Desigualdade custa mais de R$ 370 bilhões por ano ao Brasil e freia economia
Estudo aponta perdas provocadas pela discriminação e pela violência; autores defendem que reduzir desigualdades também é uma estratégia para aumentar a produtividade e o crescimento.

A desigualdade social no Brasil representa um obstáculo que vai além da pobreza e da concentração de renda: também compromete o crescimento econômico, reduz a produtividade e provoca perdas bilionárias. Um estudo dos economistas Michael França e Daniel Duque estima que os custos associados à discriminação e à violência ultrapassam R$ 370 bilhões por ano, mostrando como problemas sociais afetam diretamente o desenvolvimento do país.
Os dados fazem parte das discussões reunidas no livro “Os Custos das Desigualdades: uma carta às elites econômicas”. Para os autores, combater as diferenças de oportunidades não é apenas uma questão de justiça social. Também é uma estratégia econômica para ampliar mercados, aproveitar talentos e fortalecer a capacidade produtiva brasileira.
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O levantamento realizado pelos economistas em parceria com o Instituto Ethos e o Núcleo de Estudos Raciais do Insper (NERI) identifica diferentes impactos econômicos da exclusão social.
Entre os resultados, a discriminação contra pessoas LGBTQIAPN+ no mercado de trabalho representa uma perda estimada de R$ 94,4 bilhões por ano, equivalente a 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB). O estudo também aponta R$ 14,6 bilhões em impostos que deixam de ser arrecadados em razão da discriminação profissional.
Outro componente importante é a violência. Os custos associados à segurança, saúde, Justiça e perdas de produtividade chegam a aproximadamente R$ 285 bilhões anuais, segundo a pesquisa.
Como a desigualdade prejudica a economia?
Na avaliação dos autores, uma sociedade desigual desperdiça parte de seu potencial econômico porque milhões de pessoas enfrentam barreiras para estudar, trabalhar, empreender e ocupar posições de maior responsabilidade.
Esse cenário reduz o aproveitamento de talentos, limita o consumo e restringe o tamanho do mercado interno. Empresas também podem perder produtividade quando não conseguem acessar profissionais qualificados ou enfrentam ambientes marcados pela discriminação e pela falta de confiança.
A violência acrescenta outro custo: recursos que poderiam financiar investimentos e ampliar oportunidades precisam ser direcionados à segurança, ao atendimento de vítimas e à reparação de perdas sociais.
Responsabilidade fiscal e combate à pobreza podem caminhar juntos
O debate também envolve a relação entre responsabilidade fiscal e desigualdade social. Para os economistas, não existe necessariamente uma contradição entre controlar as contas públicas e reduzir a pobreza.
Uma política fiscal bem planejada pode revisar privilégios, melhorar a eficiência dos gastos e preservar investimentos capazes de ampliar oportunidades. A redução de desigualdades também pode favorecer o crescimento da produtividade e contribuir para uma economia mais dinâmica.
O desafio brasileiro é construir políticas que conciliem equilíbrio das contas públicas, educação, inclusão profissional e desenvolvimento econômico. A discussão proposta pelos autores é que enfrentar a desigualdade não representa apenas uma obrigação social: significa também reduzir obstáculos que impedem o país de crescer.


