Irã planeja usar golfinhos armados e cortar cabos no estreito de Ormuz
O Irã prepara um plano para usar golfinhos treinados e equipados com minas contra navios americanos no estreito de Ormuz a partir de 2026. A estratégia inclui o envio de submarinos e a ameaça de cortar cabos submarinos de telecomunicações, elevando o risco de um choque direto com os Estados Unidos em uma das rotas mais sensíveis do planeta.
Golfinhos, submarinos e a nova pressão no Golfo
O plano, revelado por autoridades ouvidas pelo jornal americano Wall Street Journal, insere a fauna marinha em um tabuleiro já marcado por embargos, sanções e demonstrações militares. Em meio à pressão econômica do bloqueio imposto por Washington, Teerã estuda transformar os golfinhos em vetores de ataque, capazes de se aproximar de cascos de navios e acionar minas explosivas em uma área por onde passam, em média, cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.
As ações fazem parte de um pacote de respostas pensado pelo regime iraniano para 2026, ano em que, segundo analistas, novas sanções e eventuais mudanças de governo nos Estados Unidos podem redefinir o equilíbrio de forças no Golfo Pérsico. A Guarda Revolucionária, braço mais ideológico e militarizado do regime, coloca na mesa o uso combinado de golfinhos, submarinos de pequeno e médio porte e sabotagens a infraestruturas críticas, como os cabos submarinos que cruzam o estreito de Ormuz.
O estreito, com apenas cerca de 40 quilômetros em seu ponto mais estreito, conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao oceano Índico. Em dias de fluxo normal, dezenas de petroleiros e navios cargueiros cruzam as águas sob vigilância de embarcações de guerra dos Estados Unidos, do Reino Unido e de aliados regionais, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. É nesse ambiente congestionado e altamente monitorado que o Irã pretende introduzir uma arma difícil de detectar e de neutralizar: animais treinados para transportar ou acoplar minas a cascos de navios rivais.
O uso militar de mamíferos marinhos não é inédito. Desde a década de 1960, a antiga União Soviética e os Estados Unidos testam golfinhos para patrulha, detecção de minas e proteção de portos. A diferença agora, segundo especialistas, está no caráter ofensivo dos planos iranianos e no contexto de um bloqueio econômico descrito por Teerã como “guerra por outros meios”. Em entrevista ao Wall Street Journal, o pesquisador Hamidreza Azizi afirma que, na capital iraniana, o bloqueio “é cada vez mais visto não como um substituto para a guerra, mas como uma manifestação diferente dela”.
Azizi avalia que esse clima de cerco empurra a liderança iraniana para opções mais arriscadas. “Como resultado, os tomadores de decisão iranianos podem em breve passar a considerar a retomada do conflito como menos custosa do que continuar a suportar um bloqueio prolongado”, diz. A frase ajuda a dimensionar o salto de qualidade representado pela combinação de ataques com golfinhos, submarinos e sabotagens cibernéticas e físicas em cabos de comunicação.
Risco para petróleo e internet em escala global
O estreito de Ormuz é hoje uma artéria da economia mundial. Estimativas recentes indicam que, em anos de fluxo estável, cerca de 17 milhões de barris de petróleo cruzam diariamente a passagem. Qualquer interrupção prolongada, mesmo que parcial, tem potencial para elevar o preço do barril em dois dígitos em poucos dias, pressionando combustíveis, transporte e inflação em países distantes milhares de quilômetros do Golfo Pérsico.
O plano iraniano de cortar cabos submarinos adiciona uma camada ainda mais sensível à crise. Esses cabos, instalados ao longo de décadas, carregam mais de 90% do tráfego mundial de dados, incluindo telefonia, internet comercial, operações financeiras e comunicações entre governos. Uma ruptura em pontos estratégicos próximos a Ormuz poderia degradar conexões entre a Ásia, a Europa e partes da África, causando lentidão maciça, interrupções de serviços e prejuízos bilionários a bancos, bolsas de valores e plataformas digitais.
Para países que dependem do estreito para exportar ou importar petróleo, como Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Catar, qualquer ação iraniana que ameace a navegação representa risco direto de perda de receita e instabilidade fiscal. Para os Estados Unidos, que mantêm cerca de 5 mil militares na região do Golfo em bases e navios, um ataque contra embarcações ou infraestruturas ligadas ao país pode se transformar, em poucas horas, em casus belli, gatilho formal para escalada militar.
Especialistas em direito internacional lembram que ataques deliberados a cabos submarinos podem ser interpretados como agressão contra múltiplos Estados, já que essas redes são, em muitos casos, consórcios que envolvem empresas e governos de diferentes continentes. O Irã, que já enfrenta sanções amplas do Tesouro americano e restrições à venda de petróleo desde 2018, arrisca ampliar seu isolamento em fóruns como o Conselho de Segurança da ONU caso avance nesse tipo de sabotagem.
A dimensão ética do uso de animais em combate também deve ganhar espaço no debate. Organizações de defesa dos direitos dos animais tendem a denunciar o emprego de golfinhos como “munição viva”, submetidos a treinamento exaustivo e a alto risco de morte. Militares costumam responder que programas desse tipo seguem protocolos de bem-estar, mas a fronteira entre uso e abuso se torna ainda mais nebulosa quando a função atribuída ao animal é, literalmente, detonar explosivos junto a um alvo.
Escalada controlada ou choque direto à frente
A partir de 2026, a pergunta central para diplomatas e estrategistas será até onde Teerã está disposto a ir na prática. O governo iraniano usa o estreito de Ormuz há pelo menos quatro décadas como instrumento de pressão, ameaçando fechar a passagem ou reter navios em resposta a embargos e pressões sobre seu programa nuclear. A diferença agora está na sofisticação dos meios propostos e no alcance global dos danos potenciais, tanto no mercado de energia quanto nas redes digitais.
Os Estados Unidos podem reagir reforçando escoltas navais a petroleiros, redesenhando rotas de dados e acelerando projetos de cabos alternativos que contornem o Golfo. Países europeus, dependentes de petróleo e gás do Oriente Médio, tendem a pressionar por uma via diplomática que reduza o risco de confrontos diretos, enquanto grandes importadores asiáticos, como China, Índia, Japão e Coreia do Sul, calculam os custos de uma interrupção parcial em seu suprimento energético.
No campo interno iraniano, a continuidade das sanções, somada a uma inflação alta e ao desemprego, alimenta a narrativa de que o país está sob ataque econômico. Essa percepção fortalece alas mais duras do regime, que veem a demonstração de força militar como forma de recuperar prestígio regional e de dissuadir novas punições. O uso de ferramentas pouco convencionais, como golfinhos armados, também serve como recado simbólico: o Irã está disposto a explorar todas as brechas possíveis em um cenário de assimetria de poder diante dos Estados Unidos.
A comunidade internacional observa o movimento com preocupação. A cada novo exercício militar na região, cresce o temor de um erro de cálculo, de um míssil disparado por engano ou de uma explosão atribuída ao lado errado. Em um estreito por onde circulam bilhões de dólares em petróleo, dados e influência geopolítica, a dúvida que permanece é se o Irã e os Estados Unidos conseguirão manter a disputa abaixo do ponto de combustão ou se os golfinhos armados de hoje se tornarão, em breve, o estopim de um conflito mais amplo.
