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EUA matam líder do Tren de Aragua em ataque na Venezuela, diz Trump

As Forças Armadas dos Estados Unidos matam nesta sexta-feira (12) Héctor Rusthenford Guerrero Flores, o Niño Guerrero, líder do grupo criminoso Tren de Aragua, em operação na Venezuela. O anúncio parte do presidente Donald Trump, que fala em ataque “rápido e letal” coordenado com o governo venezuelano.

Trump exibe ataque e fala em “refúgio negado”

Donald Trump torna pública a operação em uma mensagem na plataforma Truth Social, na noite de 12 de junho de 2026. Ele afirma que o Comando Sul dos EUA executa um ataque “cinético rápido e letal” que “executa com sucesso” o líder do Tren de Aragua. O presidente compartilha ainda um vídeo que mostra um projétil atingindo um prédio, seguido de explosão e chamas.

“Sob minhas ordens, o Comando Sul dos Estados Unidos realizou um ataque cinético rápido e letal para executar com sucesso Niño Guerrero, o infame líder do Tren de Aragua, uma das organizações terroristas mais sanguinárias do planeta”, escreve Trump. Em seguida, ele ressalta a cooperação com Caracas: “A ação foi coordenada em estreita colaboração com nossos amigos na Venezuela, com quem estamos trabalhando muito bem”.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, reforça a versão em publicação no X, antigo Twitter. Ele diz que a captura ocorre “no início desta semana”, sem detalhar o local, o dia exato nem o tipo de armamento usado. “Esta ação reforça o compromisso compartilhado entre os Estados Unidos e a Venezuela no combate aos narcoterroristas e na negação de qualquer refúgio seguro para eles em nosso hemisfério”, afirma.

Até o momento, Casa Branca, Pentágono e Comando Sul evitam entrevistas e notas detalhadas. Não há confirmação independente sobre o ponto exato da Venezuela em que o ataque acontece, nem sobre o número de mortos na ofensiva. A ausência de versões oficiais mais completas abre espaço para dúvidas, mas não altera, por ora, o tom de vitória adotado pelo governo americano.

Golpe em rede criminal que se espalha pelas Américas

Niño Guerrero, de 43 anos, se transforma, ao longo de duas décadas, no rosto mais conhecido do Tren de Aragua. O Departamento de Estado dos EUA oferece recompensa de até US$ 5 milhões (cerca de R$ 25,3 milhões) por informações que levassem à sua captura. Em dezembro, um tribunal federal de Nova York o acusa de conspiração para cometer extorsão, apoio a atividades terroristas e outros crimes ligados ao crime organizado internacional.

Procuradores americanos descrevem uma organização que nasce em uma prisão venezuelana e se expande para vários países da América do Sul, da América do Norte e também para a Europa. Sob comando de Guerrero Flores, o grupo controla rotas de tráfico de drogas, redes de extorsão, sequestro, tráfico de pessoas, contrabando de migrantes, mineração ilegal e lavagem de dinheiro. Em 2020, o centro de pesquisa InSight Crime estima cerca de 1.000 integrantes diretamente subordinados às ordens do líder, quase todos operando a partir da prisão de Tocorón.

A trajetória de Guerrero expõe a interseção entre colapso estatal e fortalecimento de facções. Nascido em 1983 em Maracay, no estado de Aragua, ele aparece em registros policiais no início dos anos 2000. Em 2005, é acusado de atirar em um policial que morre em seguida. Preso em 2010 por crimes relacionados a homicídio, tráfico de drogas e roubo, foge em 2012, é recapturado em 2013 e volta a Tocorón. Atrás das grades, em vez de perder poder, se torna o principal “pran”, o chefe prisional mais influente da Venezuela.

A influência se mede também pelos privilégios. Relatos mostram Guerrero morando em uma casa de dois andares dentro do presídio, com acesso a piscina, campo de beisebol, discoteca, restaurantes e até zoológico. Imagens e reportagens indicam que ele circula livremente, recebe visitas sem restrição e comanda negócios ilegais para além dos muros. Em 2015, aparece em festa em um bairro controlado pelo grupo em Maracay, onde se apresenta como líder do Tren de Aragua e promete “melhorar” a vida dos moradores.

Em setembro de 2023, o governo venezuelano anuncia uma grande operação para retomar Tocorón. Militares exibem imagens de celas esvaziadas e estruturas de luxo desmontadas. Relatos da imprensa local e de organizações independentes, porém, apontam que as lideranças recebem aviso prévio e deixam o presídio com armas e dinheiro. Guerrero não é encontrado. A partir daí, o Tren de Aragua amplia presença em minas de ouro no estado de Bolívar, próximo à fronteira com o Brasil, e consolida rotas pelo Caribe e por passagens clandestinas entre Venezuela e Colômbia.

A expansão segue, em boa parte, o fluxo da migração venezuelana após a crise humanitária e econômica de 2014. Autoridades ligam o grupo a facções brasileiras como PCC e Comando Vermelho, sobretudo em Roraima, e a estruturas criminosas no Equador, algumas associadas ao cartel mexicano de Sinaloa. Na Colômbia, investigações citam relações com membros do Exército de Libertação Nacional (ELN). Esse mosaico transforma o Tren de Aragua em peça central do narcotráfico regional, hoje oficialmente classificado pelos EUA como organização terrorista.

Impacto na segurança regional e debate jurídico

A morte de Niño Guerrero atinge o topo da cadeia de comando dessa rede, mas não encerra a ameaça. Especialistas em crime organizado apontam que o Tren de Aragua opera em células espalhadas e com lideranças intermediárias, o que pode garantir alguma continuidade das atividades. Em um primeiro momento, analistas esperam disputas internas e violência localizada, enquanto diferentes grupos tentam ocupar o espaço deixado pelo líder morto.

Para os governos envolvidos, o resultado é apresentado como demonstração de força e sinal de alinhamento. Trump afirma que, “como resultado, os terroristas do Tren de Aragua não têm mais refúgio seguro na Venezuela ou em qualquer outro lugar”. O tom ecoa a estratégia adotada nos últimos meses, em que as Forças Armadas americanas realizam dezenas de ataques contra embarcações que, segundo Washington, integram uma grande operação de envio de drogas aos EUA. Desde setembro, mais de 200 pessoas morrem nessas ações, de acordo com a imprensa americana.

Organizações de direitos humanos e especialistas em direito internacional contestam a legalidade dessa campanha. Críticos apontam ausência de provas públicas de que todas as embarcações atingidas transportam drogas ou integrantes de cartéis, e questionam o enquadramento automático das tripulações como “combatentes”. Em declaração ao Congresso no ano passado, a Casa Branca afirma que Trump “determina” que os EUA estão em conflito armado formal com cartéis de drogas, o que, na visão do governo, justificaria o uso de força letal sem captura e julgamento prévios.

O ataque contra Guerrero se insere nesse quadro. Ao falar em “narcoterroristas” e em envio de criminosos “para as profundezas do inferno”, o presidente americano reforça uma narrativa de guerra sem fronteiras contra facções. Esse discurso mobiliza apoio interno, mas também aumenta o risco de escalada e de erros com vítimas civis em outros países. Para vizinhos como Brasil, Colômbia e Equador, a morte do líder venezuelano pode reduzir parte da coordenação central do Tren de Aragua, mas também abrir espaço para rivalidades locais e novas alianças.

Reorganização do crime e próximos passos da cooperação

Autoridades de segurança na América Latina monitoram agora os sinais de rearranjo da facção. Em Estados brasileiros da região Norte, onde há registros de presença do Tren de Aragua, policiais avaliam a possibilidade de represálias e tentam identificar quem assume a linha de frente após a morte do chefe. Órgãos de inteligência também observam eventuais mudanças nas rotas de tráfico de drogas, armas e pessoas, em especial nas fronteiras secas.

Governos tendem a usar o episódio como vitrine de resultados e justificativa para reforçar políticas de cooperação em segurança. A operação conjunta entre Washington e Caracas, que ocorre meses depois da captura de Nicolás Maduro por militares americanos em Caracas e sua transferência para Nova York, marca novo capítulo na relação conturbada entre os dois países. A forma como essa parceria avança, e se se estende a outros grupos armados na região, ajuda a definir o equilíbrio entre combate ao crime e respeito a fronteiras e normas internacionais.

No curto prazo, a morte de Guerrero enfraquece um símbolo de impunidade que comandava negócios ilícitos mesmo dentro de uma prisão de segurança formalmente reforçada. No médio prazo, a pergunta permanece: a ofensiva liderada pelos EUA desestrutura de fato o Tren de Aragua ou apenas acelera a metamorfose de uma rede que já aprendeu a sobreviver a prisões, fugas e operações espetaculares?

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