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EUA e Irã avançam para acordo histórico em Genebra neste domingo

Estados Unidos e Irã se aproximam neste domingo (14) da assinatura de um acordo diplomático em Genebra, na Suíça, após uma semana de negociações discretas. O entendimento busca destravar impasses que se arrastam há mais de uma década e redesenhar a relação entre os dois países. Anunciado às margens dos preparativos da cúpula do G7, o possível pacto mexe com expectativas em capitais de todo o mundo.

Genebra vira palco paralelo ao G7

As conversas ganham corpo a poucos quilômetros dos escritórios onde técnicos finalizam o comunicado final do G7, que será realizado na França. Em salas reservadas de um hotel em Genebra, delegações dos dois países avançam ponto a ponto em temas como sanções econômicas, segurança regional e canais de diálogo permanente.

Negociadores descrevem um clima “cautelosamente otimista” após pelo menos 40 horas de reuniões formais desde a segunda-feira (8). O formato é enxuto, com cerca de 15 participantes de cada lado, divididos em três grupos: segurança, comércio e política externa. Um diplomata europeu que acompanha as conversas resume o momento: “Não é mais uma troca de acusações, é uma discussão de prazos e garantias”.

O desenho do acordo ainda não é público, mas fontes envolvidas falam em um documento com validade inicial de cinco anos, renovável, e revisões a cada 12 meses. O objetivo central é reduzir o risco de incidentes militares no Golfo Pérsico, abrir espaço para transações comerciais controladas e reconstruir canais diplomáticos desmontados desde a saída dos EUA do pacto nuclear, em 2018.

O que está em jogo para a segurança e a economia

A possível assinatura do acordo tem impacto direto na segurança global e nos mercados de energia. O diálogo envolve regras para o tráfego no Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, segundo estimativas da Agência Internacional de Energia. Um erro de cálculo nessa rota pode disparar o preço do barril em questão de horas.

Um assessor ligado à equipe americana afirma que o texto em discussão inclui “mecanismos de comunicação rápida” entre as marinhas dos dois países. A ideia é evitar incidentes como os registrados em 2019 e 2020, quando navios-tanque foram atacados na região, pressionando o barril acima de US$ 70. “Estamos falando de um sistema que permite resolver um mal-entendido em minutos, não em semanas”, diz.

No campo econômico, o Irã tenta garantir alguma previsibilidade para suas exportações de petróleo e gás, hoje limitadas por sanções que, segundo autoridades de Teerã, reduziram em mais de 50% a receita anual do setor. Washington condiciona qualquer alívio a inspeções internacionais mais rígidas em instalações sensíveis e a compromissos claros de não interferência em conflitos regionais.

Analistas ouvidos por instituições financeiras europeias calculam que, em um cenário de flexibilização gradual, até 1 milhão de barris de petróleo iraniano por dia poderiam voltar ao mercado em 12 a 18 meses. Esse volume ajudaria a segurar pressões inflacionárias em grandes economias importadoras, entre elas países da Europa, China, Índia e Brasil.

Histórico de desconfiança e modelo para outros conflitos

A aproximação atual ocorre após anos de escalada retórica, sanções sucessivas e episódios militares que alimentam a desconfiança mútua desde a Revolução Islâmica de 1979. Em 2015, o acordo nuclear negociado com potências globais parecia inaugurar uma fase mais estável, mas a retirada dos Estados Unidos três anos depois devolveu a relação ao terreno da incerteza.

Diplomatas envolvidos nas conversas em Genebra insistem que o novo texto não repete o modelo de 2015. A prioridade agora é mais ampla: estabelecer regras mínimas de convivência e um cronograma verificável para cada lado. “Não é um casamento, é um cessar-fogo político de longo prazo”, afirma um negociador do Oriente Médio, sob condição de anonimato.

Esse desenho interessa a outros governos que lidam com conflitos prolongados. Chancelerias em Ancara, Riad e Tel Aviv acompanham cada sinal de avanço, preocupadas com o impacto sobre alianças militares e acordos de defesa. A avaliação é que, se Washington e Teerã conseguirem manter um canal estável por ao menos dois anos, formatos semelhantes podem ser testados em outros tabuleiros sensíveis, como Ucrânia e Península Coreana.

Nem todos, porém, veem o processo com entusiasmo. Grupos contrários em ambos os países já se movimentam para minar a percepção de consenso. Em Teerã, correntes mais duras acusam o governo de “ceder demais” em troca de benefícios econômicos que podem demorar. Em Washington, parlamentares pressionam por cláusulas mais rígidas e prazos claros para eventuais punições, caso o Irã descumpra compromissos.

Reação dos mercados e pressão da opinião pública

Os mercados financeiros operam em compasso de espera. Contratos futuros de petróleo reagem a cada vazamento sobre os termos do pacto, com variações diárias de até 3% desde o início de junho. Empresas do setor de energia e de tecnologia de defesa acompanham as discussões, calculando como um degelo nas relações pode alterar cadeias de suprimentos e contratos bilionários.

Setores ligados a infraestrutura, telecomunicações e equipamentos industriais também enxergam oportunidades em um Irã menos isolado, especialmente se partes das sanções comerciais forem suspensas já em 2027. Executivos consultados por consultorias internacionais falam em projetos na casa de US$ 10 bilhões em cinco anos, caso o ambiente regulatório se estabilize.

A opinião pública, por sua vez, se alimenta de versões parciais. Em cidades iranianas, a expectativa por alívio econômico convive com o temor de novas frustrações, caso o acordo seja revisto por um próximo governo americano. Nos Estados Unidos, debates na televisão e nas redes sociais opõem quem vê o diálogo como chance para evitar novas guerras e quem considera qualquer concessão um risco de segurança.

Próximos passos e incertezas

As delegações trabalham com um cronograma apertado. A meta é concluir o texto final até o fim do dia em Genebra, o que significa pouco mais de 12 horas de margem. O anúncio oficial, se houver, deve ocorrer antes da abertura formal da cúpula do G7, na próxima semana, na França.

Até lá, cada concessão precisa sobreviver a dois testes: a resistência de setores internos nos dois países e a reação de aliados estratégicos, especialmente no Oriente Médio. Mesmo que o documento seja assinado, especialistas lembram que a fase mais difícil começa depois, com a aplicação, a fiscalização e a disposição política de cumprir o combinado.

As próximas semanas indicarão se Genebra entra para a lista de momentos de virada na relação entre EUA e Irã ou se será mais um capítulo de expectativa frustrada. O texto que pode surgir hoje tem potencial de influenciar a geopolítica das próximas décadas. A dúvida é se as duas capitais estão dispostas a sustentar esse compromisso quando as pressões internas voltarem a crescer.

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