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Renan Santos mira Lula, Marçal e Bolsonaro e busca espaço em 2026

Renan Santos, pré-candidato do partido Missão, ligado ao MBL, ataca de Lula a Pablo Marçal neste sábado (23/5), em painel do Fórum Esfera, no Guarujá. Ao adotar discurso de confronto e provocar líderes de diferentes campos políticos, tenta se firmar como alternativa na disputa presidencial de 2026.

Discurso de ataque em fórum empresarial

O salão do hotel que recebe o Fórum Esfera, no litoral paulista, lota de empresários, executivos e políticos quando Renan Santos sobe ao palco. Aos 40 e poucos anos, ele tenta usar o microfone para furar a bolha do Movimento Brasil Livre, o MBL, e se apresentar como presidenciável competitivo. A vitrine é cobiçada: o evento reúne, em dois dias, nomes cotados para a eleição de 2026 e representantes de setores que concentram bilhões em investimentos.

Renan escolhe a rota do confronto. Critica o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atinge Pablo Marçal, expoente da direita religiosa, e mira também a família Bolsonaro. Ao falar com jornalistas depois do painel, sintetiza sua tentativa de ressignificar a direita. “Ser de direita pode dizer, sim, ter projeto e ter caráter”, afirma, em tom de desafio tanto aos adversários de esquerda quanto aos concorrentes no próprio campo conservador.

O pré-candidato conta um episódio de infância para marcar distância de Lula. Lembra de uma partida de futebol, nos anos 1990, em que encontra o então sindicalista e o xinga da arquibancada. A anedota serve de pretexto para projetar um eventual embate direto em 2026. Ele diz que, se chegar ao segundo turno, derrota o petista nos debates. A fala ecoa entre aliados como gesto calculado para ocupar espaço em um cenário ainda dominado pela memória do embate Lula x Bolsonaro em 2018 e 2022.

Aposta em ruptura com a polarização tradicional

O partido Missão, criado a partir da estrutura política do MBL, tenta se credenciar como opção liberal e de direita que rejeita tanto o governo petista quanto o bolsonarismo. O grupo emerge em 2015 com protagonismo nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff e, desde então, busca se consolidar nas urnas. Em 2022, o MBL apoia diferentes candidaturas, mas não consegue romper a barreira da polarização nacionalizada.

No Fórum Esfera, Renan tenta reescrever essa trajetória. Ele usa o palco para questionar o “sistema político vigente”, expressão que repete em conversas reservadas com empresários e em entrevistas no corredor do evento. O alvo não é apenas o Planalto ocupado pelo PT, mas também o arranjo de partidos médios que negociam cargos, emendas e apoio no Congresso. Ao incluir Marçal e a família Bolsonaro na linha de tiro, o pré-candidato procura se diferenciar de figuras que, na avaliação dele, exploram a indignação popular sem oferecer projeto consistente.

A estratégia mira um público difuso, mas numeroso. Pesquisas internas de partidos e institutos privados, realizadas ao longo de 2024 e 2025, apontam fatias significativas do eleitorado que rejeitam Lula e também não desejam a volta de Bolsonaro. Esse contingente, estimado em mais de 30% em alguns cenários testados, ainda não se organiza em torno de um nome único. Renan tenta se colocar como a expressão política desse cansaço com o Fla-Flu ideológico que marca pelo menos as últimas três disputas presidenciais.

O discurso de ruptura, porém, convive com os limites concretos da candidatura. O Missão é um partido novo, com tempo de TV reduzido e fundo partidário menor que o de siglas tradicionais como PT, PL e PSD. Em 2024, o Tribunal Superior Eleitoral distribui cerca de R$ 5 bilhões em recursos eleitorais; a legenda de Renan fica com uma fração pequena desse total, o que obriga a campanha a buscar financiamento privado dentro das regras vigentes e a investir na presença digital, herança da atuação do MBL nas redes.

Impacto no tabuleiro eleitoral e risco de reação

As declarações no Fórum Esfera circulam com rapidez em grupos de WhatsApp de militantes e assessores de campanhas concorrentes. Aliados de Lula veem na provocação uma tentativa de puxar o presidente para o centro do ringue antes da hora, ainda em 2026, quando o governo busca exibir resultados econômicos e consolidar aliados regionais. No entorno petista, a prioridade segue sendo conter a inflação e ampliar investimentos em programas sociais, mas a entrada de mais um nome de direita na disputa força ajustes na estratégia de comunicação.

Entre bolsonaristas, a leitura é ambígua. Há quem enxergue em Renan um concorrente direto pelo voto antipetista urbano e escolarizado, com forte presença nas capitais do Sudeste. Outros minimizam o alcance do pré-candidato, lembrando que Jair Bolsonaro ainda influencia um eleitorado fiel e pode transferir votos a um sucessor, mesmo inelegível. Pablo Marçal, que constrói base própria entre evangélicos e empreendedores, tende a responder nas redes, terreno em que acumula milhões de seguidores e alto engajamento diário.

Especialistas em comunicação política ouvidos nos bastidores do evento avaliam que o tom agressivo de Renan pode ajudá-lo a ganhar visibilidade imediata, mas traz risco de cristalizar rejeição precoce. Em 2022, candidatos que apostam em ataques frontais sem estrutura nacional sólida não ultrapassam a casa de um dígito nas urnas. A incógnita é se o desgaste acumulado da polarização, somado à fadiga com escândalos de corrupção e crises econômicas recorrentes desde 2014, abre espaço para um outsider de perfil combativo, porém mais técnico.

A repercussão nas redes sociais é o primeiro termômetro. Perfis alinhados à esquerda destacam a anedota de infância como desrespeito ao presidente e tentam colar em Renan a imagem de radical. Influenciadores de direita replicam apenas o trecho em que ele defende que “ser de direita” significa ter projeto e caráter, associando o discurso a uma tentativa de renovação do campo conservador. O conteúdo rende milhares de interações em poucas horas, mas ainda não se traduz em pesquisas públicas de intenção de voto, que seguem concentradas nos nomes mais conhecidos.

Próximos movimentos e incertezas de 2026

Renan sai do Fórum Esfera com a sensação de ter cumprido o primeiro objetivo: entrar no radar do grande empresariado e dividir espaço de mídia com adversários mais estruturados. A equipe de campanha planeja, para os próximos meses, uma série de viagens por capitais como São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre, além de incursões em cidades médias do interior. A ideia é testar narrativas, ajustar o discurso de confronto e medir a receptividade de segmentos específicos, como jovens empreendedores e profissionais liberais.

O sucesso dessa estratégia depende de fatores que escapam ao controle do pré-candidato. A economia, o humor do eleitorado e o desempenho dos governos estaduais nas áreas de segurança pública e serviços básicos podem redefinir prioridades até o início oficial da campanha, em agosto de 2026. Se Lula mantiver apoio acima de 40% e a direita fragmentar o voto, Renan corre o risco de ficar restrito ao papel de coadjuvante barulhento. Se, ao contrário, o desgaste atingir tanto o governo quanto o bolsonarismo, abre-se espaço para um nome capaz de vocalizar o descontentamento sem repetir velhas fórmulas.

No fim da tarde no Guarujá, ao deixar o salão principal do Fórum Esfera, Renan ainda atende a pequenos grupos de curiosos e empresários. Reafirma que não pretende suavizar o discurso e que vê na eleição de 2026 uma chance “geracional” de reorganizar a direita brasileira. A campanha mal começa e já testa os limites dessa aposta: até onde o eleitor disposto a romper com o sistema aceita um candidato que, para ser ouvido, precisa antes gritar contra todos os lados?

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