Corpo decapitado em parque de BH é identificado como o de jovem de 23 anos
A Polícia Civil de Minas Gerais confirma nesta quarta-feira (29/4) que o corpo encontrado decapitado no Parque Ecológico Roberto Burle Marx, em Belo Horizonte, é de Kethlen Moreira Soares, de 23 anos. A jovem está desaparecida desde 3 de abril e é reconhecida inicialmente por familiares, por meio de tatuagens, antes da confirmação oficial por exame pericial.
Identificação confirma temor da família e acirra cobrança por respostas
O reconhecimento encerra quase quatro semanas de angústia para parentes e amigos da jovem, moradora da região do Barreiro. O corpo é localizado na tarde de 25 de abril, em uma área de mata do bairro Flávio Marques Lisboa, dentro do parque conhecido como Parque das Águas. Um funcionário que faz a limpeza do terreno encontra o cadáver em avançado estado de decomposição, com a cabeça a cerca de dois metros do restante do corpo.
Familiares de Kethlen correm ao local e fazem um reconhecimento preliminar por tatuagens na perna da jovem, mas só o exame papiloscópico, feito pela Polícia Civil, confirma a identidade. A técnica compara impressões digitais e é um dos principais métodos usados para identificar corpos em situações em que o rosto está desfigurado. A corporação ainda aguarda exames complementares, como análises de DNA e laudos finais de necropsia, antes de divulgar o resultado em nota oficial.
O caso é registrado como homicídio e fica a cargo da Delegacia de Homicídios de Belo Horizonte. Investigadores trabalham para reconstruir os últimos passos de Kethlen desde 3 de abril, data em que ela é vista pela última vez, e para definir se o crime ocorre dentro do parque ou se o corpo é apenas desovado no local. Até esta quarta-feira, não há suspeitos presos, nem linha de investigação divulgada publicamente.
Parque sob pressão e debate sobre segurança no Barreiro
A forma como o corpo é encontrado transforma o caso em símbolo de medo e abandono para quem vive no Barreiro. Moradores relatam sensação de vulnerabilidade, sobretudo entre mulheres jovens que usam o parque para lazer, esporte e projetos sociais. A brutalidade do crime, associado à decapitação, repercute nas redes sociais e em veículos de imprensa de outros estados, projetando a discussão para além de Belo Horizonte.
O parque abriga o projeto Viveiro Pedagógico Paulo Roberto e Agrofloresta das Águas, que atende semanalmente cerca de 50 crianças e adolescentes da Vila Cemig, em parceria entre o Instituto Macunaíma e a Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica (FPMZB). A proximidade do local onde o corpo é achado com a área do projeto aumenta a inquietação de pais e educadores. Representantes da iniciativa relatam que a vegetação alta, a falta de roçada regular e pontos de escuridão criam áreas pouco visíveis, onde quase ninguém circula.
As queixas não são novas. Moradores e entidades dizem que pedem desde antes de 2026 a instalação de mais câmeras de monitoramento, grades em pontos de fácil acesso, reforço da iluminação pública e presença permanente de porteiro na Portaria 2. O caso Kethlen funciona como gatilho para que essas demandas, antes restritas a ofícios e reuniões locais, cheguem ao plenário da Câmara Municipal.
A Comissão de Direitos Humanos, Habitação, Igualdade Racial e Defesa do Consumidor da Câmara realiza, na terça-feira (28/4), audiência pública para discutir a situação do parque. Denúncias detalham episódios recentes de abordagens suspeitas, arrombamento de banheiros e interrupção de rondas da Guarda Municipal. O vereador Pedro Patrus (PT), que preside a comissão, afirma que o problema ultrapassa os limites do Barreiro. “A cidade anda abandonada. Coincidentemente, um dos alvos dos cortes citados recentemente são exatamente os funcionários que cuidam dos nossos parques”, diz.
Prefeitura reage às críticas e promete avaliar reforço
Diante da pressão, a Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da FPMZB, sai em defesa da estrutura atual do Parque Ecológico Roberto Burle Marx. Em nota, a fundação afirma que o espaço conta hoje com oito câmeras de videomonitoramento “em pleno funcionamento”, integradas ao Centro Integrado de Operações de Belo Horizonte (COP-BH). As imagens, segundo a administração municipal, servem para identificar movimentações suspeitas e apoiar ações da segurança pública.
A prefeitura também sustenta que a manutenção do parque ocorre de forma contínua, com equipes diárias de limpeza, conservação e pequenos reparos. Sobre a segurança, informa que a Guarda Civil Municipal realiza rondas internas e no entorno, em horários definidos em conjunto com a gestão do parque e com a capacidade de efetivo disponível. Representantes de projetos sociais e moradores contestam a frequência dessas rondas e dizem que elas diminuem nos fins de semana e à noite, justamente nos períodos em que o medo é maior.
O caso reacende uma discussão recorrente nas grandes cidades brasileiras: até que ponto câmeras, patrulhamento e iluminação conseguem, sozinhos, impedir crimes violentos em espaços públicos. Especialistas ouvidos por entidades de direitos humanos argumentam que a combinação de corte de gastos, redução de quadro de servidores e crescimento da população em áreas periféricas amplia a pressão sobre parques urbanos, que passam a acumular funções de lazer, esporte e assistência social sem estrutura correspondente.
Pedro Patrus afirma que a comissão vai enviar novos ofícios ao Executivo, cobrando medidas urgentes. Entre elas, ampliação do monitoramento eletrônico, reforço da presença da Guarda Municipal, revisão da iluminação e garantia de equipe permanente dedicada ao parque. A prefeitura diz que avalia internamente os pedidos e que pretende discutir eventuais mudanças com a FPMZB e com a Secretaria Municipal de Segurança Urbana.
Investigação em curso e incertezas para moradores
Enquanto o debate político avança, a família de Kethlen espera respostas básicas: quem matou a jovem, por que ela foi morta e se o crime poderia ter sido evitado. A Delegacia de Homicídios analisa imagens de câmeras da região, escuta testemunhas e tenta cruzar dados de ligações e movimentação de celulares. O laudo final do Instituto Médico-Legal deve detalhar causa da morte, horário provável do crime e se há sinais de violência sexual.
A confirmação oficial da identidade, esperada para as próximas horas em comunicado da Polícia Civil, abre caminho para o sepultamento e para um eventual pedido de indenização da família ao poder público, se for comprovada omissão na segurança do parque. Também coloca o caso Kethlen no centro de um debate mais amplo sobre como Belo Horizonte cuida — ou deixa de cuidar — de seus espaços verdes em áreas de periferia.
A curto prazo, moradores e frequentadores aguardam ações visíveis: mais luz, mato baixo, portões controlados e presença constante de agentes uniformizados. A médio prazo, o desafio é evitar que o Parque das Águas se torne apenas mais um cenário de tragédia lembrado em datas de aniversário de crimes não solucionados. A resposta que autoridades dão agora, na investigação e na gestão do espaço, indica se a morte de Kethlen será tratada como um ponto de virada ou mais um caso esquecido nas estatísticas.
