Ultimas

Irã planeja usar golfinhos com minas e cortar cabos no estreito de Ormuz

O Irã prepara, até 2026, uma estratégia inédita no estreito de Ormuz: usar golfinhos armados com minas, submarinos e ameaças a cabos submarinos contra navios dos Estados Unidos. O plano, revelado por autoridades ao Wall Street Journal, busca furar o bloqueio naval americano e aumentar a pressão econômica e política sobre Washington.

Estreito vital, tática extrema

O estreito de Ormuz concentra cerca de 20% do petróleo comercializado por mar no mundo. Em alguns dias, mais de 70 navios-tanque cruzam o canal de pouco mais de 50 quilômetros de largura na parte mais estreita. Cada interrupção, mesmo breve, costuma provocar alta imediata no preço do barril e tensão entre grandes potências.

Nesse cenário, Teerã passa a ver o bloqueio americano não apenas como sanção econômica, mas como forma de guerra em andamento. A aposta em golfinhos treinados para levar minas até o casco de navios militares, combinada com o uso intensivo de submarinos e ameaças aos cabos submarinos de telecomunicações, eleva o nível de risco em uma área que já é considerada uma das mais sensíveis do planeta.

A lógica da escalada iraniana

As linhas gerais da estratégia aparecem em análises de militares e especialistas ouvidos pelo Wall Street Journal. A previsão é que a capacidade total dessa nova doutrina, que mescla guerra naval clássica, uso de animais treinados e sabotagem de infraestrutura crítica, esteja pronta em 2026. O calendário coincide com o aprofundamento dos efeitos das sanções e do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos desde o governo Donald Trump, a partir de 2018.

Teerã vinha usando a ameaça de fechar o estreito como instrumento de pressão, com abordagens esporádicas a cargueiros e apreensões pontuais de navios. Agora, o cálculo muda. “Em Teerã, o bloqueio é cada vez mais visto não como um substituto para a guerra, mas como uma manifestação diferente dela”, afirma o pesquisador Hamidreza Azizi, especialista em Oriente Médio, ao jornal. Na leitura dele, a cúpula iraniana começa a considerar que retomar o confronto direto pode custar menos do que suportar, por mais anos, um bloqueio prolongado que corrói receita de exportações, reservas em moeda forte e capacidade de investimento interno.

O uso de golfinhos em operações militares não é novo no mundo. Estados Unidos e Rússia já admitiram programas de mamíferos marinhos treinados para localizar minas, vigiar áreas portuárias e, em alguns casos, neutralizar mergulhadores inimigos. A diferença, no caso iraniano, está na disposição de empregar esses animais como vetores de ataque direto a navios de guerra, em uma rota por onde passam, diariamente, dezenas de bilhões de dólares em petróleo e mercadorias.

Cabos submarinos no alvo

O componente mais sensível do plano iraniano atinge uma infraestrutura quase invisível para o público, mas central para a economia global: os cabos submarinos de telecomunicações. Mais de 95% do tráfego internacional de dados corre por cerca de 400 cabos espalhados pelo planeta. Alguns deles passam justamente pelas proximidades do estreito de Ormuz, conectando o Golfo Pérsico à Europa, à Ásia e à África.

Uma ruptura planejada de poucos cabos poderia afetar comunicações de internet, serviços em nuvem e parte das transações financeiras internacionais que dependem de conexões rápidas e estáveis. Especialistas alertam que, mesmo com rotas alternativas, a perda de capacidade em um ponto tão estratégico geraria lentidão, instabilidade e, em cenários extremos, interrupções regionais de serviços bancários, plataformas digitais e sistemas logísticos. O impacto poderia ser sentido em bolsas de valores, companhias de transporte e redes de energia que usam controle remoto.

A Guarda Revolucionária sinaliza que considera esse tipo de alvo legítimo em resposta ao bloqueio americano. A ameaça deixa em alerta não apenas Washington, mas também capitais europeias e asiáticas, que dependem dos fluxos de dados e de energia que atravessam o Golfo. Um episódio de sabotagem dessa escala empurraria o tema da proteção de cabos submarinos para o centro da agenda de defesa de países da OTAN e de potências como China e Índia.

Risco de choque direto e impacto global

A implementação do plano descrito por autoridades e analistas configura uma escalada calculada. Ao multiplicar a presença de submarinos no estreito e testar táticas assimétricas, o Irã tenta compensar a superioridade tecnológica da frota americana. O uso de golfinhos com minas complica operações de vigilância, porque reduz a previsibilidade dos movimentos de ataque e explora justamente os limites da detecção por radares e sonares.

Para os Estados Unidos, qualquer ataque a um navio militar ou a um cargueiro sob sua proteção exigiria resposta rápida. A possibilidade de erros de cálculo se amplia em um corredor onde marinhas de vários países operam em distância de poucos quilômetros, em águas estreitas e congestionadas. Um incidente com vítimas americanas ou um choque envolvendo embarcações do Golfo teria potencial para disparar, em questão de horas, uma cadeia de retaliações e contra-ataques.

O mercado de petróleo, que já reage a boatos de tensão no Golfo com variações diárias, tende a ficar ainda mais sensível conforme 2026 se aproxima e sinais de preparação iraniana se tornam mais visíveis. Um fechamento temporário de Ormuz, mesmo por 48 horas, poderia somar vários dólares ao preço do barril e redesenhar projeções de inflação em países importadores, entre eles o Brasil. Empresas de transporte marítimo, seguradoras e tradings de commodities acompanham o movimento com atenção redobrada.

O que está em jogo até 2026

Os próximos meses serão decisivos para medir até onde Teerã está disposto a ir. A negociação indireta com Washington sobre sanções, acordos nucleares e influência regional entra em nova fase sob a sombra desse plano naval. Se o Irã avançar na preparação de golfinhos militares, em exercícios com submarinos e em infraestrutura para atacar cabos submarinos, a pressão por uma resposta coordenada de Estados Unidos e aliados tende a crescer.

A dúvida central é se a ameaça se mantém como instrumento de barganha ou se se converte em ação concreta no mar. O cálculo de custo e benefício, hoje, parece pender para a escalada, como indicam as avaliações de especialistas iranianos. A decisão final, porém, depende de um equilíbrio delicado entre sobrevivência econômica, ambições regionais e o risco de um confronto aberto que poderia redesenhar, de forma duradoura, o mapa energético e digital do planeta.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *