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Estudo explica por que a Grande Pirâmide resiste a terremotos

Pesquisadores egípcios identificam, nesta quinta-feira (22), a razão estrutural que permite à Grande Pirâmide de Quéops atravessar séculos de terremotos quase intacta. O estudo, publicado na revista Scientific Reports, mostra que a forma como a pirâmide vibra impede que ela entre em colapso durante grandes tremores.

Frequências diferentes, mesma sobrevivência

No planalto de Gizé, a poucos quilômetros do Cairo, a cena se repete há gerações: terremotos sacodem a região, prédios desabam, fachadas racham, famílias perdem suas casas. A Grande Pirâmide, com 4.600 anos, permanece de pé com danos mínimos. O novo trabalho do Instituto Nacional de Pesquisa em Astronomia e Geofísica do Egito (NRIAG) tenta explicar por quê.

A equipe instalou sismômetros em 37 pontos dentro e ao redor da pirâmide de Quéops. Os equipamentos registram vibrações quase imperceptíveis, provocadas tanto por fenômenos naturais quanto pela atividade humana. A ideia é simples: entender como o monumento responde aos menores tremores para projetar o que acontece quando a Terra se move com força.

Os dados revelam que a pirâmide vibra naturalmente a cerca de 2,3 ciclos por segundo, ou 2,3 hertz. O solo em volta oscila em um ritmo bem mais lento, perto de 0,6 hertz. Essa diferença é decisiva. Se as duas frequências coincidissem, a estrutura entraria em ressonância, efeito em que cada abalo reforça o seguinte, como um balanço empurrado no tempo certo. A energia se acumularia até romper pedras e juntas.

Mohamed ElGabry, pesquisador do NRIAG e autor principal do estudo, resume o quadro. “Descobrimos que a maior parte da Grande Pirâmide vibra naturalmente a cerca de 2,3 ciclos por segundo. Isso nos diz que ela é extremamente bem construída e uniforme; comporta-se como uma única estrutura sólida, e não como muitas peças separadas”, afirma. “Imagine como um balanço: toda estrutura tem um ritmo preferido no qual vibra com mais facilidade.”

Na prática, quando o chão se move durante um terremoto, a pirâmide não acompanha o mesmo compasso. O resultado é que a energia sísmica não se amplifica dentro do monumento. Ela se distribui pela massa colossal dos blocos, perde força e se dissipa sem causar colapso.

Conhecimento antigo, respostas novas

O Egito vive terremotos importantes pelo menos desde o período islâmico, documentado com mais precisão. Dois deles, em 1847 e 1992, ajudam a dimensionar a resistência do monumento. O tremor de 1992, de magnitude 5,8, deixou mais de 560 mortos e danificou milhares de edifícios modernos. A Grande Pirâmide registrou apenas a perda de algumas pedras de revestimento, segundo relatos históricos.

ElGabry lembra que o corpo principal da pirâmide, formado por cerca de 2,3 milhões de blocos de calcário e granito, segue estruturalmente sólido. “Registros históricos indicam que o terremoto soltou muitas das pedras de revestimento restantes das pirâmides de Gizé e alguns blocos caíram. No entanto, o corpo principal da Grande Pirâmide permaneceu praticamente intacto e estruturalmente sólido”, diz.

Os números ajudam a entender a escala do feito. A pirâmide se ergue a cerca de 146 metros de altura em sua forma original e pesa algo em torno de 6 milhões de toneladas. Ainda assim, o estudo mostra que o conjunto se comporta como um único corpo, sem grandes zonas soltas ou descoladas. Isso contrasta com prédios de alvenaria comum, em que paredes, lajes e pilares respondem de forma desigual aos tremores.

Asem Salama, sismólogo do NRIAG e autor sênior do trabalho, vê nesse comportamento a marca de uma engenharia refinada. “Os construtores egípcios antigos claramente possuíam conhecimento prático relacionado a estabilidade, comportamento de fundações, distribuição de massa e transferência de cargas”, afirma. Para ele, o grande mérito do estudo é quantificar esse conhecimento empírico com medições atuais e modelos numéricos.

As medições sugerem que a fundação da pirâmide foi escolhida e preparada para reduzir a deformação durante tremores. A base larga espalha o peso de forma uniforme. Os blocos maiores ficam mais próximos do solo, com peças menores à medida que a estrutura se afina. Essa distribuição de massa desvia tensões e evita pontos fracos concentrados.

O trabalho também reforça que a ausência de espaços vazios significativos, exceto câmaras internas bem definidas, contribui para a robustez. Ao contrário de edifícios com grandes vãos livres, que tendem a balançar mais, a pirâmide se comporta como um sólido compacto, difícil de ser empurrado até o limite de ruptura.

Impacto para engenharia e patrimônio

A pesquisa vai além da curiosidade sobre um monumento milenar. Ao explicar por que a pirâmide de Quéops resiste a terremotos, o estudo alimenta o debate sobre como construir cidades mais seguras em regiões sísmicas. Engenheiros de estruturas olham com atenção para três lições principais: desacoplar a frequência de vibração dos prédios em relação ao solo, distribuir massa com cuidado e evitar descontinuidades que concentram esforços.

Em países que enfrentam tremores frequentes, como Japão, Chile e Turquia, projetos atuais já preveem dispositivos para “enganar” a ressonância, como isoladores sísmicos instalados na base dos edifícios. A pirâmide mostra que, séculos antes da teoria moderna, construtores egípcios alcançam efeito semelhante com escolha de materiais, forma geométrica e fundação.

O estudo também fortalece a política de conservação de Gizé. Conhecer com precisão como a estrutura responde a vibrações ajuda a definir limites para obras viárias, novas linhas de metrô e fluxo de turistas. Intervenções que alterem o comportamento do solo, mesmo a dezenas de metros, podem aproximar frequências e aumentar riscos que hoje parecem remotos.

Para o setor de turismo, que recebe milhões de visitantes por ano na região do Cairo, a pesquisa funciona como um argumento adicional de fascínio. A pirâmide não é apenas um túmulo monumental do faraó Khufu. É um laboratório vivo em escala gigantesca, em que técnicas ancestrais seguem desafiando a engenharia moderna.

Arqueólogos também ganham um novo ponto de partida. A possibilidade de que os construtores tenham observado o comportamento do terreno durante séculos, ajustando forma e inclinação, reforça a visão de que grandes obras do Egito antigo resultam de experimentação longa, não de um único projeto genial isolado no tempo.

Novas perguntas para uma estrutura milenar

A equipe do NRIAG planeja ampliar as medições para outras pirâmides do planalto de Gizé e de diferentes períodos da história egípcia. A ideia é comparar estilos construtivos, frequências naturais e respostas a tremores para montar um mapa de evolução da engenharia antiga ao longo de séculos.

Pesquisadores discutem ainda parcerias com universidades estrangeiras para testar modelos inspirados na pirâmide em túneis de vento e mesas vibratórias, equipamentos que simulam terremotos em escala reduzida. O objetivo é traduzir princípios gerais, como a forte união entre blocos e a relação entre base e altura, em parâmetros aplicáveis a projetos contemporâneos.

As próximas etapas incluem medições durante pequenos tremores reais, inevitáveis em uma região de atividade sísmica moderada. Esses eventos oferecem a chance de validar, na prática, o que hoje aparece em gráficos de laboratório. Cada novo dado ajuda a responder uma questão antiga: até que ponto os egípcios sabiam o que faziam e quanto resultado é fruto de intuição, tentativa e erro?

Enquanto essas respostas não chegam, a imagem permanece. No horizonte empoeirado de Gizé, prédios modernos mostram cicatrizes de tremores que matam centenas de pessoas em poucos segundos. A pirâmide de Quéops, a mesma há 4.600 anos, segue firme, como se lembrasse diariamente que conhecimento e tempo, quando se encontram, podem ser mais resistentes do que a própria terra que treme sob seus blocos.

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