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Xi e Putin selam aliança contra hegemonia dos EUA em Pequim

Xi Jinping e Vladimir Putin reforçam nesta quarta-feira (20) em Pequim uma aliança estratégica contra o que chamam de hegemonia dos Estados Unidos, em meio a guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. Em visita de Estado de cerca de 24 horas, os líderes assinam uma nova declaração conjunta, defendem um mundo “multipolar” e atacam diretamente o plano de defesa antimísseis do governo Trump.

Pequim exibe sintonia com Moscou após cúpula com Trump

O encontro ocorre uma semana depois de Xi receber Donald Trump para uma cúpula tratada como histórica em Pequim. Ao acolher, em menos de dez dias, os presidentes das duas maiores potências nucleares rivais, o líder chinês tenta se projetar como mediador indispensável em um cenário que descreve como “turbulento e em transformação”.

No Grande Palácio do Povo, diante de honras militares, salva de tiros e fileiras de crianças com bandeiras vermelhas e tricolores, Xi chama a relação com Moscou de força de “calma em meio ao caos”. Fala em “correntes hegemônicas unilaterais desenfreadas” e, sem citar Washington, mira a política externa americana. “A situação internacional é marcada por turbulências e transformações interligadas”, afirma, segundo a mídia estatal chinesa, antes de defender uma “coordenação estratégica abrangente” entre os dois países.

Putin responde na mesma chave. Diz que o vínculo entre China e Rússia atinge “um nível sem precedentes” e se converte em um dos “principais fatores de estabilização no cenário internacional”. Em clima calculado de camaradagem, o russo recorre até a um provérbio chinês — “Um dia separados parece três outonos” — para sublinhar a proximidade pessoal com Xi. É a 25ª visita oficial de Putin à China em cerca de 25 anos de poder em Moscou.

Declaração conjunta mira Trump, Oriente Médio e América Latina

A peça central da viagem é a assinatura de uma nova declaração conjunta. O documento, padrão nas visitas de Estado de Putin a Pequim e ausente na passagem de Trump pela capital chinesa, reafirma a busca por um “mundo multipolar” e traz críticas diretas à estratégia militar dos EUA. No trecho mais sensível, os dois governos atacam o projeto americano de defesa antimísseis conhecido como “Cúpula de Ouro”.

“As partes acreditam que o projeto ‘Cúpula de Ouro’ dos EUA representa uma ameaça clara à estabilidade estratégica”, registra o texto, segundo o Kremlin. “Estes planos negam completamente o princípio fundamental de manutenção da estabilidade estratégica, que exige a interligação inseparável de armas estratégicas ofensivas e defensivas.” A cobrança aprofunda uma disputa de anos sobre o equilíbrio nuclear, agora reacendida em meio a conflitos simultâneos na Europa e no Oriente Médio.

A guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã ganha espaço central na conversa. Xi afirma que um “fim precoce” das hostilidades é vital para reduzir perturbações no fornecimento de energia, nas cadeias de abastecimento e no comércio global. “A cessação total da guerra não admite demoras, o reinício das hostilidades é ainda menos desejável e a persistência nas negociações é particularmente importante”, diz o líder chinês.

Outro trecho do comunicado acusa diretamente Washington e Tel Aviv de minarem a estabilidade do Oriente Médio ao “lançarem descaradamente ataques militares contra outros países” e “usarem as negociações como pretexto enquanto na verdade se preparam para a ação”. Os dois também citam o “assassinato de líderes de Estados soberanos”, em referência ao ataque que mata o antigo líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, e expõe o grau de confrontação retórica com o Ocidente.

As críticas transbordam para outros tabuleiros. Na América Latina e no Caribe, Xi e Putin declaram apoio ao “estatuto da região como zona de paz” e dizem se opor a qualquer interferência externa em assuntos internos da área. Falam em “raptar à força e julgar um chefe de Estado”, numa alusão ao ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, capturado pelos EUA e levado para responder a processos criminais, e sinalizam que veem o continente como terreno de disputa direta com Washington.

Economia, tecnologia e o novo equilíbrio de poder

A parceria sino-russa se apoia em dados concretos. Desde a invasão em grande escala da Ucrânia, em 2022, a China se torna o principal destino das exportações de energia da Rússia e uma fonte vital de receitas para o governo Putin. As sanções ocidentais redesenham o comércio russo e aprofundam a dependência do país em relação ao mercado chinês, em especial para petróleo, gás e equipamentos industriais.

Neste encontro em Pequim, os dois líderes anunciam a assinatura de cerca de 20 acordos, segundo a imprensa estatal chinesa, sem detalhar valores. Energia, indústria, agricultura, transportes e alta tecnologia estão na lista de prioridades, conforme antecipado por Putin. Em meio à crise no Oriente Médio, o presidente russo insiste em se apresentar como fornecedor “confiável” de recursos, enquanto descreve a China como “consumidora responsável”.

Os governos também prolongam até o fim de 2027 o regime de viagens sem visto para cidadãos de ambos os países e prometem aprofundar a cooperação em inteligência artificial. Na prática, a agenda reforça o deslocamento de Moscou em direção ao leste, ao mesmo tempo em que oferece a Pequim uma rede de segurança energética e militar num momento de incerteza sobre o acesso a petróleo no Golfo.

Por trás da coreografia milimétrica, a assimetria de forças pesa. A economia russa, sob pressão de sanções e combates, encolhe e se ancora cada vez mais na China, que registra taxas de crescimento menores, mas ainda robustas diante da estagnação europeia. Dias antes da chegada de Putin, a Ucrânia lança mais de 500 drones contra Moscou, no maior ataque à capital russa em mais de um ano, e recupera parte do território perdido, segundo analistas militares. O cenário reduz a margem de manobra do Kremlin e amplia o poder de barganha de Xi.

Os dois líderes exploram o simbolismo da data. Neste ano, Moscou e Pequim celebram o 25º aniversário do Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável, firmado em 2001 para encerrar disputas de fronteira e abrir um ciclo de aproximação estratégica. Uma exposição fotográfica conjunta de Xinhua e TASS, batizada de “Amizade Inquebrável de Grandes Nações, Parceria Estratégica de Grandes Potências”, completa o roteiro e projeta a mensagem de que o alinhamento não é circunstancial.

Divisão mais profunda e disputas pela ordem global

A visita de Putin a Pequim não resolve as guerras que reconfiguram o mapa geopolítico, mas sinaliza uma divisão mais nítida entre blocos de poder. Ao atacar simultaneamente o escudo antimísseis americano, a ofensiva de EUA e Israel contra o Irã e a atuação de Washington na América Latina, China e Rússia procuram se apresentar como contraponto a um Ocidente descrito como intervencionista e imprevisível.

Nos bastidores da diplomacia, a aliança pressiona aliados dos EUA na Europa e na Ásia a recalcular riscos, em especial no campo da segurança e da tecnologia. O avanço de projetos conjuntos em inteligência artificial, energia e defesa tende a acelerar a formação de cadeias paralelas de suprimentos, com impacto direto sobre empresas de alta tecnologia, indústria de armamentos e mercado global de energia.

No curto prazo, a aproximação dá fôlego econômico a Moscou e amplia o raio de influência de Pequim em organismos internacionais e negociações de paz, da Ucrânia ao Oriente Médio. No longo prazo, a aposta em um mundo “multipolar” coloca à prova a capacidade de China e Rússia de sustentar essa convergência diante de interesses que nem sempre coincidem, como o controle de rotas na Ásia Central e o acesso a recursos no Ártico.

Xi e Putin deixam o Grande Palácio do Povo sem anúncios espetaculares, mas com uma mensagem clara aos EUA: as duas potências pretendem falar em bloco quando o tema for segurança global. A resposta de Washington, de seus aliados na Otan e de potências intermediárias como Índia, Brasil e Turquia vai determinar se a cúpula desta quarta-feira entra para a história como ponto de virada da ordem internacional ou como mais um capítulo na lenta erosão da hegemonia americana.

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