EUA ampliam sanções e miram núcleo de poder do regime cubano
O governo Donald Trump amplia, a partir de 1º de maio de 2026, o cerco econômico e diplomático contra Cuba. Uma nova ordem executiva autoriza sanções primárias e secundárias contra indivíduos, empresas e aliados ligados ao regime socialista, sob acusação de corrupção, violações graves de direitos humanos e apoio a grupos militantes como Hezbollah e Irã.
Washington sobe o tom e testa limites da crise cubana
A Casa Branca mira agora o coração do aparato de segurança cubano. As sanções passam a alcançar pessoas, entidades e afiliados que sustentam as forças de repressão interna, além de agentes, funcionários ou apoiadores do governo em Havana. Autoridades americanas afirmam que o objetivo declarado é punir cúmplices de corrupção e abusos de direitos humanos e pressionar por mudanças políticas na ilha.
A ordem, divulgada inicialmente pela agência Reuters, não detalha de imediato quais nomes entram na lista de punições. O texto, porém, abre espaço para uma aplicação ampla: qualquer pessoa ou empresa que realize ou facilite transações com alvos já sancionados pode ser atingida por sanções secundárias. Na prática, bancos e companhias estrangeiras que lidam com Cuba passam a enfrentar risco maior de punições dos EUA.
A medida se insere em uma escalada que se acelera desde o início de 2026. Em 3 de janeiro, após a deposição de Nicolás Maduro em Caracas, Washington suspende as exportações de petróleo venezuelano para Cuba. Meses depois, Trump ameaça impor tarifas punitivas a qualquer país que envie petróleo bruto para a ilha, o que leva o México, outro fornecedor relevante, a interromper os embarques.
O efeito imediato aparece nas bombas e na rede elétrica. A escassez de combustíveis provoca ao menos três grandes apagões em nível nacional, derruba a oferta de transporte e leva companhias aéreas estrangeiras a suspender voos para Havana. Com a nova rodada de sanções sobre o entorno financeiro e de segurança do regime, a pressão tende a avançar para setores ainda poupados da crise.
Pressão sobre aparato de segurança aprofunda isolamento da ilha
A administração Trump apresenta a ordem executiva como resposta direta ao alinhamento de Cuba com o Irã e com grupos como o Hezbollah. Ao anunciar as medidas, um alto funcionário americano descreve a ilha como plataforma avançada para adversários estratégicos. “Cuba oferece um ambiente permissivo para operações hostis de inteligência estrangeira, militares e terroristas a menos de 160 quilômetros do território continental americano”, afirma.
O governo dos EUA sustenta essa narrativa com um histórico de exigências que remonta à década de 1960. Washington cobra indenizações por propriedades expropriadas após a revolução liderada por Fidel Castro, pede a abertura da economia estatal e insiste em eleições “livres e justas”. Havana responde de forma recorrente que o modelo socialista não está em negociação e acusa os EUA de manter um bloqueio econômico “asfixiante”.
O novo pacote aprofunda esse impasse. Ao mirar indivíduos e empresas que financiam ou protegem o aparato de segurança, os EUA buscam fragilizar a estrutura que sustenta o controle político interno. Organizações de direitos humanos que monitoram a ilha apontam que detenções arbitrárias, vigilância permanente e repressão a dissidentes dependem justamente desse núcleo de poder. A expectativa em Washington é que a falta de recursos torne mais caro sustentar esse sistema.
Empresários estrangeiros que operam em turismo, telecomunicações e serviços financeiros veem o risco jurídico aumentar. Qualquer vínculo indireto com uma figura ligada ao governo pode acionar sanções secundárias e bloquear o acesso ao sistema financeiro americano, ainda central em mais de 80% das transações internacionais em dólar. Escritórios de advocacia em Miami e Nova York já relatam, em caráter reservado, clientes revisando contratos com parceiros cubanos.
Cerco geopolítico se estende do Caribe ao Oriente Médio
As sanções contra Cuba não ocorrem em isolamento. Sob Trump, os EUA invadem Caracas para prender Nicolás Maduro e realizam ataques contra embarcações na costa venezuelana. Em paralelo, Washington e Israel travam uma guerra aberta contra o Irã desde 28 de fevereiro, o que reposiciona o tabuleiro regional. Ao declarar que “Cuba é o próximo alvo”, o presidente conecta a ilha diretamente a esse eixo de confronto.
A nova ordem executiva funciona como aviso a outros governos latino-americanos próximos de Havana e Teerã. Países que mantêm cooperação energética, militar ou de inteligência com Cuba podem enfrentar custos adicionais, seja em forma de tarifas, seja em forma de sanções específicas a autoridades locais. A mensagem a investidores e bancos é igualmente clara: qualquer proximidade com o regime cubano passa a carregar um prêmio de risco maior.
Futuro de Cuba entra em zona de incerteza
O impacto econômico pleno ainda depende da lista final de nomes e empresas sancionados e da disposição de aliados dos EUA, como União Europeia e Canadá, em seguir o mesmo caminho. Se Washington conseguir apoio coordenado, o regime cubano verá suas margens de manobra financeira encolherem de forma acelerada nos próximos 12 a 24 meses.
Em Havana, a tendência é que o governo use as novas sanções para reforçar o discurso de resistência nacionalista e culpar Washington pela crise. Esse movimento pode adiar reformas internas e endurecer a repressão a opositores, mesmo diante da pior escassez de combustíveis em anos e de apagões recorrentes. Entre a pressão externa e o fechamento político interno, a pergunta que se impõe é até quando a população cubana suportará o custo dessa disputa geopolítica.
