que alcança empresas, escritórios e diferentes profissões. Em poucos anos, sistemas capazes de produzir textos, analisar documentos, atender clientes e executar tarefas digitais passaram a ocupar atividades antes realizadas exclusivamente por pessoas.O avanço trouxe ganhos de produtividade, mas também levantou uma questão que já preocupa trabalhadores e especialistas: até que ponto a tecnologia pode substituir a mão de obra humana?
O debate ganhou dimensão global com o relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial. O levantamento estima que, até 2030, as transformações econômicas e tecnológicas poderão criar 170 milhões de postos de trabalho e deslocar outros 92 milhões. O saldo projetado é positivo, com 78 milhões de novas vagas, mas os números indicam uma mudança significativa na composição do mercado de trabalho. A previsão considera diferentes fatores, não apenas a inteligência artificial.
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Falsos médicos criados por IA revelam ameaça tecnológica

O impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho não se limita à substituição de tarefas executadas por profissionais. A tecnologia também permite criar personagens que simulam especialistas e ocupam espaços tradicionalmente associados a pessoas com formação e experiência profissional.

Um caso revelado pela BBC News Brasil mostra como esse modelo já funciona no país. Uma investigação identificou 29 canais em português no YouTube que utilizavam médicos fictícios criados por inteligência artificial para publicar vídeos sobre saúde e bem-estar. Juntos, os canais acumulavam mais de 70 milhões de visualizações.

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Os personagens apareciam de jaleco, falavam com voz tranquila e afirmavam ter anos de experiência ou especializações médicas. Na prática, eram avatares produzidos digitalmente. Os roteiros podiam ser elaborados com ferramentas como o ChatGPT, enquanto a voz e a imagem eram geradas por sistemas de inteligência artificial.

Médicos falsos viralizavam principalmente entre idosos | Foto: Reprodução

O conteúdo seguia uma estratégia de produção em escala: vídeos com títulos alarmistas, promessas de soluções simples para problemas de saúde e recomendações direcionadas principalmente ao público idoso. Além das visualizações, alguns canais também utilizavam a audiência para promover produtos e vender materiais digitais.

A investigação encontrou relatos de pessoas que acreditaram estar recebendo orientações de médicos reais. Entre os comentários analisados, havia usuários que afirmavam ter substituído medicamentos prescritos por alternativas caseiras ou alterado tratamentos após assistir aos vídeos.

O episódio evidencia uma consequência que vai além da automação profissional. Com ferramentas acessíveis, a inteligência artificial pode reproduzir a aparência, a voz e a linguagem de uma profissão sem reproduzir a formação, a responsabilidade e a experiência necessárias para exercê-la. O resultado é uma disputa pela confiança do público, na qual a aparência de autoridade pode ser fabricada em poucos minutos.

Avanço da qualidade da IA tem se tornado um desafio na diferenciação para o público comum | Foto: Reprodução

O caso também levanta questões sobre exercício ilegal da medicina, falsa identidade e responsabilidade das plataformas digitais. Em outubro de 2026, o Google informou à Advocacia-Geral da União que havia removido 46 canais e 11 vídeos com falsos médicos criados por IA, após uma notificação do governo brasileiro.

Assim, a discussão sobre o futuro do trabalho ganha outra dimensão: além de perguntar quais profissões podem ser substituídas por máquinas, é necessário observar o que acontece quando a tecnologia permite que qualquer pessoa simule exercer uma profissão, inclusive aquelas que exigem formação específica e responsabilidade sobre a vida de outras pessoas.

A ameaça já aparece no mercado brasileiro

No Brasil, a exposição à inteligência artificial alcança uma parcela expressiva da população ocupada. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), baseado em metodologia da Organização Internacional do Trabalho (OIT), estimou que aproximadamente 30 milhões de trabalhadores estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa no terceiro trimestre de 2025. O número corresponde a cerca de 29,6% da população ocupada no período.

Isso não significa que todos esses profissionais perderão seus empregos. A exposição indica que parte das tarefas exercidas pode ser realizada, auxiliada ou transformada por sistemas de inteligência artificial. O efeito depende do tipo de atividade, da forma como as empresas adotam a tecnologia e da possibilidade de combinar o trabalho humano com as ferramentas digitais.

A distribuição também não é uniforme. Segundo o estudo, mulheres, jovens e profissionais com maior escolaridade apresentam níveis mais elevados de exposição. Os setores de informação, comunicação e serviços financeiros aparecem entre os mais alcançados pela transformação.

Inteligência artificial já faz parte da vida de profissionais e estudantes | Foto: Reprodução

Jovens enfrentam dificuldades nas primeiras oportunidades

Um dos sinais mais relevantes está no início da carreira. Um estudo conduzido pelo pesquisador Daniel Duque, do FGV Ibre, com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), identificou uma redução na empregabilidade e na renda de jovens de 18 a 29 anos que atuam em ocupações mais expostas à inteligência artificial.

A análise comparou trabalhadores com perfis semelhantes entre 2022, antes da popularização do ChatGPT, e 2025. Os resultados apontaram que os jovens mais expostos à tecnologia tinham uma chance de emprego quase 5% menor em relação ao cenário anterior à popularização dessas ferramentas. A renda relativa do grupo também apresentou diferença negativa próxima de 7%.

O impacto aparece principalmente em tarefas administrativas, de apoio e de suporte, atividades frequentemente utilizadas como porta de entrada para o mercado de trabalho. São funções que envolvem organização de informações, produção de documentos, atendimento inicial e processos padronizados tarefas que sistemas de IA já conseguem executar ou acelerar.

O pesquisador ressalta, porém, que o período analisado ainda é curto e que os resultados precisam ser interpretados com cautela. Outros fatores econômicos também podem influenciar as contratações e a renda. Ainda assim, os dados levantam uma preocupação: se as empresas reduzirem a contratação de profissionais iniciantes porque parte de suas tarefas pode ser automatizada, os jovens terão menos oportunidades de adquirir experiência e avançar na carreira.

IA cria um paradoxo na busca de empregos: Jovens devem buscar aprender sobre o máximo de IA que puderem, ao mesmo tempo que elas são usadas para substituírem os trabalhos básicos | Foto: Reprodução

Quais profissões podem resistir mais à automação?

A transformação não deve atingir todas as ocupações da mesma maneira. Profissões que dependem de contato humano, presença física, responsabilidade direta, julgamento contextual e capacidade de lidar com situações imprevisíveis apresentam desafios diferentes para a automação.

É o caso de atividades ligadas à saúde, ao cuidado de pessoas, à educação, à manutenção, à construção civil e a diversos serviços presenciais. Nessas áreas, a inteligência artificial pode auxiliar no diagnóstico, no planejamento, na organização e na tomada de decisões, mas nem sempre consegue substituir a atuação humana.

Educação e áreas que exigem contato e interação humana devem continuar crescendo | Foto: Reprodução

O relatório do Fórum Econômico Mundial aponta que funções relacionadas ao cuidado, à educação, à agricultura e à entrega estão entre as áreas com expectativa de crescimento até 2030. Ao mesmo tempo, ocupações administrativas e outras atividades rotineiras aparecem entre as mais pressionadas pelas mudanças tecnológicas.

Isso não significa que essas profissões estejam completamente protegidas. Mesmo em setores com forte presença humana, ferramentas digitais podem alterar processos, reduzir tarefas burocráticas e exigir novas qualificações.

Entregadores também tem projeção de crescimento, mas gigantes já buscam inovações nos meios | Foto: Reprodução

A inteligência artificial substitui profissões ou transforma tarefas?

Uma das principais diferenças no debate está entre automatizar uma ocupação inteira e substituir apenas parte das atividades que compõem aquele trabalho. Em muitos casos, a tecnologia não elimina imediatamente a necessidade de um profissional, mas modifica sua rotina e reduz o tempo dedicado a determinadas tarefas.

Um advogado, por exemplo, pode utilizar ferramentas de IA para organizar documentos e localizar informações em processos. Um jornalista pode recorrer à tecnologia para transcrever entrevistas, estruturar dados e auxiliar na pesquisa. Na área financeira, sistemas automatizados podem executar análises preliminares e organizar relatórios.

O problema surge quando a empresa passa a precisar de menos pessoas para realizar o mesmo volume de trabalho. O ganho de produtividade pode representar novas oportunidades em algumas áreas, mas também pode reduzir contratações em outras.

Por isso, a discussão não se limita à possibilidade de uma máquina executar determinada tarefa. Envolve também quem terá acesso às novas oportunidades, quais trabalhadores conseguirão se adaptar e como os ganhos econômicos da tecnologia serão distribuídos.

O desafio de se preparar para um mercado em transformação

A expansão da inteligência artificial tende a valorizar competências que complementam o funcionamento das ferramentas digitais. Pensamento crítico, criatividade, comunicação, capacidade de resolver problemas, conhecimento técnico e tomada de decisão estão entre as habilidades que ganham importância nesse cenário.

Aprender a utilizar sistemas de IA também passa a ser uma exigência em diferentes áreas. No entanto, a adaptação não pode depender exclusivamente do trabalhador. Empresas, instituições de ensino e governos têm papel importante na formação profissional, na atualização de currículos e na criação de caminhos para quem precisa migrar de atividade.

A tecnologia pode abrir novas oportunidades, mas a transição não acontece de maneira automática nem garante que os trabalhadores deslocados encontrarão vagas equivalentes. Entre a promessa de produtividade e o risco de desemprego, existe uma disputa concreta sobre como o mercado de trabalho será reorganizado.

A inteligência artificial não precisa substituir todos os profissionais para transformar profundamente o emprego. Basta alterar as tarefas, reduzir equipes em determinadas funções e mudar os critérios de contratação. Para quem está tentando entrar no mercado, essa mudança pode ser especialmente decisiva.

Entenda o contexto

92 milhões de empregos: é o número de postos que o Fórum Econômico Mundial estima que poderão ser deslocados globalmente até 2030, diante de diferentes transformações econômicas e tecnológicas.

170 milhões de novas vagas: é a projeção de empregos que poderão ser criados no mesmo período, resultando em saldo positivo estimado de 78 milhões.

Cerca de 30 milhões de brasileiros: estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa no terceiro trimestre de 2025, segundo levantamento do FGV Ibre.

Jovens mais vulneráveis: estudo do FGV Ibre identificou menor empregabilidade e renda relativa entre brasileiros de 18 a 29 anos em ocupações mais expostas à tecnologia.

Exposição não é demissão automática: a IA pode substituir tarefas, complementar o trabalho humano ou modificar a estrutura de uma profissão, dependendo da atividade e da adoção pelas empresas.