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Polícia

Celular de Vorcaro revela 316 interações com Moraes nos dois meses anteriores à prisão

Levantamento identificou mensagens, ligações e registros do WhatsApp entre o banqueiro e o ministro do STF; Moraes contesta a autenticidade do material.

Celular de Vorcaro revela 316 interações com Moraes nos dois meses anteriores à prisão

O celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master, registra 316 interações com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), nos dois meses anteriores à primeira prisão do empresário, em novembro de 2025. A informação foi revelada nesta sexta-feira (6), após uma análise de dados recuperados do aparelho apreendido pela Polícia Federal. O material inclui mensagens de texto, imagens, chamadas e registros do próprio WhatsApp.

Segundo o levantamento, as interações ocorreram entre 17 de setembro e 17 de novembro de 2025. Desse total, 187 registros correspondem a mensagens enviadas por Vorcaro, enquanto outros 129 incluem mensagens atribuídas a Moraes e notificações produzidas pelo aplicativo. A reportagem também recuperou 17 mensagens inéditas, além das 52 comunicações anteriormente identificadas pela Polícia Federal.

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As novas informações ampliam os questionamentos sobre a relação entre o ex-controlador do Banco Master e o ministro do Supremo. Moraes já negou a existência das conversas atribuídas a ele e questionou a integridade do material. A defesa de Vorcaro também contesta aspectos da cadeia de custódia do aparelho, procedimento destinado a preservar a autenticidade das provas.

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Mensagens, contratos e encontros: o que a PF aponta na relação entre Moraes e Vorcaro

Como foram identificadas as 316 interações?

O UOL informou que analisou bancos de dados secundários do WhatsApp e registros mantidos pelo sistema operacional do iPhone de Daniel Vorcaro.

Esses arquivos podem conservar informações sobre comunicações mesmo depois que determinadas mensagens desaparecem da conversa principal do aplicativo.

Segundo a investigação jornalística, Vorcaro utilizava mensagens temporárias e recursos de visualização única, que dificultam a recuperação posterior do conteúdo.

O ex-banqueiro também teria apagado toda a conversa com Moraes em setembro de 2025. A exclusão prejudicou o acesso aos registros anteriores, mas não eliminou todas as informações armazenadas em outras áreas do aparelho.

Os jornalistas identificaram 316 interações no período analisado, além de dois registros administrativos relacionados à criptografia da conversa e à ativação de mensagens temporárias.

É importante destacar que o número não representa 316 mensagens de texto integralmente recuperadas. A contagem inclui diferentes tipos de registros e notificações do sistema.

Mensagens inéditas indicam conversas pessoais

Entre as comunicações recuperadas está uma mensagem atribuída a Alexandre de Moraes, enviada em 24 de outubro de 2025.

O texto aparece como legenda de uma imagem que não pôde ser recuperada pelos jornalistas.

“Obrigado amigo. Nem dá pra perceber que não sou eu rsrs”

A mensagem foi apresentada como um dos registros que indicariam proximidade pessoal entre o ministro e o banqueiro.

Outros trechos divulgados mostram conversas sobre assuntos familiares e possíveis encontros.

Em 12 de novembro de 2025, Moraes teria escrito uma mensagem descontraída sobre a participação de pais na vida dos filhos. Vorcaro respondeu elogiando o ministro e pediu que enviasse cumprimentos à família.

As mensagens foram reconstruídas a partir de bancos secundários do WhatsApp. Parte desse material contém palavras armazenadas fora da ordem original, o que exige interpretação para reconstituir determinadas frases.

Por isso, o conteúdo divulgado representa a reconstrução apresentada pela reportagem, cuja autenticidade e interpretação são contestadas pelos envolvidos.

Mensagens apontam possível encontro três dias antes da prisão

Outro conjunto de registros envolve o dia 14 de novembro de 2025, três dias antes da primeira prisão de Daniel Vorcaro.

Naquela data, o banqueiro viajou de São Paulo para Brasília em uma aeronave particular.

As comunicações recuperadas indicam que Moraes teria perguntado se o empresário já havia pousado.

“Me avise quando pousar”

Vorcaro respondeu que estava em voo. Posteriormente, uma nova mensagem atribuída ao ministro perguntou se ele havia chegado ao destino.

Depois da confirmação do pouso, o registro apresenta outra comunicação relacionada ao deslocamento.

A sequência reforça a hipótese de que os dois estariam organizando um encontro presencial em Brasília.

Entretanto, os registros, isoladamente, não comprovam todos os detalhes de uma reunião, nem permitem concluir qual teria sido o assunto tratado.

Vorcaro teria pedido ajuda diante de medidas da Polícia Federal

O material também inclui mensagens anteriormente identificadas pela Polícia Federal nas quais Vorcaro demonstrava preocupação com possíveis medidas contra o Banco Master.

Segundo os investigadores, o empresário chegou a solicitar ajuda para tentar interferir no andamento de providências envolvendo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Em uma das mensagens atribuídas ao banqueiro, ele sugeriu que um possível adiamento de medidas poderia evitar consequências para a instituição financeira.

Os registros também mostram perguntas sobre a possibilidade de operações policiais e sobre a necessidade de deixar o país.

Essas mensagens integram o conjunto de elementos analisados no âmbito do caso Banco Master.

A existência dos pedidos atribuídos a Vorcaro, entretanto, não comprova que Moraes tenha atendido às solicitações ou realizado qualquer interferência irregular em investigações.

Contrato de R$ 130 milhões envolve escritório da esposa de Moraes

As comunicações ganharam relevância adicional por causa da relação comercial entre o Banco Master e o escritório de advocacia Barci de Moraes, ligado à família do ministro.

O banco contratou o escritório chefiado por Viviane Barci de Moraes, esposa do magistrado, em um acordo estimado em aproximadamente R$ 130 milhões.

O contrato previa serviços de assessoria jurídica à instituição financeira.

A existência da contratação é distinta das suspeitas levantadas sobre a relação pessoal entre Moraes e Vorcaro. Para caracterizar eventual irregularidade, seria necessário demonstrar uma conduta incompatível com os deveres legais e funcionais do ministro.

Em outubro, o presidente do STF, Edson Fachin, arquivou um pedido apresentado por advogados que solicitavam a investigação e o afastamento de Moraes.

A decisão foi fundamentada na falta de legitimidade dos autores para apresentar diretamente esse tipo de requerimento ao Supremo.

Fachin não analisou o mérito das acusações, e o arquivamento daquele pedido específico não representou uma conclusão sobre a existência ou inexistência de irregularidades.

Moraes nega conversas e questiona relatório da PF

Alexandre de Moraes já se manifestou contra as informações divulgadas anteriormente sobre mensagens atribuídas a ele.

O ministro afirmou que não havia comprovação de diálogos efetivos e questionou a maneira como os dados foram obtidos e interpretados.

“As ilações absurdas, que foram divulgadas como SUPOSTOS DIÁLOGOS entre Daniel Vorcaro e o Ministro Alexandre de Moraes, SIMPLESMENTE NÃO EXISTIRAM.”

Moraes também classificou o relatório da Polícia Federal como mentiroso e afirmou que o material teria sido produzido como uma forma de vingança por sua atuação nos processos relacionados à tentativa de golpe de Estado.

A defesa de Vorcaro, por sua vez, apresentou questionamentos sobre a cadeia de custódia do aparelho apreendido.

Procurados para comentar as novas informações, o ministro e os advogados do banqueiro não apresentaram manifestação até a publicação da reportagem.

As alegações das defesas deverão ser consideradas na avaliação da validade e do alcance probatório dos registros.

Próximos passos

O Supremo Tribunal Federal deverá avaliar os elementos relacionados às mensagens e decidir sobre os encaminhamentos cabíveis.

O material divulgado acrescenta informações às 52 mensagens anteriormente identificadas pela Polícia Federal, mas ainda existem trechos que não puderam ser recuperados.

Daniel Vorcaro permanece preso preventivamente no âmbito das investigações sobre o Banco Master. Em 5 de novembro, Edson Fachin solicitou manifestação da Procuradoria-Geral da República sobre pedidos apresentados pela defesa para revisar sua prisão.

A análise das comunicações atribuídas ao ministro e a discussão sobre a liberdade de Vorcaro são procedimentos distintos, embora relacionados ao mesmo conjunto de investigações.

Até o momento, os novos registros não representam uma decisão judicial sobre eventual responsabilidade de Alexandre de Moraes.