Israel toma Castelo de Beaufort no sul do Líbano e pressiona Hezbollah
Tropas israelenses tomam neste domingo (31) o Castelo de Beaufort e a cordilheira ao redor, no sul do Líbano, em avanço direto contra o Hezbollah. A operação mira posições usadas para disparos contra o norte de Israel e intensifica a pressão militar sobre o grupo apoiado pelo Irã.
Fortaleza medieval volta ao centro da guerra atual
O Exército de Israel confirma o controle sobre a fortaleza de cerca de 900 anos e sobre a área de Wadi al-Saluki, eixo estratégico no sul do Líbano. O movimento ocorre pouco mais de seis semanas após o anúncio de um cessar-fogo formal, que na prática não interrompe os confrontos diários na fronteira.
O avanço terrestre vem na sequência de um sábado considerado pelos militares como um dos dias mais intensos de fogo do Hezbollah desde abril. Disparos de foguetes e mísseis forçam o fechamento de escolas, alteram rotinas civis e levam o governo israelense a impor novas restrições em cidades próximas à fronteira norte.
Com a tomada de Beaufort, Israel busca romper o que descreve como um corredor de infraestrutura militar montado com apoio direto de Teerã. Segundo o comando israelense, posições em elevações da cordilheira servem de base para lançadores, depósitos de armas e centros de comunicação do grupo xiita libanês.
A fortaleza, símbolo de disputas na região desde as Cruzadas, volta a ser peça central em um tabuleiro que combina memória histórica e cálculo militar. Localizada em um ponto alto que domina o vale do rio Litani, ela oferece visão ampla de dezenas de quilômetros, tanto para dentro do Líbano quanto na direção de Israel.
Pressão sobre o Hezbollah e reação política em Beirute
O comando militar israelense apresenta a operação como tentativa de reduzir a capacidade de ataque do Hezbollah a curto prazo. A ordem é estabelecer presença permanente na cordilheira, consolidar postos fortificados e destruir túneis, depósitos e lançadores identificados por satélite e drones nas últimas semanas.
Fontes militares em Tel Aviv afirmam que parte da artilharia usada nos disparos de sábado sai justamente da área agora ocupada. Oficiais classificam a operação como “necessária para proteger comunidades do norte” e sustentam que as posições tomadas eram usadas para o que chamam de “violação sistemática” do cessar-fogo.
Em Beirute, o tom é de denúncia. No sábado, o primeiro-ministro libanês acusa Israel de aplicar uma “política de terra arrasada” no sul do país. A expressão resume a preocupação do governo com a destruição de infraestrutura civil, de estradas a linhas de energia, em regiões onde o Hezbollah se mistura à população local.
O avanço sobre Beaufort acirra uma disputa interna no Líbano. Setores críticos ao Hezbollah veem risco de arrastar o país a um conflito de maior escala em nome da agenda iraniana. Aliados do grupo defendem a presença armada no sul como barreira essencial contra o que chamam de “agressão israelense”.
A captura da fortaleza também dialoga com a memória da guerra de 1982, quando tropas israelenses tomam o mesmo castelo durante a invasão do Líbano. Quarenta e quatro anos depois, o cenário se repete com novos armamentos, drones e sistemas de vigilância, mas com a mesma geografia determinando o deslocamento das tropas.
Risco de escalada regional e próximos movimentos
A mudança no controle de uma elevação-chave tende a alterar o cálculo militar nas duas margens da fronteira. Israel ganha profundidade de campo para monitorar movimentos do Hezbollah em um raio de dezenas de quilômetros, o que reduz o tempo de resposta a novos disparos. O grupo xiita perde uma de suas plataformas de observação e lançamento mais simbólicas no sul do país.
Analistas na região avaliam que a operação pode levar o Hezbollah a diversificar rotas de ataque, adotando posições mais ao norte do Litani ou aproximando lançadores da costa. Esse movimento, por sua vez, expõe novas cidades libanesas a represálias e amplia o mapa de risco para civis em ambos os lados.
A tensão também respinga em Teerã, principal patrocinador político e militar do Hezbollah. A perda de posições estratégicas após semanas de cessar-fogo formal coloca em xeque a eficácia da atual estratégia de pressão gradual sobre Israel. Uma resposta mais contundente do grupo, alimentada por armamentos iranianos, pode reacender o temor de um confronto aberto entre Israel e Irã, ainda que por intermédio de aliados.
Chancelarias ocidentais acompanham o avanço com preocupação. Integrantes da ONU alertam, em conversas reservadas, para o risco de o sul do Líbano voltar a um patamar de destruição semelhante ao registrado em 2006, quando a guerra de 34 dias deixou mais de mil mortos, a maioria libanesa, e deslocou centenas de milhares de pessoas.
Diplomatas ouvidos por veículos internacionais apontam que as próximas semanas serão decisivas. Se o Hezbollah aceitar a perda de Beaufort e concentrar esforços em novos pontos de pressão, a fronteira segue instável, porém contida. Se optar por uma escalada visível, com ataques mais pesados e de maior alcance, o castelo de pedra que domina o vale pode se tornar o marco inicial de mais uma fase da guerra no Oriente Médio.
