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Brasileiros na Austrália vivem rotina sob veto a redes para menores

Brasileiros que vivem na Austrália relatam, neste 31 de maio de 2026, como é a vida sob a lei que proíbe redes sociais para menores de 16 anos. Quase seis meses após o início do veto, o uso entre crianças e adolescentes cai, mas a fiscalização enfrenta brechas tecnológicas e familiares.

Rotina sob a primeira grande experiência de banimento

Carla Alzamora caminha pelos parques de Camberra com o filho, Caetano, de 13 anos, e percebe celulares um pouco mais silenciosos. Desde 10 de dezembro de 2025, a Austrália veta o acesso de menores de 16 anos a redes sociais, numa experiência que o governo vende como pioneira mundial na proteção digital de crianças e adolescentes.

Ela se mudou do Brasil em 2018 e sempre impõe limites às telas do filho. Caetano chegou a experimentar redes sociais por pouco tempo, antes da lei. “Mas eu logo cortei, antes mesmo da restrição do governo”, conta. A medida oficial apenas cristaliza uma decisão que a família já tomava em casa, mas altera o ambiente em volta.

O menino aprova a mudança, com ressalvas. “Acho muito bom que crianças e adolescentes estejam menos no celular”, diz. Ele nota, no entanto, uma aplicação irregular. “A proibição funcionou em alguns lugares e, em outros, não. Algumas redes sociais ficaram mais difíceis de acessar, mas ainda é possível entrar, e outros aplicativos nem tentaram cumprir a regra.”

O governo pressiona as grandes plataformas desde o fim de 2025. As empresas informam ter removido cerca de 4,7 milhões de contas de usuários de até 16 anos no país nesse período. A verificação de idade, porém, falha de forma previsível em um universo de identidades digitais infladas, VPNs e perfis emprestados por irmãos mais velhos.

Na casa de Carla, o efeito prático aparece nas conversas de Caetano com colegas. “Conhecemos menores de 16 anos que continuam tendo acesso a redes sociais. A proibição não é tanto ‘preto no branco’. Tem várias nuances”, resume. A família relata um mosaico de estratégias para driblar a norma, do uso de aplicativos menores, com checagem frágil, a mentiras simples na data de nascimento.

Brechas tecnológicas e disputas dentro de casa

As plataformas reagem de forma desigual. “O Snapchat, pelo que eu escuto dos adolescentes, é mais difícil de burlar, porque tem reconhecimento facial, então muitos amigos do meu filho pararam de usar”, diz Carla. Em serviços que dispensam esse tipo de checagem, ainda é relativamente simples abrir novas contas. “Mas, em geral, parece que o monitoramento está acontecendo. Recentemente, em uma viagem da turma da escola, soube que tentaram entrar no TikTok, mas a conta foi bloqueada.”

Caetano observa um cenário dividido entre seus pares. “Uma parte dos meus amigos ainda fica muito tempo nas redes sociais, é como se a proibição não tivesse funcionado”, relata. Ele percebe, ao mesmo tempo, colegas que reduzem o tempo online. “As crianças e os adolescentes estão desenvolvendo uma identidade própria, sem ficar nas redes sociais tentando ser como outras pessoas”, avalia.

O adolescente enxerga, porém, um custo social. “O veto reduz a comunicação online, a forma como interagimos”, diz. Para jovens que se sentiam mais à vontade em ambientes virtuais do que em rodas presenciais, essa ruptura pesa. “Se houver crianças e adolescentes que se sentiam mais confortáveis nas redes sociais, e não podem usá-las, isso pode afetá-los.”

Em Sydney, Manoela Pace vive um conflito semelhante, só que mais ruidoso. Ela mora na Austrália há mais de 20 anos e viu a filha de 13 anos, Juana, reagir com resistência quando o banimento começa. “Quando houve o banimento, explicamos para ela que era uma determinação do governo, que não havia discussão. Foi difícil, porque ela já tinha redes sociais, principalmente TikTok e Snapchat. Até hoje ela reclama bastante”, conta.

Juana fala em ambivalência. “Tenho uma opinião meio dividida”, afirma. “Obviamente eu entendo por que estão fazendo isso, mas eu não acho que esse seja o jeito certo. Em vez de tirarem as crianças e os adolescentes das redes sociais, deveriam tirar os predadores, o pessoal estranho da internet.”

A menina sente o baque na rotina social. “A proibição está realmente atrapalhando a minha vida, porque todos os meus amigos ainda têm redes sociais, sou uma das únicas que não têm”, reclama. Ela diz se sentir deslocada nas conversas da escola. “Quando estão falando sobre algo da internet que não entendo, me sinto excluída. Nunca respondem às minhas mensagens de texto, e isso é muito difícil.”

Manoela acompanha o incômodo, mas considera a restrição necessária. Ela acredita que meninas da idade de Juana ainda não conseguem lidar com a pressão estética e a lógica de comparação permanente. “Sempre me preocupei com o fato de a Juana, como muitas meninas da idade dela, ficar ligada demais em autoimagem, consumindo vídeos de maquiagem.” A lei acaba funcionando como um aliado externo nessa disputa doméstica.

Experimento sob escrutínio global

A experiência australiana acontece em meio a um movimento mais amplo de revisão do papel das redes sociais na infância e na adolescência. Indonésia adota um banimento semelhante em março de 2026. Malásia programa a medida para junho. A Grécia já define janeiro de 2027 como data de início. Dinamarca avança em restrições graduais, enquanto França e Reino Unido discutem projetos de lei inspirados nesse modelo.

No Brasil, o debate se intensifica. O ECA Digital, em vigor desde março, não proíbe redes para menores de 16 anos, mas exige padrões de segurança. Serviços que atingem crianças e adolescentes devem oferecer ferramentas de controle parental, reduzir mecanismos que estimulam uso compulsivo e aplicar filtros de idade para conteúdos impróprios. Mesmo assim, novos projetos no Congresso já testam a ideia de um veto direto, com atenção redobrada ao que ocorre agora na Austrália.

Por lá, o primeiro-ministro Anthony Albanese insiste em uma analogia simples. A lei não pretende eliminar totalmente o acesso, mas reduzir danos. “É como a proibição do consumo de álcool para menores de 18 anos. Não é 100% efetiva, mas reduz muito o consumo e abre a oportunidade de haver mais conversas familiares sobre esse tema, sobre a importância da restrição”, afirma, em linha com discursos recentes.

As famílias brasileiras sentem esse deslocamento na prática. Em muitas casas, a discussão sobre telas, antes empurrada para depois, vira pauta cotidiana desde dezembro. Pais e mães tentam decifrar o que é supervisão responsável e o que é vigilância excessiva. Adolescentes reagem com criatividade, frustração e, em alguns casos, alívio diante de uma pressão que vinha se tornando insuportável.

Os próximos meses vão testar a capacidade do governo australiano de sustentar a política diante de brechas técnicas e impopularidade entre parte dos jovens. Estados e reguladores discutem maneiras mais robustas de verificar idade sem criar bancos de dados invasivos. Empresas de tecnologia, por sua vez, buscam equilibrar exigências legais, custos de compliance e um mercado adolescente que continua a se reinventar nas bordas do sistema.

Enquanto novas leis amadurecem em Brasília e em outras capitais, a rotina de Carla, Manoela, Caetano e Juana antecipa dilemas que devem chegar a mais lares brasileiros. A experiência australiana expõe uma pergunta que nenhuma legislação resolve sozinha: até que ponto é possível proteger adolescentes do mundo digital sem isolá-los do convívio onde hoje, para o bem e para o mal, a vida também acontece?

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